28 abril, 2002

Por que o budismo condena o suicídio?



Não somente o budismo mas qualquer religião condena o
suicídio pela razão mais óbvio, porque a vida que vc.
acha que é sua e pode fazer o que quiser dela, não e
sua. Segundo o budismo, quem se suicida, não renasce
para uma vida melhor, não se engane, renasce sim em
mundos inferiores, com muito mais dor do que qualquer
máxima dor que alguém possa ter experimentado no mundo
humano. Portanto querer trocar alhos por bugalhos não
me parece uma troca vantajosa. Não acha?
Vá com calma!

Outra perspectiva

Realmente, o seu corpo não é seu. Quantos seres
não morreram para alimentá-lo e vestí-lo (morrem insetos
em colheitas), e o esforço de quantos outros para educá-lo?

No budismo suicídio é carmicamente pior do que assassinato.
Porque além do carma de matar, você tem o carma de
negar sua condição humana. Devido a isto, considera-se
certo que a pessoa renasça em infernos de grande sofrimento,
por muitas vidas consecutivas, e que quando enfim conseguir
uma vida humana, vá ser um feto abortado, uma pessoa
que morre ainda criança, assim por diante, até que após
muitas vidas consecutivas ela finalmente recupera alguma
estabilidade e longevidade no reino humano. Isso pode
levar mais de 500 vidas, nenhuma delas mais agradável
do que a presente. Quando enfim isto ocorre, ainda não
cessaram os sentimentos suicidas, e o carma por
inferência continua operando. Este pode ser seu caso.
Após 500 vidas de sofrimentos terríveis que vão diminuindo,
você finalmente consegue uma vida humana razoável,
mas então pensa em suicídio de novo. É um carma
extremamente ruim dentro do budismo.

Aqui contamos apenas o carma de matar e negar
a condição humana, mas há um carma pior, o de
causar sofrimento para todas as pessoas que conheceram
você. Em particular, este sofrimento não é apenas algo
ligado aos afetos e apegos - a pessoa poderia tentar
dizer "mas ninguém gosta de mim". O fato é que quando
a pessoa se suicida ela passa uma mensagem ruim
sobre a vida para todas as pessoas que a conheceram -
"eu não fiquei aqui, porque vocês vão ficar?" Isso mesmo
para os inimigos ou pessoas que nos tenham aversão!
Se você verificar, o suicídio dentro de uma família pode
se tornar contagioso. Muitas famílias possuem uma
doença suicida, onde vários membros se suicidam.

Imagine que mensagem passa uma mãe que se
suicida para seus filhos?

Além disto, ter conseguido uma existência humana em
que a pessoa chega a ouvir a palavra "dharma" é
extremamente rara. Diz-se que a possibilidade disto
ocorrer é na mesma proporção em que uma tartaruga
cega no fundo de um oceano do tamanho do universo
que vem a tona para respirar a cada 100 anos, por
acaso coloca sua cabeça no centro de uma bóia
agitada por ventos fortíssimos nesse oceano.

É uma tartaruga cega.

A única chance de praticarmos budismo talvez em 500
vidas ocorreu agora, seria uma grande pena desperdiçá-la.

Padma Dorje

Outra resposta:


Vou compartilhar algumas idéias que tenho a respeito do suicídio
para ver se ajudo você a entender que o suicídio é uma ação incorreta
do ponto de vista budista:

1) Não devemos matar nenhum ser senciente, não é? Porque
mataríamos a nós mesmos ... ? Não encare isso como apego à vida
que vivemos, mas sim como uma valorização da chance que temos de
encontrar o caminho que cessa nosso sofrimento ...
2) Pensar em escolher outra vida para recomeçar seu caminho é
equivocado, pois você estaria concebendo um Eu que renasce em
outro corpo, o que não é verdade. Quem disse que existem "atalhos"
na morte para pular etapas de nosso caminho ... ? A morte faz com
que se reinicie um outro ciclo (só o nirvana extingue o sofrimento) ...
Ou seja, tenderíamos a suicídios infinitos e um eterno samsara ...
3) Os pensamentos que temos no momento de nossa morte influenciam
diretamente o renascimento de nosso carma em outros seres que virão ...
Neste caso, os "belos" pensamentos de um suicida no momento de
sua execução não devem acrescentar muita coisa boa à humanidade ...
4) Onde está a compaixão para com os outros seres? Você seria
tão egoísta de se matar para livrar-se de seu sofrimento (o que não é
verdade) e perder a chance de ajudar aos outros na eliminação de
seus sofrimentos (que talvez sejam maiores que os seus) ... ?
5) .....
Luiz Claudio Parzianello

27 abril, 2002

Estudar o Caminho do Buda é estudar a si mesmo.
Estudar a si mesmo é esquecer-se de si mesmo.
Esquecer-se de si mesmo é estar iluminado por dez mil Dharmas.
Estar iluminado por dez mil Dharmas é estar liberto do corpo e da mente, e dos outros.
Nenhum rastro de iluminação permanece, e esta iluminação em rastro continua para sempre.
Quando se procura o Dharma pela primeira vez, está-se longe de seu ambiente.
Quando já se transmitiu corretamente o Dharma para alguém, somos o Self original naquele momento.
Quando se está num barco e olha-se para a praia, pode-se achar que a praia está se movendo.
Mas, olhando diretamente para o barco, sabe-se que é o barco que se move.
Se se examinarem os dez mil Dharmas com corpo e mente iludidos, supõe-se
que a mente e a natureza são permanentes.
Mas, se praticarmos intimamente e retornarmos ao verdadeiro self, ficará claro
que a mente e a natureza são permanentes.
Mas, se praticarmos intimamente e retornarmos ao verdadeiro Self,
ficará claro que os dez mil Dharmas não são o Eu.
A lenha transforma-se em cinza e não volta a ser lenha novamente.
Mas não pense que a cinza é depois e a lenha antes.
Devemos compreender que a lenha está no estado de lenha, e que era assim antes e depois.
E, apesar de seu passado e futuro, o presente é independente deles.
A cinza está no estado de cinza, que era antes e depois.
Assim como a lenha não volta a ser lenha depois que vira cinza,
depois da morte não retorna à vida novamente.
Portanto, que a vida não se torna morte é um fato incondicional
do Dharma de Buda; por este motivo, a vida é chamada de não nascida.
Que a morte não se torna vida, é a repetição da roda do
Dharma confirmada por Buda; portanto, a morte é chamada de não extinguida.
A vida é um período do si mesmo.
A morte é um período do si mesmo.

Trecho do Shobogenzo Koan, Zenji Dogen (1200-1253)
David Scott & Tony Doubleday [ Elementos do Zen ]

25 abril, 2002

Mire e veja

(...) o real não está na saída nem na chegada, ele se dispõe para gente é no meio da travessia. Mire e veja: o mais importante e bonito desse mundo é: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que estão sempre mudando. Afinam e desafinam. Verdade maior é o que a vida me ensinou.
[Guimarães Rosa]

24 abril, 2002


Que bom que vc. veio!

Volte outras vezes

Sutra do Buda Sagrado

Até chegar ao caminho,
Vc. vagueia pelo mundo
Com o precioso Buda
Completamente envolto dentro de si
Como uma trouxa de trapos
... vc. tem esse Buda precioso.
Desembrulhe-o rápido!
Lama Surya Das [ O Despertar do Buda Interior]

23 abril, 2002

De acordo com a sua própria essência, o Zen não é nenhuma religião ou ideologia que pretenda
impor formas estranhas aos que têm outros modos de pensar. Ao contrário, ele se refere à única
Luz que resplandece através de todas as janelas coloridas pelas quais as diversas pessoas
e povos tentam ver o que há do lado de fora, segundo suas próprias naturezas e tradições. O Zen
é como a chuva, que propicia o crescimento de cada semente na sua própria forma; sem ela, a
planta secaria. O Zen é a terra que abriga todas as fontes da vida, em que cada qual deve
mergulhar suas raízes novamente, se é que deseja encontrar o caminho que leva à descoberta de si
mesmo, de modo a renovar-se. O Zen é o ar que todo ser humano respira e sem o qual, em última análise,
a vida humana sufocaria.
K.G. Dürckheim [O zen e nós]

22 abril, 2002

Destino, Livre-arbítrio e Carma


Essa visão de Carma como Destino me parece uma visão mais hinduísta . Vc. certamente já ouviu alguém falando a expressão: “Deve ser o meu carma”, talvez até já tenha dito isso. Buda deu um upgrade, atualizada, nesse conceito.
Se vc. tem livre-arbítrio, ele anula o destino?

Concordo, mas acredito mais em destino na visão budista, em carma que não é destino e sim marca, mancha, macula. Vc. suja a sua calça, então vc. pode escolher ou vc. continua usando a calça suja ou vc. lava ela e a continua usando limpa. Isso se vc. tem consciência que a calça tá suja. Na maioria das vezes andamos por ai com a calça suja e nem percebemos, mas um dia vamos lavar a calça de qualquer jeito e ela ficará limpa, por que aprendemos que é assim que tem que ser. O grande click disso é vc. perceber o tempo todo que está suja, ou perceber no momento que sujou e tentar limpar imediatamente, impedindo que outra e outra sujeira se acumule sobre, o que tornará o processo de limpar mais penoso, demorado. Vc. pode limpar as sujeirinhas que vão se acumulando. Vc. vai fazendo outras e vai limpando. É um ciclo que só acaba quando limpamos tudo e não sujamos mais nada.

Se não há escolha não há livre-arbítrio?

Não, carma tb. é escolha. Só existe carma por que escolhemos isso ao invés daquilo, já a idéia de destino é pessimista justamente por que temos que aceitar que é destino e não tem escolha.
Nascemos ou melhor renascemos, é tudo um continum: se vc. não consegue limpar seu carma nessa vida , ele vai com vc. para a próxima e a próxima, mas se vc. desperta e toma consciência de qual é o teu carma e de que a todo momento vc, pode e tem o livre arbítrio de mudá-lo, vc. pode minimizar seu carma trazido de outras vidas e evitar aumenta-lo nessa vida, purificando-o com boas ações.

Você já tem consciência do teu carma?

De algumas coisas sim, pelo menos do que é mais recente, mas de um carma mais profundo, acho que não,
mesmo porque ainda não procurei pensar nisso, mas agora que me perguntou vou acionar o Sherlock que existe em mim e ver se acho algo.

Como se tem consciência do nosso carma?

Treinando a Atenção Plena e praticando na meditação, nos tornando melhores por que queremos não
por vaidade ou exibicionismo, ajudando as pessoas, tendo compaixão de todos os seres. Mas sobre tudo
vivendo no momento, aqui e agora é que conseguimos perceber nosso carma acontecendo, podemos olhar para ele e pára-lo, podemos vê-lo passar diante de nós, podemos vê-lo chegando e escolher entre deixa-lo vir ou anula-lo antes. A prática da atenção plena é um poderoso instrumento para derrotar a maquininha de fazer carma. Vc. pensa antes e decide se vai fazer ou não. Vc. pensa isso é certo e se vc. ouve um sim vc. faz, se vc. ouve um não vc. não faz. Se vc. não ouve nada, melhor não fazer. É um exercício que exige muito treino: prestar atenção às nossas ações, pensamentos, emoções, como reagimos ao ouvir algo, ao ler algo, ao pensar algo, ao fazer algo. O que pensamos e porque pensamos de determinada maneira.

Mas isso é um policiamento ostensivo.

Acho que é mas não é no sentido de se privar disso ou daquilo, mesmo porque não conseguimos ter
controle sobre nossos pensamentos, sentimentos, atos o tempo todo. Muita coisa nos foge e só conseguimos observar e nos perguntar algo depois. Muitas coisas nos distraem, nos seduzem,
nos arrastam para a desatenção. Entre meditar e ver a novela dos oito, o que vc. escolhe?

20 abril, 2002

Condimentos e Budismo

Acabo de ler no livro:

“Existe um condicionamento quase mundialmente conhecido de que o alho e a cebola
são imprescindíveis à preparação dos alimentos.
Mas, se vc. busca a purificação do seu corpo, evite consumi-los, pois o odor de ambos é tido como
obstáculo ao contato do corpo etérico do homem com vibrações mais sutis.
Os cozinheiros budistas não usam esses condimentos.” p.11

E quem disse que eu quero ter algum contato com vibrações sutis!


19 abril, 2002

Veja este mundo com os olhos de Buda



Três qualidades capacitam as pessoas a compreenderem os ensinamentos do Buda:
objetividade, que significa mente aberta;
inteligência, que é a aptidão crítica para discernir o verdadeiro sentido do
ao analisar os ensinamentos; e o terceiro, o interesse e empenho, que
significa entusiasmo.
Dalai Lama [O Livro dos Dias]

14 abril, 2002

Consciência Plena

É sermos positivos.
É um jogo divertido que devemos praticar diariamente.
Durante o dia, preste atenção nas coisas que pensa,
nas emoções que sente, em suas reações.
Quando algo negativo vier, ao invés de reagir e se
Entregar para essa negatividade, mude conscientemente
Seu pensamento para algo positivo.
Da mesma maneira que vc. precisa trabalhar o corpo para
Se tornar forte, sua mente é como um músculo-
vc. precisa exercitá-la para que fique forte.
Eliminando pensamentos negativos da sua mente,
Se exercitando, com o tempo notará que se sente
Melhor e mais feliz durante todo o dia porque
Não deixará ser levado por negatividades
Com as quais se depara. E ao final do dia
Descobrirá que tem mais energia para a noite.
Zenmind

13 abril, 2002

Budistas são Agnósticos? Ateus?



Quando me perguntam se acredito em Deus...respondo que sim,
eu acredito em Deus.
Em um “Deus interior” que existe em todos nós. É por Ele e para tocá-lo que prático.
Talvez eu nunca chegue ao nível de Iluminação- fusão com Deus, que o Buda chegou. Pois a Iluminação na mais alta acepção significa fundir-se com “Deus”, morrer e nascer de novo, sem morrer fisicamente.
Mesmo que eu só consiga ver a sombra desse “Deus”, já será iluminação.
Quanto àquele Deus Muçúlmano-Judaíco, acho que ele morreu na Cruz, naquele ato sacrifícial, ele pôs um ponto final nesse Deus primitivo-tribal, o “Deus da Guerra”, que infelizmente alguns povos ainda insistem em manter vivo, mesmo que seja apenas para justificar sua barbárie. Daquele Deus renasceu outro mais humano, mais próximo de nós.
Jesus e Buda não são Deus, mas se tornaram Deus, se fundiram com Ele. E ambos deixam de uma maneira ou de outra, bem claro que se eles puderam nós tb. podemos.
Não há diferença entre rezar o terço todos os dias e fazer Zazen todos os dias, desde que seja feito com atenção plena, com fé, na mais absoluta concentração. A mesma dificuldades que um cristão encontra em se concentrar nas orações, o budista encontra na meditação.
A grande diferença ou uma das, é que; em Cristo esperamos que ele nos salve, em troca da nossa devoção fiel,
em certas coisinhas que pedimos ao longo da nossa vida, é uma relação mais comercial que espiritual.
Em Buda, a salvação depende de cada um, do que somos ou deixamos de ser. Não há culpa ou a quem culpar.
Aqui se faz, aqui se paga. Pelas nossas ações sofremos, e palas nossas ações nos redimimos, aqui e agora.
Não há como barganhar a nossa sorte ou azar pelo que poderíamos ou deixamos de fazer. Não há portanto paternalismo e sim compromisso e responsabilidade por sua própria salvação e pela salvação de todos. Não há um Deus por todos, mas sim todos por todos, portanto mais humano e democrático. É claro que existem escolas budistas que defendem, que se deva buscar primeira a sua própria salvação e depois quem sabe a dos outros. O próprio Buda foi dessa escola, mas seus seguidores mudaram as regras.
Talvez a primeira opção seja mais cômoda, menos trabalhosa, mais fácil, mas sempre ouvi dizer que o caminho mais fácil não é o caminho do céu ou nirvana, certamente não é o caminho do Buda que disse que sem esforço, sem prática não há recompensa.
Portanto acreditar ou não acreditar na existência de um Deus é irrelevante, porque independente de ele existir ou não, isso não muda meu compromisso em existir nele e dele existir em mim, é um aspecto inerente ao ser.
Vincular nossa fé, nossa prática em algo que existe ou não existe é desnecessário quando compreendemos porque praticamos, porque temos fé. Mas enquanto não compreendemos, talvez seja sim necessário ter uma referência onde ancorar nosso espírito.
Quando compreendermos que nossa prática não é uma barganha, uma troca que fazemos com alguém: Deus, entidades, deidades, santos, formas sutis, etc. ,e sim um ato de Amor por todos os seres, por todo o universo, do qual fazemos parte, que não precisamos pedir nada em troca de nossa devoção ou prática, como: “se conseguir um emprego vou fazer isso ou aquilo”. Só precisamos fazer a nossa parte, que é praticar com mente plena, atenta, com fé, e deixar que o “universo conspire a nosso favor”. A medida do nosso Amor é que faz as coisas acontecerem, esse é o nosso termômetro. Só precisamos ser bons, amáveis uns com os outros, compassivos, tolerantes com as diferenças, persistentes e firmes na nossa prática diária, não negligentes. Praticar, praticar. É para isso que existimos: para termos nossa experiência nesse mundo. Ela é nossa e única. Este mundo tem todos os elementos de que precisamos para nossa prática, todos os exemplos, bons e ruins. Mas antes é preciso perceber isso, despertar, praticar no dia-a-dia, em cada oportunidade, pois essa talvez seja nossa única oportunidade nessa vida. Se haverá outras vidas ou se a vida continuará em uma eternidade sem renascimentos, só nossa experiência poderá dizer e até lá é melhor estar preparado, desperto do eu, do que estar adormecido.
Se Buda falou ou não em Deus. Creio que não, ele devia ter seus motivos. Ele devia saber que remeter as pessoas para a tutela de um Deus as faria negligentes e preguiçosas e a elas o que caberia? Apenas esperar?
Buda queria que cada um fizesse a sua parte como ele fez. Ele baseou-se na sua experiência. Experiência que qualquer um pode ter, respeitada as devidas limitações de cada ser. Ele apenas disse: venha e veja por si mesmo, ou seja, tenha a sua própria experiência. Ela é sua, é pessoal, e sobretudo não precisa ser definitiva.
É apenas sua experiência, não a do vizinho, a do Buda, a do seu amigo.

O AGORA é TUDO o que vc. tem.

12 abril, 2002

Compaixão

A verdadeira compaixão é livre de vinculações.
Não é este ou aquele caso em especial que estimula a nossa piedade.
Não escolhemos está ou aquela pessoa como objeto de nossa compaixão.
A compaixão é despertada espontaneamente, é incondicional,
sem qualquer expectativa de vir a receber algo em troca.
É de alcance universal.

Sentir compaixão não é o bastante.
É preciso agir. A ação pressupõe dois momentos:
o primeiro é quando vencemos as distorções e aplacando ou até mesmo
nos livrando da raiva.
Este momento é fruto da compaixão.
O segundo momento é caráter social, de âmbito público.
Quando alguma atitude precisa ser tomada para
corrigir erros e a pessoa está sinceramente preocupada
com os semelhantes, então tem de se engajar, se envolver.

Dalai Lama [O Caminho da Tranqüilidade]

10 abril, 2002

KOAN

Koan é uma de desafio mental. Enquanto vc. tenta solucionar o quebra-cabeça, sua “mente”
se esvazia. A mente fixa no koan, não irá divagar entre milhares de mundos, se esforçará para chegar a uma resposta, pois a mente por natureza gosta de desafios.
A mente vai usar todas as formas conhecidas para solucionar o koan, até exaurir todas as possibilidades, quando não houver mais saídas, ele cairá vencida pelo cansaço.
Se concentrar no estudo, na análise de koans é um dos métodos utilizados para chegar a realização plena.
Respostas lógicas não funcionam, não servem.

“Como era a tua face antes de teus pais nascerem?”

Muitos koans sequer tem resposta, mas isso não é o que importa.


O suco de maçã de Thanh Thuy

Três crianças, duas meninas e um menininho, vieram hoje do vilarejo para brincar com Thanh Thuy (pronuncia-se "Tan Tui"). Os quatro correram para brincar no morro atrás da casa e sumiram por uma hora até que voltaram para beber alguma coisa. Peguei a última garrafa de suco de maçã feito em casa e ofereci um copo cheio a cada um, servindo Thuy por último. Como o suco dela veio do fundo da garrafa, continha alguma polpa. Ao reparar nas partículas, ela fez beicinho e recusou-se a beber As quatro crianças voltaram então ao morro para brincar, e Thuy não tinha bebido nada.

Meia hora depois, enquanto meditava em meu quarto, eu a ouvi chamar meu nome. Thuy queria beber água gelada, mas mesmo na ponta dos pés não conseguia alcançar a torneira. Lembrei-lhe o copo de suco que estava em cima da mesa e pedi-lhe que o bebesse primeiro. Olhando para ele novamente, ela percebeu que a polpa se acomodara e que o suco estava transparente e parecia delicioso. Ela se dirigiu à mesa e tomou o suco, segurando o copo com ambas as mãos. Depois de beber metade do líquido, ela pousou o copo na mesa e perguntou: "Este é outro copo, tio monge?" (um termo comum usado pelas crianças vietnamitas quando se dirigem a um monge mais velho).

"Não", respondi. "E o mesmo de antes. Ele ficou quieto durante algum tempo, e agora está claro e delicioso". Thuy olhou novamente para o copo. "Realmente está gostoso. Ele estava meditando como você, tio monge'?" Ri e afaguei sua cabeça. "Digamos que eu imito o suco de maçã quando fico sentado; isso está bem próximo da verdade".

Todas as noites na hora de Thuy ir para a cama, sento-me para meditar. Deixo que ela durma no mesmo quarto,perto do local onde estou sentado. Combinamos que enquanto eu estiver sentado, ela irá para a cama sem falar nada. Nesta tranqüila atmosfera, ela relaxa facilmente e adormece geralmente em 5 ou 10 minutos. Quando encerro minha meditação, eu a cubro com um cobertor.

Thanh Thuy é filha de "barqueiros". Ainda não tem 4 anos e meio. Ela cruzou os mares com o pai e chegou à Malásia em abril do ano passado. Sua mãe ficou no Vietnã. Quando seu pai chegou aqui na França, deixou Thuy conosco por vários meses enquanto foi a Paris procurar emprego. Ensinei a ela o alfabeto vietnamita e algumas canções populares do nosso pais. Ela é muito inteligente, e após duas semanas era capaz de soletrar e ler devagar The Kingdom of Foois, de Leão Tolstoi, que traduzi do francês para o vietnamita.

Todas as noites Thanh Thuy me vê ficar sentado. Eu lhe disse que "estou sentado meditando", sem explicar o que isso significa ou por que o faço. Todas as noites, quando me vê lavar o rosto, vestir minha túnica e acender uma vareta de incenso para perfumar o quarto, ela sabe que logo começarei a "meditar". Sabe também que está na hora de escovar os dentes, vestir o pijama e ir em silêncio para a cama. Nunca precisei lembrar-lhe isso.

Não há nenhuma dúvida de que Thuy achou que o suco de maçã estava quieto por algum tempo para ficar mais limpo, exatamente como seu tio monge. "Ele estava meditando como você?" Acho que Thanh Thuy, que ainda não tem 4 anos e meio, compreende o significado da meditação sem que eu nada tenha explicado. O suco de maçã ficou mais claro depois de descansar um pouco. Da mesma maneira, se ficarmos quietos meditando durante algum tempo, também ficaremos mais claros. Essa clareza nos refresca e nos confere força e serenidade. Ao nos sen­tirmos renovados, nosso ambiente também se renova. As crianças gostam de ficar perto de nós, não apenas para ganhar guloseimas e ouvir histórias. Elas gostam de ficar do nosso lado porque conseguem sentir este "frescor".

Esta noite estou recebendo um hóspede. Encho um copo com o que resta do suco de maçã e o coloco sobre a mesa, no centro do quarto de meditação. Thuy já está profundamente adormecida, e convido meu amigo a sentar-se em silêncio, exatamente como o suco de maçã.

Thich Nhat Han [O sol meu coração]

08 abril, 2002

Hanamatsuri! - O Nascimento do Buda

O calendário litúrgico utilizado pelas escolas do Mahayana no extremo oriente e principalmente no Japão é diferente daquele usado pelas escolas do sudeste asiático, principalmente pela escola Theravada. Assim, o nascimento de Gautama Buda é comemorado no dia 8 de Abril, sua Iluminação em 8 de dezembro e seu "parinirvana" em 27 de fevereiro. Mas essas datas são apenas convenções sociais e diria que são simbólicas. Nas versões do Tripitaka que chegaram e foram adotadas no Japão, falasse do nascimento do Buda no 8º dia do mês de Wesak, durante a 1ª lua cheia. Na época em que foi adotada essa data houve um sincretismo muito forte com o relato do desabrochar das flores no Jardim de Lumbini, onde o Buda nasceu. Como no Japão é exatamente no começo de Abril que acontecem as primeiras floradas da cerejeira, depois de um longo e tenebroso inverno, associava-se o desabrochar das flores com o nascimento do Buda.
Quanto à celebração deste rito no bairro da Liberdade em São Paulo, ele é chamado de "Hanamatsuri" (literalmente: Festa das Flores) e é organizado pelas matrizes das representações dos templos japoneses no Brasil, e tem como ponto alto uma cerimônia reunindo monges das várias tradições onde recitam-se Sutras e banha-se a imagem do Buda recém-nascido com um chá feito de uma erva adocicada (este chá possui também propriedades medicinais e pode ser bebido pelas pessoas), para lembrar a chuva de néctar que cai dos céus para banhar o bebê Buda (segundo algumas versões Mahayana). Em seguida essa imagem é levada em procissão pelas ruas do bairro sobre um grande elefante branco, fazendo alusão ao sonho da mãe de Buda, a rainha Maya.
Rev. Wagner (Sh. Haku-Shin) [Escola Jôdo-Shin-Shû ]





NADA É PERMANENTE

Havia um rei muito poderoso que tinha tudo na vida,
mas sentia-se confuso.
Resolveu consultar os sábios do reino e disse-lhes:
- Não sei por que sinto-me estranho e preciso ter paz de
espírito.
Preciso de algo que me faça alegre quando estiver triste e que me
faça triste quando estiver alegre.
Os sábios resolveram dar um anel ao rei, desde que o rei seguisse
certas condições:
- Debaixo do anel existe uma mensagem, mas o rei só deverá abrir o
anel quando ele estiver num momento intolerável.
Se abrir só por curiosidade, a mensagem perderá o seu significado.
Quando TUDO estiver perdido, a confusão for total, acontecer a
agonia e nada mais se puder fazer, aí o rei deve abrir o anel.
O rei seguiu o conselho.
Um dia o país entrou em guerra e perdeu.
Houve vários momentos em que a situação ficou terrível,
mas o rei não abriu o anel porque ainda não era o fim.
O reino estava perdido, mas ainda podia recuperá-lo.
Fugiu do reino para se salvar.
O inimigo o seguiu, mas o rei cavalgou até que perdeu os
companheiros e o cavalo.
Seguiu a pé, sozinho, e os inimigos atrás;
era possível ouvir o ruído dos cavalos.
Os pés sangravam, mas tinha que continuar a correr.
O inimigo se aproxima e o rei, quase
desmaiado, chega à beira de um precipício.
Os inimigos estão cada vez mais
perto e não há saída, mas o rei ainda pensa:
- Estou vivo, talvez o inimigo mude de direção.
Ainda não é o momento de ler a mensagem...
Olha o abismo e vê leões lá embaixo, não tem mais jeito.
Os inimigos estão muito próximos, e aí o rei abre o anel e lê a
mensagem:
"Isto também passará".
De súbito, o rei relaxa.
Isto também passará e, naturalmente, o inimigo mudou de direção.
O rei volta e tempos depois reúne seus exércitos e
reconquista seu país. Há uma grande festa, o povo dança nas ruas
e o rei está felicíssimo, chora de tanta alegria
e de repente se lembra do anel,
abre-o e lê a mensagem:
"Isto também passará".
Novamente ele relaxa, e assim obtém a sabedoria e a paz de
espírito.


Em qualquer situação, boa ou ruim,
de prosperidade ou de dificuldades, em que as emoções
parecem dominar tudo o que fazemos, é importante que nos
lembremos de que tudo é efêmero, de que tudo passará, de
que é impossível perpetuarmos os momentos que vivemos,
queiramos ou não, sejam eles escolhidos ou não.

A ansiedade, freqüentemente, não nos deixa analisar o que nos
ocorre com objetividade. Nem sempre é possível, mesmo.
Mas, em muitos momentos, precipitamos atitudes
que só pioram o que queríamos que melhorasse.
A calma, conforme o ditado popular, pode ser o melhor remédio
diante daquilo que não depende de nós...
Manter as emoções constantemente sob controle é
pura fantasia e qualquer um já viveu a sensação de pânico ao
perceber que o que mais se valoriza está escapando
por entre os dedos.
"Dar tempo ao tempo" não é sintoma de passividade,
mas de sabedoria na maior parte dos casos.

07 abril, 2002

Previsões

Uma vez perguntaram a um mestre se ele poderia adivinhar o passado e ele
disse que era muito fácil: é só analisar as condições em que vc vive hoje e
saberás como foi seu passado. E então perguntaram se ele poderia prever o
futuro, ao que respondeu: é só analisar suas ações hoje que vc saberá quais
serão as conseqüências no futuro.

06 abril, 2002

Hanamatsuri: Festa das Flores

Durante uma semana, na Praça da Liberdade, fica exposta a estátua do Buda-Criança para todos banharem com chá adocicado. No sábado que precede o 8 de Abril há uma procissão pelo bairro da Liberdade (SP), é o Hanamatsuri, a Festa das Flores. Na tradição Soto Zen comemora-se o nascimento de Buda no dia 8 de abril.