13 abril, 2002

Budistas são Agnósticos? Ateus?



Quando me perguntam se acredito em Deus...respondo que sim,
eu acredito em Deus.
Em um “Deus interior” que existe em todos nós. É por Ele e para tocá-lo que prático.
Talvez eu nunca chegue ao nível de Iluminação- fusão com Deus, que o Buda chegou. Pois a Iluminação na mais alta acepção significa fundir-se com “Deus”, morrer e nascer de novo, sem morrer fisicamente.
Mesmo que eu só consiga ver a sombra desse “Deus”, já será iluminação.
Quanto àquele Deus Muçúlmano-Judaíco, acho que ele morreu na Cruz, naquele ato sacrifícial, ele pôs um ponto final nesse Deus primitivo-tribal, o “Deus da Guerra”, que infelizmente alguns povos ainda insistem em manter vivo, mesmo que seja apenas para justificar sua barbárie. Daquele Deus renasceu outro mais humano, mais próximo de nós.
Jesus e Buda não são Deus, mas se tornaram Deus, se fundiram com Ele. E ambos deixam de uma maneira ou de outra, bem claro que se eles puderam nós tb. podemos.
Não há diferença entre rezar o terço todos os dias e fazer Zazen todos os dias, desde que seja feito com atenção plena, com fé, na mais absoluta concentração. A mesma dificuldades que um cristão encontra em se concentrar nas orações, o budista encontra na meditação.
A grande diferença ou uma das, é que; em Cristo esperamos que ele nos salve, em troca da nossa devoção fiel,
em certas coisinhas que pedimos ao longo da nossa vida, é uma relação mais comercial que espiritual.
Em Buda, a salvação depende de cada um, do que somos ou deixamos de ser. Não há culpa ou a quem culpar.
Aqui se faz, aqui se paga. Pelas nossas ações sofremos, e palas nossas ações nos redimimos, aqui e agora.
Não há como barganhar a nossa sorte ou azar pelo que poderíamos ou deixamos de fazer. Não há portanto paternalismo e sim compromisso e responsabilidade por sua própria salvação e pela salvação de todos. Não há um Deus por todos, mas sim todos por todos, portanto mais humano e democrático. É claro que existem escolas budistas que defendem, que se deva buscar primeira a sua própria salvação e depois quem sabe a dos outros. O próprio Buda foi dessa escola, mas seus seguidores mudaram as regras.
Talvez a primeira opção seja mais cômoda, menos trabalhosa, mais fácil, mas sempre ouvi dizer que o caminho mais fácil não é o caminho do céu ou nirvana, certamente não é o caminho do Buda que disse que sem esforço, sem prática não há recompensa.
Portanto acreditar ou não acreditar na existência de um Deus é irrelevante, porque independente de ele existir ou não, isso não muda meu compromisso em existir nele e dele existir em mim, é um aspecto inerente ao ser.
Vincular nossa fé, nossa prática em algo que existe ou não existe é desnecessário quando compreendemos porque praticamos, porque temos fé. Mas enquanto não compreendemos, talvez seja sim necessário ter uma referência onde ancorar nosso espírito.
Quando compreendermos que nossa prática não é uma barganha, uma troca que fazemos com alguém: Deus, entidades, deidades, santos, formas sutis, etc. ,e sim um ato de Amor por todos os seres, por todo o universo, do qual fazemos parte, que não precisamos pedir nada em troca de nossa devoção ou prática, como: “se conseguir um emprego vou fazer isso ou aquilo”. Só precisamos fazer a nossa parte, que é praticar com mente plena, atenta, com fé, e deixar que o “universo conspire a nosso favor”. A medida do nosso Amor é que faz as coisas acontecerem, esse é o nosso termômetro. Só precisamos ser bons, amáveis uns com os outros, compassivos, tolerantes com as diferenças, persistentes e firmes na nossa prática diária, não negligentes. Praticar, praticar. É para isso que existimos: para termos nossa experiência nesse mundo. Ela é nossa e única. Este mundo tem todos os elementos de que precisamos para nossa prática, todos os exemplos, bons e ruins. Mas antes é preciso perceber isso, despertar, praticar no dia-a-dia, em cada oportunidade, pois essa talvez seja nossa única oportunidade nessa vida. Se haverá outras vidas ou se a vida continuará em uma eternidade sem renascimentos, só nossa experiência poderá dizer e até lá é melhor estar preparado, desperto do eu, do que estar adormecido.
Se Buda falou ou não em Deus. Creio que não, ele devia ter seus motivos. Ele devia saber que remeter as pessoas para a tutela de um Deus as faria negligentes e preguiçosas e a elas o que caberia? Apenas esperar?
Buda queria que cada um fizesse a sua parte como ele fez. Ele baseou-se na sua experiência. Experiência que qualquer um pode ter, respeitada as devidas limitações de cada ser. Ele apenas disse: venha e veja por si mesmo, ou seja, tenha a sua própria experiência. Ela é sua, é pessoal, e sobretudo não precisa ser definitiva.
É apenas sua experiência, não a do vizinho, a do Buda, a do seu amigo.

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