10 maio, 2002

Entrevista:

Monja Coen


Na década de 70, a paulista Cláudia Batista de Souza abandonou a carreira de jornalista para dedicar-se ao budismo, tornando-se a primeira monja a dirigir um templo no Brasil. A seguir, ela nos conta um pouco da sua rica história.

Por Fátima Afonso

PLANETA – Você casou pela primeira vez, aos 14 anos, com o empresário Antônio Carlos Scavone.
Por que um casamento tão cedo?
Coen – Houve várias circunstâncias. Eu queria muito sair de casa, ser dona de mim mesma, e a minha mãe era muito rigorosa, não me deixava namorar. Eu achava que devia ser independente. Além disso, eu tive um romance mais íntimo e minha família soube, achando que era melhor que eu me casasse. E eu queria casar, ser dona-de-casa, independente...
PLANETA – Esse casamento durou três anos...
Coen – Sim, quando eu estava grávida da minha filha, nós nos separamos. Eu tinha 17 anos. Eu era muito criança; meu marido era sete anos mais velho do que eu e tinha vergonha de me levar aos lugares, porque eu não sabia conversar. Então, ele começou a sair mais sozinho e a se interessar por outras pessoas; e eu não me importava. PLANETA – Você chegou a se casar de novo antes de se tornar monja?
Coen – Sim, mas não tive mais filhos.
PLANETA – Você trabalhou como jornalista no Jornal da Tarde, mas acabou abandonando tudo para se dedicar à vida religiosa. O que se passava pelo seu coração quando tomou essa decisão? Coen – Foi uma coisa muito boa, porque eu tive a impressão de que havia encontrado a razão de minha vida. Parece que, de repente, tudo que havia acontecido na minha vida tinha sido para eu chegar naquele momento. Nessa época, fui para os Estados Unidos e comecei a praticar o zazen. Eu havia saído do jornal e uma das matérias que tinha feito era sobre sociedades alternativas; na Califórnia havia muitas, uma delas era zen. Então, acabei conhecendo esse centro zen de Los Angeles e realmente me maravilhei... Ali encontrei a minha casa, a minha família. Já fazia meditações por minha conta, de ler livros, de seguir instruções pelo correio. De repente, quando eu cheguei lá, quem ensinava não era nenhum monge, mas uma estudante universitária. Ela nos dava instruções básicas de zazen, e era aquilo que, naturalmente, eu vinha fazendo antes. Então, para mim, encaixou. Eu acredito que religião é uma coisa assim: há um momento na vida que nosso coração se abre à procura de uma prática espiritual, do sagrado. E uma das várias tradições que existem no mundo vai ser aquela que se encaixa com o nosso ser. Por isso é bom que existam muitas religiões, porque cada um de nós é diferente. Eu nasci em uma família católica, fui educada em colégios de freira. E, de repente, comecei a ficar muito crítica em relação àquilo que se prega e ao que se vive. Eu notava que o que se prega no cristianismo é belíssimo, mas o que se vive ali nem sempre é. Por muito tempo fiquei sem ter religião nenhuma, mas me questionando: o que é Deus? Onde está Deus? E, com isso, eu acabei indo para a Inglaterra; fiquei um tempo lá, tive várias experiências que me levaram a procurar a meditação como uma resposta ao meu ques-tionamento. Depois, fui para os Estados Unidos, onde encontrei o que queria. E, conforme fui praticando zazen e fazendo retiros, eu concluí: “O que resta da minha vida eu quero que seja dedicada a essa prática.” Pedi ao monge que era responsável pela comunidade que freqüentava para ser ordenada, mas ele disse: “Não, você não conhece nada de budismo; vamos esperar até quando e se for apropriado para você.” Aí eu resolvi sair do Banco do Brasil, onde trabalhava, para ir morar nessa comunidade. Quando pedi autorização à professora que me guiava, ela disse: “Não faça isso!”
PLANETA – Por que essa reação tão negativa por parte dela?
Coen – Ela achava que era muito cedo, porque muitas pessoas, quando iniciam a meditação, realmente se entusiasmam. Esse contato com o nosso ser interior, a procura do verdadeiro em nós, é bastante sedutor. Muita gente quer largar tudo para fazer só isso e depois se arrepende. Nós vivemos neste mundo e não se sai dele porque se vira monja ou porque se vai ter uma prática meditativa. De qualquer maneira, eu larguei o emprego. Eu tinha meios suficientes de ficar na comunidade por três meses, porque ali se cobrava por morada, comida e para se ter os ensinamentos. No final desse período, eles me contrataram para trabalhar como secretária e ajudar em uns livros que estavam editando. Foi um tempo muito bom e rico para mim.
PLANETA – Você tem uma tradição católica e, de repente, largou sua filha aqui com a sua mãe e foi embora. Isso deve ter sido muito difícil para elas e o restante da família...
Coen – Sim, e a minha mãe me questionava: “Por que vai ser monja budista? Por que não vai ser freira católica?” E eu tinha de explicar-lhe isso. Mas foi maravilhoso porque, para explicar para a mãe, nós temos de explicar para o mais íntimo de nós mesmos. O que ela pensa está dentro de nós, muito mais do que se pode imaginar. Xaquiamuni Buda dizia aos monges, há 2.600 anos, que quem quer ser monge tem de ter a autorização dos pais, vivos ou mortos. Ou seja, você tem de pedir no seu coração que seus pais abençoem esse passo. Porque, se nossos pais – que é o mais íntimo de nós – tiverem alguma dúvida, esse processo não vai se desenvolver; esse é um obstáculo para você se entregar a uma vida religiosa. Sim. Então, um determinado dia, eu liguei para a minha mãe e ela disse assim: “Filha, eu entendi. Você está seguindo a Deus, seja qual for a religião. Que seja com as minhas bênçãos!” Quando ela disse isso, eu fiquei tão alegre. Na noite anterior, eu havia tido um momento de meditação em que pensava o seguinte: “Por que eu fico fazendo essa briga entre Jesus e Buda?” Na minha cabeça, de repente, eu vi como se os dois estivessem sentados juntos, como amigos. E, na manhã seguinte, minha mãe me deu sua bênção. Quer dizer, eu resolvi o problema em mim e ela sentiu isso na minha voz. Em seguida, fui à sala do meu professor como sempre fazia, para pedir-lhe que marcasse a minha ordenação. Antes que eu falasse, porém, ele abriu o seu livrinho e disse: “Vamos marcar a sua ordenação?” Ele não sabia que eu havia falado com a minha mãe, nem da visão que havia tido, e a marcou para 14 de janeiro de 1981. Fui a pessoa mais feliz do mundo!
PLANETA – Você disse que os cristãos não conseguem viver de acordo com as pregações do cristianismo. Você consegue viver de acordo com os ensinamentos do budismo?
Coen – Eu tento todos os dias. E a prática é constante. Eu me pego fazendo bobagens, e sou paciente comigo também, mas exigente. Digo: “Você pode ser melhor, tente outra vez.” Acho que podemos viver os ensinamentos de acordo com a nossa realidade; não adianta querer ir para uma caverna e dizer: “Aqui eu vivo os ensinamentos.” Não é isso.
PLANETA – Na caverna, teoricamente, eu não cometeria erros...
Coen – Mas acaba cometendo, sim. O importante é podermos estar com a comunidade e ajudar as pessoas a encontrar essa verdade que está em nós – isso é a prática religiosa. Eu sou de uma tradição mahayana, do grande veículo. No grande veículo, nós não seguimos os textos ao pé da letra. Temos de analisar por que esse ensinamento existe, por que foi dito nessa época, dessa forma, para essas pessoas. Ver qual é a essência desse ensinamento e trazê-la para a nossa vida. E as essências do ensinamento de Buda são muito simples. Elas dizem: “Não faça o mal, faça o bem para os outros.” Não podia ser mais simples. Agora, pôr isso em prática é difícil. Eu tenho notado que, em todas as religiões, existem muitas pessoas que estão pregando e, bem, na verdade, mas não estão conseguindo viver isso na sua vida. Mas esperamos que elas tentem e um dia possam ter o grande despertar. Outro dia eu estava falando com um sheik sufi que veio de Nova York, e ele me disse: “A nossa religião, a nossa tradição, é submeter-se, é obedecer, é entregar-se a Alá, a Deus.” Para nós budistas, é uma coisa muito próxima disso, porque nós nos entregamos ao dharma, que é a lei verdadeira. As pessoas pensam que ser livre é fazer o que se quer e quando se quer. Ao contrário, liberdade consiste em entregar-se ao verdadeiro; e muitas vezes é não fazer aquilo que eu gostaria, na hora em que quero, mas o que é apropriado naquela circunstância.
PLANETA – E, às vezes, é difícil você definir o que é apropriado.
Coen – É difícil. E o que acontece? Esses erros fundamentalistas ocorrem justamente porque nosso ego interfere com as coisas que eu quero que ocorram. E eu começo a dizer que o que quero é o que Deus ou dharma quer. Se não tiver uma clareza muito grande e capacidade de esvaziar-se dos seus apegos, dos seus desejos, você vai confundir tudo. De qualquer maneira, a vida acaba lhe ensinando. Na hora em que erra, a verdade se mostra a você. Tudo que fizer ela vai trazer de volta pra você.
PLANETA – Aí entra a questão do carma...
Coen – Eu digo que o carma é como um bumerangue: com a força que você o mandou, ele vai voltar. Se perceber que foi uma coisa negativa e se há arrependimento e transformação, você pode pegar o bumerangue e ele pode ferir menos. Eu não posso querer que o mundo se transforme, se eu não sou capaz de me transformar. Por isso a prática é fundamental. E temos de ter paciência para continuar tentando, porque, na hora em que eu me transformo, começo a transformar as coisas à minha volta.
PLANETA – Dentro desse processo de transformação, qual é o papel da meditação?
Coen – A meditação nos permite entrar em contato com o nosso ser interior. Quando se aquieta, você ouve; enquanto você está falando, não está ouvindo. Se a pessoa não quer fazer meditação sentada, pode fazer andando; se está doente pode ser deitada. O importante é encontrar o silêncio interior; nós temos de transcender a mente discriminatória, cognitiva, que pensa com conceito, por imagens, por palavras. Não é que a pessoa tenha de esvaziar a mente; ela já é vazia, porque não há nada fixo, permanente. O pensamento começa e termina; a emoção começa e termina, tudo tem o seu começo, meio e fim – é a transitoriedade. Tudo está em transformação e o que passa por nossa cabeça também. Às vezes as pessoas sentam em meditação e acham que têm de meditar num problema – isso não é meditação. Você percebe um pensamento, volta para sua postura, para sua respiração, sente o seu corpo, e daí? Aí há uns espaços vazios, que são palavras, outros que são imagens, outros emoções. E há espaços que são nada – não são palavra, imagem, emoção, memória, nem preocupação. O que é isso? Nós dizemos que o zazen, a meditação, o samadhi, seria exatamente isto: ir além do pensar e do não- pensar.
PLANETA – Mas para o ocidental é difícil se desligar de seu lado racional...
Coen – Para os orientais também é difícil. Criou-se uma idéia de que meditação é uma coisa oriental, mas não é. As tradições cristãs têm meditação cristã; as tradições judaicas, o sufismo, etc. têm meditação. Eu acho que ela faz parte de nós, seres humanos. Nós temos dois hemisférios cerebrais e, na verdade, damos mais ênfase a um deles, e a idéia é ativar o outro hemisfério. É isso que a meditação consegue. No começo, é um pouco esquisito mesmo: você senta para pensar em nada, para fazer nada. Mas nós dizemos: “Perceba que existe o pensamento, o pensar e também o não-pensar; perceba que o seu corpo incomoda, mas não é porque há um pequeno incômodo que você vai fazer tudo aquilo que quer. Você tem o controle do seu corpo; é você que controla a mente, não é a mente que lhe controla – e isso é difícil. Xaquiamuni Buda era chamado “O Controlador”. As pessoas ficam com medo: “Mas é lavagem cerebral? Vai haver uma pessoa controlando a minha mente?” É o contrário: as pessoas o controlam; você acaba sendo marionete. Se alguém fala algo, eu fico com raiva e xingo; fala aquilo, eu derreto, fico amorosa, dou risada; ou fico triste e choro. O que é isso? Você está reagindo a controles que as pessoas têm sobre você. Elas vão lá, apertam os seus botõezinhos e você reage de acordo com o apertão que levou. E, às vezes, você fica desesperada e diz: as pessoas mexem comigo; fulano me ofendeu, briguei, fiquei com raiva, a culpa é dele.” Não, as emoções fazem parte de nós humanos e temos de conhecê-las. Realmente, não vou deixar de chorar; só que eu percebo: “Meu botãozinho de choro está aqui. Agora, o que eu faço com isso?” Em vez de sair jogando coisas longe, matando pes-soas, batendo ou caindo em profunda depressão, vamos começar a perceber que essas emoções fazem parte da nossa tapeçaria de ser humano e vamos ser capazes de agir como queremos para que haja transformação.
PLANETA – Quer dizer, a partir do momento em que descubro quais são os meus pontos fracos, vou trabalhar isso para me fortalecer...
Coen – Sim. Os pontos fracos são bem-vindos, porque são os nossos professores. Aquele ponto que lhe abala é que deve ser trabalhado. A pessoa que me faz ficar bem ajuda em alguma coisa, mas aquele que me perturba é o verdadeiro professor, porque é para ele que eu tenho de ser capaz de fazer uma reverência.
PLANETA – O seu verdadeiro mestre, portanto, é o seu inimigo...
Coen – É o que seria o suposto inimigo. Eu gosto muito do Tchich Nhat Hanh, um monge vietnamita que diz assim: “Nós não temos inimigos, não há pessoas, nem grupos, nem países que possam ser inimigos; o que perturba o ser humano é a ganância, a raiva, a ignorância – são os chamados três venenos. Quais são os antídotos para esses três venenos? O que é ganancioso tem de aprender a dar, a doar, e não só coisas materiais, mas algo de si mesmo; às vezes, ouvir alguém, por exemplo. O antídoto da ignorância é a sabedoria iluminada. E temos de transformar a raiva em compaixão, em compreensão do outro. Compaixão não é tolerar, mas compreender, tornar-se um com o outro. E isso não significa que eu vou me transformar. Por exemplo, eu converso com o sheik, com o rabino e os compreendo, mas não vou me tornar israelita ou muçulmana; eu continuo sendo uma monja budista. Mas eu compreendo como eles pensam e os respeito. Eu não quero transformá-los em monges budistas.
PLANETA – Senão, acabaria cometendo o mesmo erro que a maioria das pessoas: querer encaixar o mundo no seu modelo.
Coen – Exatamente. O dalai lama conta uma coisa de que eu gosto muito. Um dos seus monges foi preso e torturado. Quando ele se encontrou com o dalai, este lhe perguntou: “O que foi mais difícil para você, meu filho, as agressões físicas, a falta de alimento, a separação dos outros monges?” E ele respondeu: “Houve um instante em que quase não consegui ter compaixão pelo que me torturava.” Acho que isso resume tudo: temos de sentir compaixão por aquele que nos faz o mal. E isso não é fácil.
PLANETA – Neste instante em que estamos passando por uma guerra no Oriente Médio, você consegue ver os americanos tendo compaixão pelos terroristas e afegãos, e vice-versa?
Coen – Não podemos generalizar, porque, no mundo, há todos os tipos de pessoas, em vários níveis espirituais de compreensão e compaixão. Para que consigamos que todos esses seres que formam a humanidade cresçam e passem para uma etapa de consciência superior, ainda vai levar tempo. Mas eu sinto uma grande alegria em saber que está aumentando o número de pessoas que percebem essa interconexão de tudo o que existe e que o sofrimento no Afeganistão e nos Estados Unidos é o nosso sofrimento.
PLANETA – Depois de viver 12 anos no Japão e tornar-se missionária da escola soto zenshu, você voltou para o Brasil, sendo a primeira mulher a dirigir um templo no País. Que dificuldades encontrou para exercer a função? Você sofreu algum tipo de preconceito?
Coen – Com certeza. Eu não senti isso na comunidade como um todo, mas nas pessoas mais próximas, que trabalhavam no templo. Quando eu cheguei a esse templo, quem passou o cargo para mim foi uma diretoria de senhores japoneses. Interessava a eles que eu assumisse o cargo naquele instante, não só porque queriam mandar embora outra pessoa, mas talvez até porque achassem que, sendo mulher, fosse fácil me controlar. Veja bem, são reflexões minhas – nada disso é verdade, porque eu não sei o que se passa na cabeça dos outros. De qualquer maneira, alguns monges mais velhos do que eu e umas senhoras que ajudavam no templo diziam que ali não era lugar para mulher mandar. Nessa época, eu era casada com um jovem monge japonês, que me apoiava profundamente e fez com que os outros me aceitassem. Ele dizia: “Ela é mais graduada que vocês, é chefe porque estudou e tem conhecimento.” Mas sempre ficou um rancorzinho dentro dos outros e, quando tiveram a oportunidade de criar uma situação contrária para que eu me afastasse, ficaram felizes.
PLANETA – Você foi afastada no final do ano passado. Já está em algum outro templo?
Coen – Não. O pessoal brinca muito comigo, dizendo que sou MST – a Monja Sem Templo. E, dentro de mim, este questionamento começou a surgir: “Será que é importante ter um prédio físico? Porque o templo somos nós, é onde nós estamos.” Buda ia de lugar em lugar ensinando; duas vezes por ano, na época das chuvas, é que ele ficava em um local só. Porque, na hora em que você tem um templo, a coisa começa a se institucionalizar; surge a ganância das pessoas; os desejos, a ignorância, as raivas parecem ficar mais concentrados ali. Conseguir criar uma comunidade que esteja liberta, com pessoas que queiram de fato transcender esses sentimentos, é difícil. Na verdade, nós vamos ter uma sedezinha aqui em São Paulo. Eu não acredito que vamos fazer um grande templo; mas isso eu não sei ainda. Acho que todo o futuro está aberto. Por enquanto, um aluno meu cedeu a sala do seu apartamento para fazermos meditação duas vezes por semana. Estou também dando palestras e meditação na Associação Palas Athena e no Projeto Oásis, no bairro do Campo Belo. Além disso, surgiu o projeto dos parques, a Caminhada Zen, que é a menina dos meus olhos.
PLANETA – Esse projeto foi baseado no método do monge Tchich Nhat Hanh, autor do livro Paz a Cada Passo... Coen – Isso. E o meu professor dos Estados Unidos, Mayso Miroshi, que já morreu, seguia algumas coisas da tradição rinzai, do zen-budismo, como o kinhin, que é a meditação caminhando: entre os períodos de meditação sentada, que duram de 40 a 45 minutos, nós levantamos e caminhamos cerca de sete a dez minutos. Nos mosteiros de tradições soto zen, é bem lentamente: caminha, respira, inspira, expira, até avançar a metade do próprio pé. Na tradição rinzai, eles andam no começo lentamente, depois começam a andar mais rápido. O meu professor nos Estados Unidos fazia isso. Na meia estação, às 5 horas da manhã, fazíamos um período de meditação, depois saíamos para andar pelos jardins da comunidade; era adorável! Às vezes, dávamos a volta no quarteirão, em fila indiana, todos em silêncio. Lembrando dessa prática que fiz em Los Angeles e do monge vietnamita, eu pensei: “Por que nós não levamos isso para vários parques da cidade?” As pessoas estão violentas e eu acredito que a meditação nos leva à não-violência, porque nos leva à realização desse hiperser que somos. Estamos conectados com tudo, com todos os seres e, se faço mal para alguém, a coisa volta para mim. Então, vamos começar a nos cuidar, a criar melhores condições de vida, menos fome, menos injustiça, menos maldade. Não é só isso que causa violência, mas essas também são algumas de suas causas.
PLANETA – A caminhada é uma forma de você trazer o budismo para fora do templo. Foi essa a sua intenção? Coen – Foi exatamente isso. Eu acho que os nossos ensinamentos são muito bons, simples, que podem ser praticados por qualquer um. E, às vezes, as pessoas têm cerimônia de entrar em um templo. Mas, se estão ali na rua conosco, é mais fácil interagir.
PLANETA – Qual foi a principal lição que o budismo lhe ensinou?
Coen – A minha abadessa dizia muito isto e eu acho que eu aprendi um pouquinho: “Seja como a água, não seja como o gelo, que é duro, que não cabe em um recipiente, que tem pontas e fere.” De vez em quando, surgem umas pedrinhas de gelo, mas eu estou querendo derretê-lo todo. Eu acho que o mais importante é isto: ser bom, ser macio, não ser duro, cheio de pontas; é querer o bem de todos os seres, e não desejar só o que é bom para mim.

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