30 março, 2002

O TOURO E O VAQUEIRO

1. PROCURANDO O TOURO


Sozinho na imensidão da selva,
o rapaz está buscando, buscando!
As águas transbordantes, as montanhas longínquas
e o caminho sem fim;
Exausto e em desepero, ele não sabe para onde ir,
ele só escuta as cigarras vespertinas cantando nas árvores.




O primeiro desenho marca o início do caminho espiritual.
A pessoa está consciente da possibilidade da iluminação
e decidiu procurá-la.
Tendo compreendido que o mundo exterior nunca traz
uma satisfação duradoura, aquele que busca o caminho
volta a sua atenção para a consciência.
Neste ponto, provavelmente fica confuso pelo emaranhado
de vias que parecem ser o caminho da libertação.
Cada via parece dizer: “Siga-me; se quiser se encontrar,
livre-se do sofrimento e realize a iluminação.“
Uma sensação de regozijo e excitação que sempre
acompanha a mudança de valores,
quando os desejos da carne são substituídos pela ambição espiritual.

2. VISLUMBRANDO AS PEGADAS

Pelo regato e sob as árvores,
esparsas são as pegadas do perdido;
Os capins de sabor adocicado estão crescendo espesos-
ele encontrou o caminho?
Entretanto, distante, nas montanhas, o animal pode estar vagando.
Seu nariz alcança os céus e ninguém pode mascará-lo.




O segundo desenho do touro e o vaqueiro representa o aspirante
começando a estudar os ensinamentos da sabedoria- no caso, o Budismo.
Esta etapa de busca envolve o conhecimento intelectual.
Ele tornou-se um discípulo sério e pode sentir-se seguro
de ter encontrado o caminho certo.

3. VENDO O TOURO

Num galho de árvore muito distante um rouxinol
pousa cantando alegremente;
O sol está quente e sopra uma brisa suave; na encosta,
os salgueiro estão verdes;
O touro está lá, completamente só; não tem onde se esconder;
Sua esplêndida cabeça decorada com majestosos chifres
– que pintor poderá reproduzi-la?




O terceiro desenho do touro representa a atenção que se desvia
dos ensinamentos esotéricos para a experiência direta.
A fonte é descoberta presente nos sons e atividades cotidiana, e nos seis sentidos.
O discípulo, nesta etapa, tornou-se um praticante que está conscientemente iluminado,
não mais procurando nem seguindo pegadas. O touro é conhecido como sendo todos
os caminhos, bem como aquele que busca e a própria floresta.
Esta é a etapa do insight, que requer posteriormente disciplina para se estabilizar.
A iluminação foi vislumbrada, mas exige um trabalho posterior
para ser transformada numa luz permanente.

4. AGARRANDO O TOURO

Com a energia deste ser total, o rapaz,
finalmente, segurou o touro;
Porém, tanto a sua vontade é selvagem quanto ingovernável é o sua poder!
Às vezes, anda empertigado num platô.
Que vemos? Perde-se novamente na bruma impenetrável do desfiladeiro
da montanha.




Depois de muito tempo perdido no deserto, o rapaz finalmente encontrou
o touro e suas mãos estão nele. Mas, devido à pressão do mundo exterior,
é difícil manter o touro sob controle.
Ele, constantemente, sente saudades do velho campo e seu perfume
agradável. A natureza selvagem ainda está indisciplinada e se recusa a ser domada.
se o vaqueiro quiser ver o touro em completa
harmonia consigo mesmo,certamente terá de usar o chicote, livremente.

5.DOMANDO O TOURO

O rapaz não tem de se separar do chicote e da corda,
Para que o animal não fique vagando num mundo de impurezas;
Quando ele estiver adequadamente encaminhado, crescerá puro e dócil;
Sem corrente, nada prendendo, sozinho seguirá o vaqueiro.




O quinto desenho do touro é a etapa do treinamento avançado,
na qual uma amizade sem esforço é estabelecida com a sua própria natureza.
O praticante avançado abandona as disciplinas aprendidas numa etapa inicial,
e até mesmo as discriminações entre verdade e ilusão são transcendidas.
A discriminação entre a vida espiritual e a vida comum não é mais útil
e fazemos amigos com as limitações do ego. O touro torna-se um
companheiro livre e o movimento está equilibrado.

6. VIR PARA CASA MONTADO NO TOURO


Montado no touro, ele, calmamente,
encaminhou-se para casa;
Envolvido na bruma do anoitecer, com que harmonia saíam os sons da flauta!
Cantando uma balada, marcando o compasso, seu coração
sentia uma alegria indescritível!
Pois agora ele é um dos que sabe; é preciso dizer?




Este desenho representa o sábio montando comodamente no touro.
“A luta acabou; “ganhar” e “perder” não mais o afetam. “
Nesta etapa, o sábio irradia iluminação, suas ações são
caracterizadas pela simplicidade, naturalidade, espontaneidade e
tranqüilidade. O sábio se mistura com fluxo de vida normal,
mas a ilusão sutil do touro como uma entidade separada persiste.

7. ESQUECIDO DO TOURO, O HOMEM FICA SOZINHO

Montado no animal, ele finalmente volta para casa,
Onde - vejam só! - o touro não está mais;
o homem está sentado sozinho, serenamente.
Apesar do sol vermelho no céu, ele está calmo, sonhando,
Sob um telhado de palha repousam, imóveis, o chicote e a corda.




No sétimo desenho, os dois se tornaram um.
O aspirante voltou para casa. O sábio, agora, vê o Eu como uma completa
expressão da natureza verdadeira e não necessita mais de conceitos ou
prática. Solidão e serenidade são desfrutadas na ausência de distinções.

8. O TOURO E O HOMEM DESAPARECEM

Tudo está vazio - o chicote, a corda, o homem e o touro:
Quem poderá pesquisar a vastidão do universo?
Sobre a fornalha ardente em chamas, nem um floco de neve pode cair:
Quando este estado de coisas é obtido, manifesto é o espírito do antigo mestre.




No oitavo desenho do touro e o vaqueiro, um círculo aberto está associado ao
dharmakaya, o reinoo causal, no qual a consciência recorda a sua
unidade anterior como um-nada. No dharmakaya, não existe teorias,
nem há detentores de reorias no dharmakaya. As barreiras ilusórias
evaporam-se e um profundo estado de vazio está aberto à plenitude
da vida. A idéia de iluminação em si mesma é transcendente.
A consciência individual desaparece dentro daquela de onde originalmente brotou.

9. RETORNANDO À ORIGEM, DE VOLTA À FONTE


Querer voltar às origens, à fonte - já é um passo errado!
É muito melhor ficar em casa, cego e surdo, sem fazer muito barulho;
Sentado na cabana, não se toma conhecimento do que se passa lá fora,
Contempla as águas do regato correndo, ninguém sabe para onde vão;
E as flores de um vermelho intenso – para quem são elas.




Na nona figura do touro e o vaqueiro, a consciência sem forma volta à forma sem perder a sua
não-forma. Era necessário para a forma dissolver-se no vazio, antes de tornar-se a fonte.
Agora, o vazio dissolve-se na fonte. Não há necessidade de fazer esforço.
Observa-se que tudo está passando por mudanças sem fim.

10.ENTRANDO NA CIDADE COM AS MÃOSDISTRIBUINDO ALEGRIOA

Com o peito nu e os pés descalços, chega ao mercado;
Todo sujo de lama e cinza, com que alegria sorri!
Não precisa dos poderes milagrosos dos deuses,
Tudo em que ele toca... Vejam! As árvores mortas estão florindo!




O décimo desenho do touro e o vaqueiro destrói a unidade bem como a duplicidade.
Aqui o sábio está representado retornando ao mundo dos mortais, à vida cotidiana,
como um bodhisattva, aquele que renunciou a libertação pessoal para ajudar os
outros. As mãos abertas representam o vazio perfeito, não faz nenhuma
tentativa de seguir os sábios primitivos. O iluminado manifesta a iluminação
alegremente e não segue nenhum caminho.

Os desenhos podem ser vistos neste site:
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O texto é do livro [O Livro de Ouro do Zen]
Ou no [Os Três Pilares do Zen]

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