30 maio, 2002

1. Mantendo a Mente Bodhi

Primeiramente você deve ter a firme decisão de atingir a iluminação e ajudar os outros. Você já tem os cinco ou dez preceitos. Saiba quando mantê-los e quando quebrá-los, quando eles estão abertos e quando eles estão fechados. Deixe ir embora seu pequeno "eu" e torne-se "eu" verdadeiro.

Na Natureza original
Não existe isso ou aquilo
O Grande Espelho Redondo
Não tem gostos ou aversões.

2. Mindfulness

Não se atenha a suas opiniões. Não discuta sua visão particular com os outros. Ater-se e defender suas opiniões é destruir sua prática. Afaste todas suas opiniões. Isso é verdadeiro Budismo.
Não vá onde não deve. Não escute conversa dos outros.
Não faça o mau karma do desejo, raiva ou ignorância.

Se nessa vida
Você não abrir sua mente,
Você não pode digerir
Nem uma gota d'água.

3. Sobre a conduta

Sempre aja em grupo. Não se sobressaia agindo de maneira diferente. Não se permite arrogância no templo.
Dinheiro e sexo são como uma serpente venenosa. "Mande longe" suas idéias sobre essas coisas.
Na sala de dharma caminhe sempre atrás daqueles sentados em meditação. Nas palestras e cerimônias, mantenha a postura correta e roupas certas. Não fale nem ria alto na sala de dharma.
Se você tem negócios fora do templo que vão fazer você se ausentar em refeições ou cerimônias, notifique um dos ajudantes do templo antes de sair.
Respeite os mais velhos. Ame os jovens. Mantenha a cabeça aberta.
Se você encontrar doentes, ame-os e ajude-os.
Seja hospitaleiro com a visitas. Faça-as sentirem-se benvindas e preste atenção às necessidades delas.
Quando pessoas respeitáveis visitarem o templo, faça-lhes mesura e converse com consideração.
Seja cortês. Deixe os outros passar.
Ajude os outros.
Não seja farsante.
Não faça fofoca.
Não use sapatos e casacos dos outros.
Não se aferre às escrituras.
Não durma demais.
Não seja frívolo.
Dê assento aos mais velhos e mais importantes.
Não discuta com as visitas aspectos irrelevantes internos ao templo.
Quando fora, fale bem do templo com os outros.
Beber demais ou ser desejoso vão causar mau karma e destruir sua prática. Você deve ser forte e pensar corretamente. Então esses desejos não podem tentá-lo.
Não se iluda pensando ser uma pessoa grandiosa e livre. Isso não é Budismo verdadeiro.
Cuide de si mesmo. Não julgue os outros.
Não faça o mau karma de matar, roubar ou ser desejoso.

Originalmente não há coisa alguma.
Mas Buda praticou imóvel sob a árvore Bodhi durante seis anos.
E Bodhidharma sentou-se silenciosamente em Sorim.
Se você puder derrubar a barreira de seu ser,
Você se tornará infinito em tempo e espaço.

4. Quanto à fala

Sua má língua vai levá-lo à ruina. Abra a boca somente quando necessário.
Sempre fale bem, à maneira de um bodhisattva. Não utilize linguagem vulgar no templo.
Não faça o mau karma de mentir, exagerar, causar confusão e amaldiçoar ou outros.
Se você se deparar com duas pessoas brigando, não atice com palavras. Em vez disso fale gentilmente para acalmar os ânimos.

Uma vez um homem falou erroneamente e renasceu
como raposa por 500 gerações. Depois de ouvir
a fala correta ele abandonou o corpo de raposa.
O que é fala correta e errada?
Se você abrir a boca, lhe bato 30 vezes.
Se você fechar a boca, ainda assim lhe bato 30 vezes.
Ouça com atenção o enunciado do kong-an e não o esqueça.
O cachorro está latindo: au, au, au!
O gato está miando: miau, miau, miau.

5. Ao Comer

Um eminente professor disse: "Um dia sem trabalhar é um dia sem comer".
Existem dois tipos de trabalho: o trabalho interno e o externo. O trabalho interno é manter a mente clara. O trabalho externo é cortar os desejos egoístas e ajudar os outros.
Primeiramente trabalhe, depois coma.
Coma em silêncio. Não faça barulho desnecessário.
Quando comer, cuide de si mesmo. Não se preocupe com o que os outros fazem.
Aceite com gratidão o que é servido. Não se atenha a seus gostos e aversões.
Não busque satisfação na comida. Coma somente para mantê-lo em sua prática.
Embora você possa comer por toda vida, seu corpo vai morrer.

O Grande Caminho não é difícil,
simplesmente corte o pensamento que classifica como bom ou ruim.
Sal é salgado.
Açúcar é doce.

6. Na prática formal.

Durante a prática formal aja com os outros.
Não seja preguiçoso.
Durante os cânticos, siga o ritmo do moktak.
Durante o sentar, siga o sinal do chugpi.
Perceba o verdadeiro significado de cantar e sentar e aja de acordo.
Entenda que você acumulou montanhas de mau karma. Mantenha isso em mente durante as prostrações de arrependimento.
Nosso karma não tem natureza própria, é criado por nossa mente. Se nossa mente se extingue, nosso karma se extingue. Quando percebemos que ambos são vazios, temos o verdadeiro arrependimento.
Fazemos reverências para ver nossa natureza verdadeira e ajudar os outros.

Ao gritar no vale
Um grande grito: um grande eco.
Um pequeno grito: um pequeno eco.

7. Sobre a palestra de dharma.

Quando ouvir as palavras do mestre, mantenha sua mente clara. Não se apegue às palavras. Corte qualquer pensamento e capte o verdadeiro sentido da fala.
Não pense que você já entendeu muito e não precisa dessa palestra; isso é ilusão.
Se você tem alguma pergunta, apresente-a ao mestre ao final da palestra.
Se uma serpente bebe água, a água se torna veneno. Se uma vaca bebe água, a água se torna leite.
Se você se atém à ignorância, você faz vida e morte. Se você mantiver a clareza, você se torna buda.

No grande trabalho de vida e morte, o tempo não vai esperar você.
Se você morrer amanhã, que tipo de corpo vai obter?
Não é isso de grande importância?
Se apresse! Depressa!
Céu azul e verde mar
São a face original de Buda.
O som da cachoeira e o cântico dos pássoros
são os grandes sutras.
Para onde você vai?
Olhe onde pisa.
A água corre para o mar.
As nuvens sobem aos céus.


Sobre o Vesak 2002 pela Paz

O primeiro Festival do Vesak, que comemora o nascimento,
iluminação e morte do Buda, foi um marco no que se pretende que seja
de agora em diante uma confraternização anual entre todas as escolas
budistas e seus praticantes e/ou simpatizantes.
Foi um encontro simples e ao mesmo tempo bastante significativo.
Uma oportunidade de conhecer as diferentes escolas que atuam no Brasil e
seus mestres

Primeiro Zazen na AZBF

Fui no primeiro zazen da Ass. Zen Budista de Florianópolis.
Estavam lá três pessoas.
As fundadoras mais eu. Soube que elas decidiram criar a associação
após uma palestra com um monge recem oredenado.
Isto no mês de maio. A maioria nunca meditou.

29 maio, 2002

Festival do Vesak-2002
Ginásio do Ibirapuera -SP
Dia 26 de maio
9:00-15:00
Veja o que aconteceu: fotos, reportagens aqui


28 maio, 2002

A sua vida tem um propósito e um sentido

Você não está aqui apenas para preencher um espaço ou para ser um figurante no filme de outra pessoa.
Pense nisto: o mundo seria diferente se você não existisse.
Cada lugar onde você esteve e cada pessoa com quem você
já falou seriam diferentes sem você. Estamos todos interligados e somos todos
afetados pelas decisões e mesmo pela existência daqueles que vivem no mundo conosco. (Lepper)

21 maio, 2002

Chien - O Criativo


O Criativo é sublime, tem sucesso, é favorável e perseverante.
O sublime do CRIATIVO decorre de que ele tudo inicia e obtém sucesso.
O favorável é a perseverança: por intermédio desses dois fatores a natureza
E a índole se realizam.
Para estabelecer o início, o Criativo é capaz de favorecer o mundo inteiro com a beleza.
Sua verdadeira grandeza consiste em nada ser dito sobre os meios através dos quais
ele favorece.

A respeito do Criativo se diz apenas que favorece através daquilo
que lhe é eternamente próprio, isto é, de sua essência mais profunda.
Essa essência não é definida com maior precisão; isso indica as
Infinitas possibilidades e aspectos de seus benefícios.

- Como é grande o Criativo! Ele é firme e forte,
moderado e correto, puro, sem macula e espiritual.
- Ele sobe, no momento adequado, voando aos céus
como que conduzido por seis dragões.
As nuvens passam, a chuva cai.”

Tudo isso significa que o mundo alcança a paz.

Richard Wilhelm [ I Ching – O Livro das Mutações]

Quando encontro esse livro, nas bibliotecas ou livrarias, costumo abri-lo
ao acaso. Nem sempre o acaso me agrada, mas desta vez o ACASO
me fez uma concessão. CRIATIVO é um dos meus adjetivos favoritos.

19 maio, 2002

Cerimônia do Chá

O Tchâ-no-yu ( Cerimônia do chá ) ou Sadôo ( literalmente, o caminho do chá ), é um sentimento que dificilmente pode ser expresso por palavras. Desenvolvida sob influência do budismo Zen (cujo objetivo é purificar a alma do homem, confundindo-a com a natureza), de certa forma pode-se dizer que o chanoyu é a materialização do empenho intuitivo do povo japonês pelo reconhecimento da verdadeira beleza na modéstia e simplicidade.
O Tchâ-no-yu tem desempenhado um importante papel na vida artística do povo japonês, pois envolve a apreciação do cômodo onde é realizada, o jardim que o circunda, os utensílios utilizados, a decoração do ambiente. Representando a beleza da simplicidade estudada e da harmonia com a natureza, o espírito do Tchâ-no-yu moldou o desenvolvimento da arquitetura, jardinagem paisagística, cerâmica e artes florais no Japão.

História

O hábito de tomar chá teve origem na China, durante a dinastia Han (sec. I e II). Dada a sua preciosidade, inicialmente foi usado como remédio, mas com o tempo passou a ser bebida de imperadores, nobres, sacerdotes, notadamente da seita Zen.
No século XII, quando o budismo Zen se firmou no Japão, o monge Eisai introduz o uso da Macha (chá em pó) oriundo da China e que substitui o chá em tijolo, usado desde o século VII.
No silêncio dos mosteiros Zen, onde os monges tomavam chá para se manter em vigília e meditação, aos poucos foi se desenvolvendo uma filosofia de vida que deveriam encontrar sua realização no chadô e sua cristalização estética no Tchâ-no-yu ou Cerimônia do Chá.
Coube a Murata Shuko (1422-1502), natural de Nara, unificar definitivamente o ideal do chá com a filosofia Zen: estabeleceu a medida de 04 tatamis (esteira) e meio para sala de chá - medida até hoje obedecida; utilização de cerâmica japonesa ao invés da chinesa; e introdução de um kakemono (rolo de caligrafia chinesa contendo um poema ou pensamento). Criou o daisu - pequena estante para abrigar os objetos cerimoniais e ainda elaborou um regulamento para a cerimônia, baseado no código de honra dos samurais, o Bushidô e na etiqueta seguida pelos monges Zen durante as refeições.
No século XVI,o Mestre Sen-no-Rikyu com base no espírito do Zen, deu estrutura definitiva à cerimônia do chá. Criou a cabana do chá, imbuída de espírito wab (desprendimento), cabana rústica de camponês, paredes toscas, teto de bambu ou de caniço, decoração sóbria. Baseou-se ainda em quatro princípios a essência da cerimônia: Wa (harmonia), Kei (respeito), Sei (pureza) e Jaku (tranqüilidade).
Após a morte de Sen-no-Rikyu seus ensinamentos foram transmitidos aos seus descendentes e discípulos. Á época de seus tataranetos três diferentes escolas foram fundadas: Omotensenke, Urasenke, Mushakojinsenke e continuam em atividade até hoje.
Para o povo japonês, o tchâ-no-yu é uma disciplina mental para conseguir chegar ao wabi ( estado mental no qual a pessoa é calma e feliz, com profunda simplicidade ); é, ao mesmo tempo, um acontecimento em que são essenciais a forma e a graça.

Cerimônia

As regras rigorosas da etiqueta do tchâ-no-yu que podem parecer penosas e meticulosas à primeira vista são, de fato, calculadas minuto a minuto, a fim de obter a maior economia de movimentos e, na verdade, agrada aos iniciados assistir a sua execução, especialmente quando realizada por mestres experimentados.

São utilizados os seguintes lugares, coisas e materiais:

Casa de chá ou sukiya:

Consiste em uma sala de chá (cha-shitsu), uma sala de preparo (mizu-ya), sala de espera (yoritsuki) e de um caminho ajardinado (roji) que leva a entrada da cada.

Utensílios:

Na cerimônia se usa principalmente: shaire (recipiente do chá),
shasem (uma espécie de vassourinha de chá feita de bambu para mexer o chá).

Kama e Furô (chaleira e braseiro):

Kama contém a água e é posta sobre o furô para ferver (no inverno, cria-se um ro, ou lareira no chão, removendo-se parte das placas do soalho).
Mizussáshi: um jarro. A água por ele contida é usada
para lavar o tchawan (tijela de chá) ou é despejada no kama.

Kensui: pote em que se despeja a água usada para lavar o tchawan.

Tchawan: pequena tijela para o chá.

Hishaku: concha para despejar água.

Ussuki ou Natsumê: recipiente de Iaca para o ussutchá (chá em pó).

Trajes e acessórios roupas de cores discretas. Em ocasiões formais, os homens vestem quimono de seda, de três ou cinco brasões de família estampados e tabi (meias brancas ou tradicionais). As mulheres vestem um quimono conservador brasonado e tabi. Os convidados devem trazer um pequeno leque dobrável e uma almofada de kaishi ( pequenos guardanapos de papel).

A cerimônia, de forma simplificada, consiste em:

1) primeira sessão na qual uma refeição ligeira denominada kaiseki é servida;
2) o nakadachi (breve pausa);
3) gozairi, a parte principal da cerimônia onde o koicha (chá de textura espessa é servido)
4) ingestão do usucha ( chá de textura fina).

Ao todo a cerimônia consome em média 4 horas.
fonte

15 maio, 2002

A Mente

A mente do passado é impossível de reter,
A mente do presente é impossível de sustentar,
A mente do futuro é impossível de apreender.

Sutra do Diamante [seção XXVIII]

13 maio, 2002

Kama Sutta ou Prazer Sensual


Se alguém, desejando o prazer sensual,
o obtém, sim,
seu coração se deleita.
O mortal obtém o que ele quer.
Porém se para essa pessoa
- que anseia, deseja -
os prazeres diminuem,
ela fica arrasada,
como se tivesse sido atingida por uma flecha.
Todos aqueles que evitem os desejos sensuais
- tal como fariam, com o seu pé,
sobre a cabeça de uma cobra -
superam, plenamente atentos,
esse apego no mundo.
Um homem que é ávido
por campos, terras, ouro,
gado, cavalos,
serviçais, empregados,
mulheres, parentes,
muitos prazeres sensuais,
é derrotado pela fraqueza
e atropelado pela inquietação,
pois a dor o invade
como a água, um barco rachado.
Dessa forma a pessoa, sempre plenamente atenta,
deve evitar os desejos sensuais.
Soltando-se deles,
ela cruza a correnteza
como aquela que, com a ajuda do barco,
alcança a outra margem.


Nipatta IV [Índice de Sutras]

12 maio, 2002

Compaixão de Mãe

Uma boa fórmula para ter compaixão de todos os seres,
segundo o budismo tibetano,
é pensar que todos os seres já foram a sua mãe em alguma vida.


10 maio, 2002

Entrevista:

Monja Coen


Na década de 70, a paulista Cláudia Batista de Souza abandonou a carreira de jornalista para dedicar-se ao budismo, tornando-se a primeira monja a dirigir um templo no Brasil. A seguir, ela nos conta um pouco da sua rica história.

Por Fátima Afonso

PLANETA – Você casou pela primeira vez, aos 14 anos, com o empresário Antônio Carlos Scavone.
Por que um casamento tão cedo?
Coen – Houve várias circunstâncias. Eu queria muito sair de casa, ser dona de mim mesma, e a minha mãe era muito rigorosa, não me deixava namorar. Eu achava que devia ser independente. Além disso, eu tive um romance mais íntimo e minha família soube, achando que era melhor que eu me casasse. E eu queria casar, ser dona-de-casa, independente...
PLANETA – Esse casamento durou três anos...
Coen – Sim, quando eu estava grávida da minha filha, nós nos separamos. Eu tinha 17 anos. Eu era muito criança; meu marido era sete anos mais velho do que eu e tinha vergonha de me levar aos lugares, porque eu não sabia conversar. Então, ele começou a sair mais sozinho e a se interessar por outras pessoas; e eu não me importava. PLANETA – Você chegou a se casar de novo antes de se tornar monja?
Coen – Sim, mas não tive mais filhos.
PLANETA – Você trabalhou como jornalista no Jornal da Tarde, mas acabou abandonando tudo para se dedicar à vida religiosa. O que se passava pelo seu coração quando tomou essa decisão? Coen – Foi uma coisa muito boa, porque eu tive a impressão de que havia encontrado a razão de minha vida. Parece que, de repente, tudo que havia acontecido na minha vida tinha sido para eu chegar naquele momento. Nessa época, fui para os Estados Unidos e comecei a praticar o zazen. Eu havia saído do jornal e uma das matérias que tinha feito era sobre sociedades alternativas; na Califórnia havia muitas, uma delas era zen. Então, acabei conhecendo esse centro zen de Los Angeles e realmente me maravilhei... Ali encontrei a minha casa, a minha família. Já fazia meditações por minha conta, de ler livros, de seguir instruções pelo correio. De repente, quando eu cheguei lá, quem ensinava não era nenhum monge, mas uma estudante universitária. Ela nos dava instruções básicas de zazen, e era aquilo que, naturalmente, eu vinha fazendo antes. Então, para mim, encaixou. Eu acredito que religião é uma coisa assim: há um momento na vida que nosso coração se abre à procura de uma prática espiritual, do sagrado. E uma das várias tradições que existem no mundo vai ser aquela que se encaixa com o nosso ser. Por isso é bom que existam muitas religiões, porque cada um de nós é diferente. Eu nasci em uma família católica, fui educada em colégios de freira. E, de repente, comecei a ficar muito crítica em relação àquilo que se prega e ao que se vive. Eu notava que o que se prega no cristianismo é belíssimo, mas o que se vive ali nem sempre é. Por muito tempo fiquei sem ter religião nenhuma, mas me questionando: o que é Deus? Onde está Deus? E, com isso, eu acabei indo para a Inglaterra; fiquei um tempo lá, tive várias experiências que me levaram a procurar a meditação como uma resposta ao meu ques-tionamento. Depois, fui para os Estados Unidos, onde encontrei o que queria. E, conforme fui praticando zazen e fazendo retiros, eu concluí: “O que resta da minha vida eu quero que seja dedicada a essa prática.” Pedi ao monge que era responsável pela comunidade que freqüentava para ser ordenada, mas ele disse: “Não, você não conhece nada de budismo; vamos esperar até quando e se for apropriado para você.” Aí eu resolvi sair do Banco do Brasil, onde trabalhava, para ir morar nessa comunidade. Quando pedi autorização à professora que me guiava, ela disse: “Não faça isso!”
PLANETA – Por que essa reação tão negativa por parte dela?
Coen – Ela achava que era muito cedo, porque muitas pessoas, quando iniciam a meditação, realmente se entusiasmam. Esse contato com o nosso ser interior, a procura do verdadeiro em nós, é bastante sedutor. Muita gente quer largar tudo para fazer só isso e depois se arrepende. Nós vivemos neste mundo e não se sai dele porque se vira monja ou porque se vai ter uma prática meditativa. De qualquer maneira, eu larguei o emprego. Eu tinha meios suficientes de ficar na comunidade por três meses, porque ali se cobrava por morada, comida e para se ter os ensinamentos. No final desse período, eles me contrataram para trabalhar como secretária e ajudar em uns livros que estavam editando. Foi um tempo muito bom e rico para mim.
PLANETA – Você tem uma tradição católica e, de repente, largou sua filha aqui com a sua mãe e foi embora. Isso deve ter sido muito difícil para elas e o restante da família...
Coen – Sim, e a minha mãe me questionava: “Por que vai ser monja budista? Por que não vai ser freira católica?” E eu tinha de explicar-lhe isso. Mas foi maravilhoso porque, para explicar para a mãe, nós temos de explicar para o mais íntimo de nós mesmos. O que ela pensa está dentro de nós, muito mais do que se pode imaginar. Xaquiamuni Buda dizia aos monges, há 2.600 anos, que quem quer ser monge tem de ter a autorização dos pais, vivos ou mortos. Ou seja, você tem de pedir no seu coração que seus pais abençoem esse passo. Porque, se nossos pais – que é o mais íntimo de nós – tiverem alguma dúvida, esse processo não vai se desenvolver; esse é um obstáculo para você se entregar a uma vida religiosa. Sim. Então, um determinado dia, eu liguei para a minha mãe e ela disse assim: “Filha, eu entendi. Você está seguindo a Deus, seja qual for a religião. Que seja com as minhas bênçãos!” Quando ela disse isso, eu fiquei tão alegre. Na noite anterior, eu havia tido um momento de meditação em que pensava o seguinte: “Por que eu fico fazendo essa briga entre Jesus e Buda?” Na minha cabeça, de repente, eu vi como se os dois estivessem sentados juntos, como amigos. E, na manhã seguinte, minha mãe me deu sua bênção. Quer dizer, eu resolvi o problema em mim e ela sentiu isso na minha voz. Em seguida, fui à sala do meu professor como sempre fazia, para pedir-lhe que marcasse a minha ordenação. Antes que eu falasse, porém, ele abriu o seu livrinho e disse: “Vamos marcar a sua ordenação?” Ele não sabia que eu havia falado com a minha mãe, nem da visão que havia tido, e a marcou para 14 de janeiro de 1981. Fui a pessoa mais feliz do mundo!
PLANETA – Você disse que os cristãos não conseguem viver de acordo com as pregações do cristianismo. Você consegue viver de acordo com os ensinamentos do budismo?
Coen – Eu tento todos os dias. E a prática é constante. Eu me pego fazendo bobagens, e sou paciente comigo também, mas exigente. Digo: “Você pode ser melhor, tente outra vez.” Acho que podemos viver os ensinamentos de acordo com a nossa realidade; não adianta querer ir para uma caverna e dizer: “Aqui eu vivo os ensinamentos.” Não é isso.
PLANETA – Na caverna, teoricamente, eu não cometeria erros...
Coen – Mas acaba cometendo, sim. O importante é podermos estar com a comunidade e ajudar as pessoas a encontrar essa verdade que está em nós – isso é a prática religiosa. Eu sou de uma tradição mahayana, do grande veículo. No grande veículo, nós não seguimos os textos ao pé da letra. Temos de analisar por que esse ensinamento existe, por que foi dito nessa época, dessa forma, para essas pessoas. Ver qual é a essência desse ensinamento e trazê-la para a nossa vida. E as essências do ensinamento de Buda são muito simples. Elas dizem: “Não faça o mal, faça o bem para os outros.” Não podia ser mais simples. Agora, pôr isso em prática é difícil. Eu tenho notado que, em todas as religiões, existem muitas pessoas que estão pregando e, bem, na verdade, mas não estão conseguindo viver isso na sua vida. Mas esperamos que elas tentem e um dia possam ter o grande despertar. Outro dia eu estava falando com um sheik sufi que veio de Nova York, e ele me disse: “A nossa religião, a nossa tradição, é submeter-se, é obedecer, é entregar-se a Alá, a Deus.” Para nós budistas, é uma coisa muito próxima disso, porque nós nos entregamos ao dharma, que é a lei verdadeira. As pessoas pensam que ser livre é fazer o que se quer e quando se quer. Ao contrário, liberdade consiste em entregar-se ao verdadeiro; e muitas vezes é não fazer aquilo que eu gostaria, na hora em que quero, mas o que é apropriado naquela circunstância.
PLANETA – E, às vezes, é difícil você definir o que é apropriado.
Coen – É difícil. E o que acontece? Esses erros fundamentalistas ocorrem justamente porque nosso ego interfere com as coisas que eu quero que ocorram. E eu começo a dizer que o que quero é o que Deus ou dharma quer. Se não tiver uma clareza muito grande e capacidade de esvaziar-se dos seus apegos, dos seus desejos, você vai confundir tudo. De qualquer maneira, a vida acaba lhe ensinando. Na hora em que erra, a verdade se mostra a você. Tudo que fizer ela vai trazer de volta pra você.
PLANETA – Aí entra a questão do carma...
Coen – Eu digo que o carma é como um bumerangue: com a força que você o mandou, ele vai voltar. Se perceber que foi uma coisa negativa e se há arrependimento e transformação, você pode pegar o bumerangue e ele pode ferir menos. Eu não posso querer que o mundo se transforme, se eu não sou capaz de me transformar. Por isso a prática é fundamental. E temos de ter paciência para continuar tentando, porque, na hora em que eu me transformo, começo a transformar as coisas à minha volta.
PLANETA – Dentro desse processo de transformação, qual é o papel da meditação?
Coen – A meditação nos permite entrar em contato com o nosso ser interior. Quando se aquieta, você ouve; enquanto você está falando, não está ouvindo. Se a pessoa não quer fazer meditação sentada, pode fazer andando; se está doente pode ser deitada. O importante é encontrar o silêncio interior; nós temos de transcender a mente discriminatória, cognitiva, que pensa com conceito, por imagens, por palavras. Não é que a pessoa tenha de esvaziar a mente; ela já é vazia, porque não há nada fixo, permanente. O pensamento começa e termina; a emoção começa e termina, tudo tem o seu começo, meio e fim – é a transitoriedade. Tudo está em transformação e o que passa por nossa cabeça também. Às vezes as pessoas sentam em meditação e acham que têm de meditar num problema – isso não é meditação. Você percebe um pensamento, volta para sua postura, para sua respiração, sente o seu corpo, e daí? Aí há uns espaços vazios, que são palavras, outros que são imagens, outros emoções. E há espaços que são nada – não são palavra, imagem, emoção, memória, nem preocupação. O que é isso? Nós dizemos que o zazen, a meditação, o samadhi, seria exatamente isto: ir além do pensar e do não- pensar.
PLANETA – Mas para o ocidental é difícil se desligar de seu lado racional...
Coen – Para os orientais também é difícil. Criou-se uma idéia de que meditação é uma coisa oriental, mas não é. As tradições cristãs têm meditação cristã; as tradições judaicas, o sufismo, etc. têm meditação. Eu acho que ela faz parte de nós, seres humanos. Nós temos dois hemisférios cerebrais e, na verdade, damos mais ênfase a um deles, e a idéia é ativar o outro hemisfério. É isso que a meditação consegue. No começo, é um pouco esquisito mesmo: você senta para pensar em nada, para fazer nada. Mas nós dizemos: “Perceba que existe o pensamento, o pensar e também o não-pensar; perceba que o seu corpo incomoda, mas não é porque há um pequeno incômodo que você vai fazer tudo aquilo que quer. Você tem o controle do seu corpo; é você que controla a mente, não é a mente que lhe controla – e isso é difícil. Xaquiamuni Buda era chamado “O Controlador”. As pessoas ficam com medo: “Mas é lavagem cerebral? Vai haver uma pessoa controlando a minha mente?” É o contrário: as pessoas o controlam; você acaba sendo marionete. Se alguém fala algo, eu fico com raiva e xingo; fala aquilo, eu derreto, fico amorosa, dou risada; ou fico triste e choro. O que é isso? Você está reagindo a controles que as pessoas têm sobre você. Elas vão lá, apertam os seus botõezinhos e você reage de acordo com o apertão que levou. E, às vezes, você fica desesperada e diz: as pessoas mexem comigo; fulano me ofendeu, briguei, fiquei com raiva, a culpa é dele.” Não, as emoções fazem parte de nós humanos e temos de conhecê-las. Realmente, não vou deixar de chorar; só que eu percebo: “Meu botãozinho de choro está aqui. Agora, o que eu faço com isso?” Em vez de sair jogando coisas longe, matando pes-soas, batendo ou caindo em profunda depressão, vamos começar a perceber que essas emoções fazem parte da nossa tapeçaria de ser humano e vamos ser capazes de agir como queremos para que haja transformação.
PLANETA – Quer dizer, a partir do momento em que descubro quais são os meus pontos fracos, vou trabalhar isso para me fortalecer...
Coen – Sim. Os pontos fracos são bem-vindos, porque são os nossos professores. Aquele ponto que lhe abala é que deve ser trabalhado. A pessoa que me faz ficar bem ajuda em alguma coisa, mas aquele que me perturba é o verdadeiro professor, porque é para ele que eu tenho de ser capaz de fazer uma reverência.
PLANETA – O seu verdadeiro mestre, portanto, é o seu inimigo...
Coen – É o que seria o suposto inimigo. Eu gosto muito do Tchich Nhat Hanh, um monge vietnamita que diz assim: “Nós não temos inimigos, não há pessoas, nem grupos, nem países que possam ser inimigos; o que perturba o ser humano é a ganância, a raiva, a ignorância – são os chamados três venenos. Quais são os antídotos para esses três venenos? O que é ganancioso tem de aprender a dar, a doar, e não só coisas materiais, mas algo de si mesmo; às vezes, ouvir alguém, por exemplo. O antídoto da ignorância é a sabedoria iluminada. E temos de transformar a raiva em compaixão, em compreensão do outro. Compaixão não é tolerar, mas compreender, tornar-se um com o outro. E isso não significa que eu vou me transformar. Por exemplo, eu converso com o sheik, com o rabino e os compreendo, mas não vou me tornar israelita ou muçulmana; eu continuo sendo uma monja budista. Mas eu compreendo como eles pensam e os respeito. Eu não quero transformá-los em monges budistas.
PLANETA – Senão, acabaria cometendo o mesmo erro que a maioria das pessoas: querer encaixar o mundo no seu modelo.
Coen – Exatamente. O dalai lama conta uma coisa de que eu gosto muito. Um dos seus monges foi preso e torturado. Quando ele se encontrou com o dalai, este lhe perguntou: “O que foi mais difícil para você, meu filho, as agressões físicas, a falta de alimento, a separação dos outros monges?” E ele respondeu: “Houve um instante em que quase não consegui ter compaixão pelo que me torturava.” Acho que isso resume tudo: temos de sentir compaixão por aquele que nos faz o mal. E isso não é fácil.
PLANETA – Neste instante em que estamos passando por uma guerra no Oriente Médio, você consegue ver os americanos tendo compaixão pelos terroristas e afegãos, e vice-versa?
Coen – Não podemos generalizar, porque, no mundo, há todos os tipos de pessoas, em vários níveis espirituais de compreensão e compaixão. Para que consigamos que todos esses seres que formam a humanidade cresçam e passem para uma etapa de consciência superior, ainda vai levar tempo. Mas eu sinto uma grande alegria em saber que está aumentando o número de pessoas que percebem essa interconexão de tudo o que existe e que o sofrimento no Afeganistão e nos Estados Unidos é o nosso sofrimento.
PLANETA – Depois de viver 12 anos no Japão e tornar-se missionária da escola soto zenshu, você voltou para o Brasil, sendo a primeira mulher a dirigir um templo no País. Que dificuldades encontrou para exercer a função? Você sofreu algum tipo de preconceito?
Coen – Com certeza. Eu não senti isso na comunidade como um todo, mas nas pessoas mais próximas, que trabalhavam no templo. Quando eu cheguei a esse templo, quem passou o cargo para mim foi uma diretoria de senhores japoneses. Interessava a eles que eu assumisse o cargo naquele instante, não só porque queriam mandar embora outra pessoa, mas talvez até porque achassem que, sendo mulher, fosse fácil me controlar. Veja bem, são reflexões minhas – nada disso é verdade, porque eu não sei o que se passa na cabeça dos outros. De qualquer maneira, alguns monges mais velhos do que eu e umas senhoras que ajudavam no templo diziam que ali não era lugar para mulher mandar. Nessa época, eu era casada com um jovem monge japonês, que me apoiava profundamente e fez com que os outros me aceitassem. Ele dizia: “Ela é mais graduada que vocês, é chefe porque estudou e tem conhecimento.” Mas sempre ficou um rancorzinho dentro dos outros e, quando tiveram a oportunidade de criar uma situação contrária para que eu me afastasse, ficaram felizes.
PLANETA – Você foi afastada no final do ano passado. Já está em algum outro templo?
Coen – Não. O pessoal brinca muito comigo, dizendo que sou MST – a Monja Sem Templo. E, dentro de mim, este questionamento começou a surgir: “Será que é importante ter um prédio físico? Porque o templo somos nós, é onde nós estamos.” Buda ia de lugar em lugar ensinando; duas vezes por ano, na época das chuvas, é que ele ficava em um local só. Porque, na hora em que você tem um templo, a coisa começa a se institucionalizar; surge a ganância das pessoas; os desejos, a ignorância, as raivas parecem ficar mais concentrados ali. Conseguir criar uma comunidade que esteja liberta, com pessoas que queiram de fato transcender esses sentimentos, é difícil. Na verdade, nós vamos ter uma sedezinha aqui em São Paulo. Eu não acredito que vamos fazer um grande templo; mas isso eu não sei ainda. Acho que todo o futuro está aberto. Por enquanto, um aluno meu cedeu a sala do seu apartamento para fazermos meditação duas vezes por semana. Estou também dando palestras e meditação na Associação Palas Athena e no Projeto Oásis, no bairro do Campo Belo. Além disso, surgiu o projeto dos parques, a Caminhada Zen, que é a menina dos meus olhos.
PLANETA – Esse projeto foi baseado no método do monge Tchich Nhat Hanh, autor do livro Paz a Cada Passo... Coen – Isso. E o meu professor dos Estados Unidos, Mayso Miroshi, que já morreu, seguia algumas coisas da tradição rinzai, do zen-budismo, como o kinhin, que é a meditação caminhando: entre os períodos de meditação sentada, que duram de 40 a 45 minutos, nós levantamos e caminhamos cerca de sete a dez minutos. Nos mosteiros de tradições soto zen, é bem lentamente: caminha, respira, inspira, expira, até avançar a metade do próprio pé. Na tradição rinzai, eles andam no começo lentamente, depois começam a andar mais rápido. O meu professor nos Estados Unidos fazia isso. Na meia estação, às 5 horas da manhã, fazíamos um período de meditação, depois saíamos para andar pelos jardins da comunidade; era adorável! Às vezes, dávamos a volta no quarteirão, em fila indiana, todos em silêncio. Lembrando dessa prática que fiz em Los Angeles e do monge vietnamita, eu pensei: “Por que nós não levamos isso para vários parques da cidade?” As pessoas estão violentas e eu acredito que a meditação nos leva à não-violência, porque nos leva à realização desse hiperser que somos. Estamos conectados com tudo, com todos os seres e, se faço mal para alguém, a coisa volta para mim. Então, vamos começar a nos cuidar, a criar melhores condições de vida, menos fome, menos injustiça, menos maldade. Não é só isso que causa violência, mas essas também são algumas de suas causas.
PLANETA – A caminhada é uma forma de você trazer o budismo para fora do templo. Foi essa a sua intenção? Coen – Foi exatamente isso. Eu acho que os nossos ensinamentos são muito bons, simples, que podem ser praticados por qualquer um. E, às vezes, as pessoas têm cerimônia de entrar em um templo. Mas, se estão ali na rua conosco, é mais fácil interagir.
PLANETA – Qual foi a principal lição que o budismo lhe ensinou?
Coen – A minha abadessa dizia muito isto e eu acho que eu aprendi um pouquinho: “Seja como a água, não seja como o gelo, que é duro, que não cabe em um recipiente, que tem pontas e fere.” De vez em quando, surgem umas pedrinhas de gelo, mas eu estou querendo derretê-lo todo. Eu acho que o mais importante é isto: ser bom, ser macio, não ser duro, cheio de pontas; é querer o bem de todos os seres, e não desejar só o que é bom para mim.

09 maio, 2002


Sutra do Diamante

"All composed things are like a dream,
a phantom, a drop of dew, a flash of lightning.
That is how to meditate on them,
that is how to observe them."

Todas as coisas que existem são como um sonho,
um fantasma, pequenas gotas de orvalho, um clarão de raio.
É assim que se deve meditar sobre as coisas e
é assim que se deve observá-las.

In:[Vajracchedika Sutra ou Sutra do Diamante]

08 maio, 2002

As Ramificações do Budismo

Hinayama (Pequeno veículo): assim chamado pelos seguidores do "Grande veículo", por considerarem uma doutrina insuficiente, visto que afirma que só o monge, levando uma vida totalmente ascética, pode chegar à iluminação. Os seguidores desse caminho, contudo, preferem ser chamados de Theravadin, isto é, seguidores dos anciãos. Essa corrente é difundida hoje no Sri Lanka e em Mianmá, na Tailândia, em Laos e no Camboja.
Mahayana (Grande veículo): floresceu com sucesso no norte da Índia até 500 d.C., em seguida desapareceu para firmar-se depois no Vietnã, no Japão e na China. Em relação à corrente anterior, esta acrescenta a possibilidade de reflexões filosóficas e místicas; dá espaço a práticas devocionais dirigidas ao Buda e aos outros iluminados, considerados como exemplo a ser imitado. A ela pertencem o Zen Budismo.

Vajrayana (Veículo do diamante): é a corrente menos difundida e que mais se distancia das origens, insistindo exatamente sobre os pontos que o Buda mais criticou: o ritualismo, a mística e a magia. Afirma-se enquanto corrente no século VI e difunde-se, especialmente pela Mongólia e pelo Tibete, onde é conhecida como "lamaísmo", visto que reconhece a autoridade político-religiosa do Dalai Lama.

07 maio, 2002



Os Sutras

Buda ensinou mais ou menos durante 44 anos. Nesse tempo fez milhares de discursos, dos quais
se extraem os ensinamentos, porém existe o Buda histórico: o Iluminado (Sidarta) e Buda Cósmico.
Buda falou a uma legião de discípulos monges e leigos, seguidores, príncipes, reis, todo o tipo de pessoas, mas ao mesmo tempo tem os discursos feitos em outros planos, para os deuses que vinham lhe pedir explicações, com outros Budas, e Bodhisattvas assim o Buda ensinava em vários planos, para aqueles que estavam vivos, para aqueles que estavam em mundos inferiores, para aqueles que estavam nos mundos superiores. Para todos os seres, pois para ele todos tinham chance de mudar sua condição para melhor, de despertar.

As perguntas que Buda não respondia :



O Cosmo é eterno?
O Cosmo não é eterno?
O Cosmo é finito?
O Cosmo é infinito?
Corpo e Alma são os mesmos em natureza?
A Alma é uma coisa e o Corpo outra?
Depois da morte existe um Tathagata? (Buda)
Depois da morte não existe um Tathagata?
Depois da morte um Tathagata tanto é existente como não existente?
Depois da morte um Tathagata nem é existente nem é não-inexistente?

Por que ele não fava sobre estas questões:

'E por que tais questões não são desveladas por mim? Porque elas não estão ligadas ao que realmente importa, não são úteis e fundamentais para a vida santa. Elas não levam ninguém ao fim da ilusão, ao fim do apego passional, à [correta] transcendência, à tranqüilidade, à [correta] sabedoria, à Liberação. Isto é porque elas não são desveladas por mim. “

Sobre quais questões é importante saber?

Natureza do Sofrimento Ignorante
Origem do Sofrimento Ignorante
[Possibilidade] da Cessação do Sofrimento Ignorante
O Caminho para a Cessação do Sofrimento Ignorante “

“E porque estas coisas são por mim desveladas?

Porque elas estão ligadas ao que realmente importa, são úteis e fundamentais para a vida santa. Elas levam ao fim da ilusão, ao fim do apego passional, à [correta] transcendência, à tranqüilidade, à [correta] sabedoria, à Liberação.
'Portanto, saiba que o que eu não desvelo é para não ser desvelado, e o que eu revelo é para ser revelado.'
Assim disse o Abençoado.

05 maio, 2002

O SUMI-Ê

originou-se da tradicional pintura chinesa baseada no Zen Budismo, sendo introduzido por monges budistas no Japão no século XIII. "Sumi" significa tinta preta e "ê" significa pintura, desenho.

Sua característica está na rapidez em que é realizado, não permitindo reflexão, correção ou repetição, devendo o artista fluir em sua inspiração natural.

Outra característica desta arte tradicional, está relacionado não como forma de expressão, mas sim com o objetivo da paz espiritual.
Os princípios estéticos e filosóficos da pintura Sumi-ê são:
-assimetria,
-singeleza,
-naturalidade,
-profundidade,
-desapego,
-quietude e
-serenidade interior.

A aprendizagem da pintura Sumi-ê é muito mais que o exercício de uma arte;
é um caminho espiritual para o equilíbrio e a paz interior.

A arte

"Os elementos básicos da arte Sumi-ê são três: a simplicidade, a simbolização e a naturalidade. A expressão que visa o eterno está em sintonia com a redução simbólica do espírito zen.
O sumi-ê é uma arte subjetiva e está longe de ser uma expressão objetiva calcada na observação simples. A reflexão é ditada pela percepção e a expressão, pelo sentimento.
O sumi-ê é uma pintura que precede o conhecimento da cor. Mas é também uma expressão que pressupõe o seu completo domínio. A arte da tinta sumi constitui-se na maneira mais eficiente de exprimir, com clareza, os objetivos do homem.
O misticismo das cores abreviadas e puro e profundo. Os traços flexíveis, apesar da ausência de contornos definidos, são extremamente ricos.
A expressão livre que brota através da cor sumi e dos movimentos do pincel reflete, com sinceridade, o caráter e a personalidade do autor, induzindo-o ao prazer das descobertas. Apesar da vida e do ambiente em que o homem se insere serem complexos e múltiplos; apesar de os costumes e sentimentos dos povos serem distintos, existe um desejo que é aproximadamente comum a todos. Esse desejo se divide em quatro fatores: uma vida eterna; uma vida agradável; uma vida livre e uma vida bela. Esses quatro fatores correspondem às quatro palavras do zen: sei (pureza), so (simplicidade), jun (suavidade), ga (elegância).
Uma vida eterna, uma vida agradável, uma pintura livre, um sentimento nobre. Tudo isso pode ser conseguido, através da pintura, que nos conduz à compreensão da razão da natureza. Amando a natureza, estaremos capacitados a amar as belezas naturais e os seres vivos. Assim nasce a paixão pela arte."
In: Massao Okinaka [ Caderno de Sumi-ê, Ed. Aliança Cultural Brasil Japão, 1989.]

Para a prática:
Não é necessário saber pintar nem desenhar;
É necessário gostar do que está fazendo;
É preciso se identificar com o Sumi-ê;
É uma forma de meditação;
Pinceladas rápidas, decisivas, sem repetir, sem corrigir e sem reflexos.

Material:

Pincel - próprio para Sumi-ê, geralmente pêlo de ovelha ou texugo, de maneira a reter muito líquido;
Sumi - tinta feita através do carvão, feita de fuligem e cola;
Papel de arroz - papel fino e absorvente, que dá a principal característica deste tipo de pintura.

[Suely Shiba Iakowsky, professora de Sumi-ê.]

A tendência moderna do Sumi-ê, é o uso de cores, da tinta Gansai (tinta japonesa de cores suaves),



04 maio, 2002

Nada Especial

"Se você continuar esta simples prática todos os dias, obterá um poder maravilhoso.
Maravilhoso antes de ser atingido, mas nada especial uma vez obtido."

Depois do zazen não tenho vontade de falar. Sinto que a prática do zazen é o bastante. Mas já que tenho que falar, gostaria de discorrer sobre como é maravilhoso praticar zazen. Nosso único propósito é manter essa prática para sempre. Ela começou no tempo sem início e continuará pelo futuro sem fim. A rigor, para o ser humano, não há outra prática a não ser esta Não há outra maneira de viver a não ser esta. A prática do Zen é a expressão direta de nossa verdadeira natureza.

Claro, qualquer coisa que façamos é expressão de nossa natureza, mas sem essa prática é difícil aperceber-se disso. Ser ativo é próprio da natureza humana, assim como de todas as formas de existência. Enquanto vivos, estamos sempre fazendo alguma coisa. Mas tão logo você pense: "Estou fazendo isto' ou "tenho que fazer isso" ou "preciso conseguir aquilo", você, na verdade, não está fazendo nada. Quando você renuncia, quando não deseja mais coisa nenhuma, quando não tenta nada de especial, então você está fazendo alguma coisa. Quando não há nenhuma idéia de ganho naquilo que faz, então está fazendo algo. Em zazen. você não faz o que faz objetivando algo. Você pode sentir-se como que fazendo algo especial mas, na verdade simplesmente está expressando sua verdadeira natureza; é a atividade que aplaca seu mais profundo desejo. Praticar zazen com algum objetivo não é verdadeira prática.

Se você continuar esta simples prática todos os dias, obterá um poder maravilhoso. Uma coisa maravilhosa antes de ser atingido, mas nada de especial uma vez obtido. É simplesmente você mesmo, nada especial. Como diz um poema chinês: "Eu fui e voltei. Não era nada especial. Rozan é famosa por suas montanhas; Sekko por suas águas". As pessoas pensam que deve ser maravilhoso ver a famosa cadeia de montanhas abraçada pela bruma e a água que se diz cobrir toda a terra. Mas se você for lá verá apenas água e montanhas. Nada especial.

É intrigante o fato de que a iluminação seja uma coisa maravilhosa para aqueles que não têm experiência dela e, contudo, não seja nada para aqueles que a atingiram. E, no entanto, não é apenas nada. Você entende? Para uma mulher com filhos, ter filhos não é nada especial. Zazen é assim. Portanto, se você perseverar nessa prática, mais e mais você obterá alguma coisa -nada especial, porém alguma coisa. Você pode chamar essa coisa de "natureza universal' ou "natureza de Buda" ou "iluminação". Muitos nomes podem lhe ser conferidos, mas para a pessoa que a possui, é nada, e ao mesmo tempo, é algo.

Quando expressamos nossa verdadeira natureza, nós somos seres humanos. Quando não, nós não sabemos o que somos. Não somos animais porque caminhamos sobre duas pernas. Somos diferentes dos animais, mas, o que somos? Podemos ser um fantasma. Não sabemos como denominar a nós mesmos. Tal criatura na verdade não existe. E uma ilusão. Ainda não somos humanos, contudo existimos. Quando o Zen não é Zen nada existe. O que estou falando não faz sentido para o intelecto mas, se você já experimentou a verdadeira prática, entenderá o que estou dizendo. Se alguma coisa existe, é porque ela possui sua verdadeira natureza, sua própria natureza búdica. No Sutra Pari-nirvana, o Buda diz: "Tudo tem natureza de Buda". Todavia, Dogen interpreta isto da seguinte maneira: "Tudo é natureza de Buda". Aqui há uma diferença. Se você diz: "Tudo tem natureza de Buda', significa que a natureza búdica está em cada existência, portanto, natureza búdica e cada existência são diferentes. Mas quando você diz "tudo é natureza de Buda", significa que todas as coisas são a própria natureza de Buda. Quando não há natureza de Buda, nada existe. Qualquer coisa que não seja natureza búdica é apenas ilusão. Pode existir em sua mente, mas tal coisa de fato não existe.

Ser um ser humano portanto é ser um Buda. Natureza búdica é apenas outro nome para nossa verdadeira natureza humana. Assim, mesmo que você não faça nada, já está fazendo alguma coisa. Você está expressando a si próprio, está expressando sua verdadeira natureza. Seus olhos, sua voz, sua conduta a expressam. A coisa mais importante é expressar sua verdadeira natureza na forma mais simples e adequada e apreciá-la, mesmo na mais insignificante das existências.

Com a continuidade desta prática, semana após semana, ano após ano, sua experiência se tornará mais e mais profunda e abraçará todas as coisas que fizer em sua vida diária. O mais importante é deixar de lado toda e qualquer idéia de ganho, toda e qualquer idéia dualista. Em outras palavras, pratique zazen somente na postura correta. Não pense nada. Apenas permaneça sentado na sua almofada, sem expectativa alguma, Então você reassumirá finalmente sua verdadeira natureza. Ou seja, sua própria natureza se reassumirá.

Shunryu Suzuki [Mente Zen. Mente de Principiante]

SHUNRYU SUZUKI (1905-1971),
foi descendente espiritual direto do grande mestre Zen do século XII, Dogen.

Profundamente respeitado no Japão como mestre Zen, o autor foi aos Estados Unidos em 1958, com a intenção de passar dois ou três anos. Porém, ficou do impressionado com a qualidade da "mente de principiante" e com a seriedade que encontrou entre os norte-americanos interessados no Zen, que acabou por tornar-se residente permanente, fixando-se em São Francisco.

Graças as pessoas que queriam participar de suas práticas, formou-se um grupo de meditação denominado Zen Center que, sob sua orientação, se expandiu para mais três locais, incluindo o Zen Mountain Center, o primeiro mosteiro de treinamento Zen fora da Ásia. Shunryu Suzuki foi, sem dúvida, um dos mais influentes mestres Zen do nosso tempo.
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