30 março, 2002

O TOURO E O VAQUEIRO

1. PROCURANDO O TOURO


Sozinho na imensidão da selva,
o rapaz está buscando, buscando!
As águas transbordantes, as montanhas longínquas
e o caminho sem fim;
Exausto e em desepero, ele não sabe para onde ir,
ele só escuta as cigarras vespertinas cantando nas árvores.




O primeiro desenho marca o início do caminho espiritual.
A pessoa está consciente da possibilidade da iluminação
e decidiu procurá-la.
Tendo compreendido que o mundo exterior nunca traz
uma satisfação duradoura, aquele que busca o caminho
volta a sua atenção para a consciência.
Neste ponto, provavelmente fica confuso pelo emaranhado
de vias que parecem ser o caminho da libertação.
Cada via parece dizer: “Siga-me; se quiser se encontrar,
livre-se do sofrimento e realize a iluminação.“
Uma sensação de regozijo e excitação que sempre
acompanha a mudança de valores,
quando os desejos da carne são substituídos pela ambição espiritual.

2. VISLUMBRANDO AS PEGADAS

Pelo regato e sob as árvores,
esparsas são as pegadas do perdido;
Os capins de sabor adocicado estão crescendo espesos-
ele encontrou o caminho?
Entretanto, distante, nas montanhas, o animal pode estar vagando.
Seu nariz alcança os céus e ninguém pode mascará-lo.




O segundo desenho do touro e o vaqueiro representa o aspirante
começando a estudar os ensinamentos da sabedoria- no caso, o Budismo.
Esta etapa de busca envolve o conhecimento intelectual.
Ele tornou-se um discípulo sério e pode sentir-se seguro
de ter encontrado o caminho certo.

3. VENDO O TOURO

Num galho de árvore muito distante um rouxinol
pousa cantando alegremente;
O sol está quente e sopra uma brisa suave; na encosta,
os salgueiro estão verdes;
O touro está lá, completamente só; não tem onde se esconder;
Sua esplêndida cabeça decorada com majestosos chifres
– que pintor poderá reproduzi-la?




O terceiro desenho do touro representa a atenção que se desvia
dos ensinamentos esotéricos para a experiência direta.
A fonte é descoberta presente nos sons e atividades cotidiana, e nos seis sentidos.
O discípulo, nesta etapa, tornou-se um praticante que está conscientemente iluminado,
não mais procurando nem seguindo pegadas. O touro é conhecido como sendo todos
os caminhos, bem como aquele que busca e a própria floresta.
Esta é a etapa do insight, que requer posteriormente disciplina para se estabilizar.
A iluminação foi vislumbrada, mas exige um trabalho posterior
para ser transformada numa luz permanente.

4. AGARRANDO O TOURO

Com a energia deste ser total, o rapaz,
finalmente, segurou o touro;
Porém, tanto a sua vontade é selvagem quanto ingovernável é o sua poder!
Às vezes, anda empertigado num platô.
Que vemos? Perde-se novamente na bruma impenetrável do desfiladeiro
da montanha.




Depois de muito tempo perdido no deserto, o rapaz finalmente encontrou
o touro e suas mãos estão nele. Mas, devido à pressão do mundo exterior,
é difícil manter o touro sob controle.
Ele, constantemente, sente saudades do velho campo e seu perfume
agradável. A natureza selvagem ainda está indisciplinada e se recusa a ser domada.
se o vaqueiro quiser ver o touro em completa
harmonia consigo mesmo,certamente terá de usar o chicote, livremente.

5.DOMANDO O TOURO

O rapaz não tem de se separar do chicote e da corda,
Para que o animal não fique vagando num mundo de impurezas;
Quando ele estiver adequadamente encaminhado, crescerá puro e dócil;
Sem corrente, nada prendendo, sozinho seguirá o vaqueiro.




O quinto desenho do touro é a etapa do treinamento avançado,
na qual uma amizade sem esforço é estabelecida com a sua própria natureza.
O praticante avançado abandona as disciplinas aprendidas numa etapa inicial,
e até mesmo as discriminações entre verdade e ilusão são transcendidas.
A discriminação entre a vida espiritual e a vida comum não é mais útil
e fazemos amigos com as limitações do ego. O touro torna-se um
companheiro livre e o movimento está equilibrado.

6. VIR PARA CASA MONTADO NO TOURO


Montado no touro, ele, calmamente,
encaminhou-se para casa;
Envolvido na bruma do anoitecer, com que harmonia saíam os sons da flauta!
Cantando uma balada, marcando o compasso, seu coração
sentia uma alegria indescritível!
Pois agora ele é um dos que sabe; é preciso dizer?




Este desenho representa o sábio montando comodamente no touro.
“A luta acabou; “ganhar” e “perder” não mais o afetam. “
Nesta etapa, o sábio irradia iluminação, suas ações são
caracterizadas pela simplicidade, naturalidade, espontaneidade e
tranqüilidade. O sábio se mistura com fluxo de vida normal,
mas a ilusão sutil do touro como uma entidade separada persiste.

7. ESQUECIDO DO TOURO, O HOMEM FICA SOZINHO

Montado no animal, ele finalmente volta para casa,
Onde - vejam só! - o touro não está mais;
o homem está sentado sozinho, serenamente.
Apesar do sol vermelho no céu, ele está calmo, sonhando,
Sob um telhado de palha repousam, imóveis, o chicote e a corda.




No sétimo desenho, os dois se tornaram um.
O aspirante voltou para casa. O sábio, agora, vê o Eu como uma completa
expressão da natureza verdadeira e não necessita mais de conceitos ou
prática. Solidão e serenidade são desfrutadas na ausência de distinções.

8. O TOURO E O HOMEM DESAPARECEM

Tudo está vazio - o chicote, a corda, o homem e o touro:
Quem poderá pesquisar a vastidão do universo?
Sobre a fornalha ardente em chamas, nem um floco de neve pode cair:
Quando este estado de coisas é obtido, manifesto é o espírito do antigo mestre.




No oitavo desenho do touro e o vaqueiro, um círculo aberto está associado ao
dharmakaya, o reinoo causal, no qual a consciência recorda a sua
unidade anterior como um-nada. No dharmakaya, não existe teorias,
nem há detentores de reorias no dharmakaya. As barreiras ilusórias
evaporam-se e um profundo estado de vazio está aberto à plenitude
da vida. A idéia de iluminação em si mesma é transcendente.
A consciência individual desaparece dentro daquela de onde originalmente brotou.

9. RETORNANDO À ORIGEM, DE VOLTA À FONTE


Querer voltar às origens, à fonte - já é um passo errado!
É muito melhor ficar em casa, cego e surdo, sem fazer muito barulho;
Sentado na cabana, não se toma conhecimento do que se passa lá fora,
Contempla as águas do regato correndo, ninguém sabe para onde vão;
E as flores de um vermelho intenso – para quem são elas.




Na nona figura do touro e o vaqueiro, a consciência sem forma volta à forma sem perder a sua
não-forma. Era necessário para a forma dissolver-se no vazio, antes de tornar-se a fonte.
Agora, o vazio dissolve-se na fonte. Não há necessidade de fazer esforço.
Observa-se que tudo está passando por mudanças sem fim.

10.ENTRANDO NA CIDADE COM AS MÃOSDISTRIBUINDO ALEGRIOA

Com o peito nu e os pés descalços, chega ao mercado;
Todo sujo de lama e cinza, com que alegria sorri!
Não precisa dos poderes milagrosos dos deuses,
Tudo em que ele toca... Vejam! As árvores mortas estão florindo!




O décimo desenho do touro e o vaqueiro destrói a unidade bem como a duplicidade.
Aqui o sábio está representado retornando ao mundo dos mortais, à vida cotidiana,
como um bodhisattva, aquele que renunciou a libertação pessoal para ajudar os
outros. As mãos abertas representam o vazio perfeito, não faz nenhuma
tentativa de seguir os sábios primitivos. O iluminado manifesta a iluminação
alegremente e não segue nenhum caminho.

Os desenhos podem ser vistos neste site:
Os desenhos podem ser vistos neste site
versão em flash

O texto é do livro [O Livro de Ouro do Zen]
Ou no [Os Três Pilares do Zen]

28 março, 2002

Estamos todos ligados, vivendo uma só vida

Era uma vez um grande campo, onde havia um canteiro de abóboras que estavam amadurecendo.
Um dia, elas começaram a discutir. Dividiram-se em facções e fizeram muito barulho
gritando umas com as outras. O monge-chefe de um templo da redondeza, ouvindo aquela
algazarra, correu para ver o que estava acontecendo. Ralhando com as abóboras
que estavam brigando, disse:

- O que quer esteja acontecendo, não adianta brigar! Vão todas para o Zazen!

O monge ensinou-as a sentar-se adequadamente no Zazen e, aos poucos, a raiva delas foi passando.
Então o monge tornou a falar:

- Ponham as mãos para cima da cabeça. – As abóboras obedeceram e descobriram algo muito especial.
Cada uma atinha um talo nascendo na cabeça que ligava uma às outras e todas a uma raiz comum.

- Que erro cometemos! – Disseram – Estamos todas ligadas umas às outras, presas à mesma raiz e
vivendo uma só vida, apesar de nossas brigas. Como somos tolas em nossa ignorância.

Roshi Kosho Uchiyami in: [O Livro de Ouro do Zen]

23 março, 2002

Onde e Quando Meditar.

O Lugar

Muitos livros recomendam que se escolha um lugar quieto, limpo e que este fique sendo o lugar
de meditação. No início acho essa recomendação válida, porém com o tempo é conveniente mudar
de ambiente, não criar hábito, nem apego àquele lugar especial. Devemos poder meditar em qualquer ambiente, com ou sem ruído, no banheiro, no engarrafamento, com o estômago cheio ou vazio, com sono ou desperto, cansados ou relaxados. Se começamos a colocar impedimentos à qualquer coisa adversa, acabamos
por negligenciar, adiar, desistir e desse jeito não dará certo.


O Horário

Os livros dizem para se ter um horário regular, sempre no mesmo horário, porém nem sempre
será possível manter essa regularidade. O melhor é estabelecer um horário pela manhã, para quem acorda cedo, acordar um pouco antes. Um horário antes do almoço. E outro horário no fim da tarde ou no fim da noite, antes de dormir. Se vc. só tiver tempo para uma sessão, é melhor que seja de manhã, se puder fazer duas sessões, uma de manhã e uma à noite.
Para começar 15 ou 20 minutos são suficientes.
Faça o zazen por alguns meses com esse tempo e depois
aumente para 30 min por mais alguns meses e por fim tente 45 min.
Lembre-se que apesar do desconforto (joelhos e tornozelos doloridos) por ficar sentado, esse desconforto é necessário até que o corpo se adapte a postura escolhida. A dor deve ser suportada.

Posturas no Zazen

Há algumas posturas. Tente uma de cada vez, até encontrar a sua postura adequada, aquela em que for mais
estável, mesmo que seja desconfortável. Escolhida a postura, vc. deve perseverar nela.
O ideal é sentar de modo que o corpo esteja completamente ereto e uma linha vertical possa ser traçada
partindo do centro da testa, passando pelo nariz, queixo, garganta e umbigo. Consegue-se isto,
empurrando a cintura para frente e o abdômen para fora. O peso do corpo fica concentrado na
barriga ou no baixo abdômen. Está área é o centro da respiração no Zazen; abaixo do umbigo
(dois dedos)

Os olhos devem ficar entreabertos e focalizando de leve o chão, de um
a dois metros ou um ângulo de 45 graus , à sua frente. Melhor sentar-se de frente para uma parede vazia, nesse caso “olhe através dela”, para onde o chão deveria entrar. Assim irá piscar menos.


A cabeça não deve pender para frente nem inclinar-se para qualquer lado, mas manter-se ereta seguindo a postura da coluna.As orelhas devem estar paralelas aos ombros.A ponta do nariz se alinha com o centro do umbigo.O queixo fica ligeiramente para baixo
A boca, lábios e dentes cerrados;
coloque a ponta da língua no céu da boca,
logo atrás dos dentes da frente. Engula a saliva da boca e elimine o ar,
de modo que haja um ligeiro vácuo. Isso inibe a salivação.
Também é possível ficar com a boca entreaberta no caso de respirar pela boca.



O Mudra Cósmico é o mais usado: a palma da mão esquerda sobre a palma da mão direita formando uma concha, a ponta dos polegares se tocando levemente em forma ovalada.



Os joelhos devem tocar o chão. Para obter isto a almofada deve estar na altura adequada. Use quantas almofadas forem necessárias. Se ficarem ergridos no início, não se preocupe. Com o tempo tocarão o chão.


Coluna:
Sente-se com as costas eretas, sem se inclinar para a esquerda
ou para a direita, nem para frente ou para trás.



A almofada tradicional na meditação Zazen chama-se Zafu.
Veja como fazer uma aqui


ou caso não tenha um zafu pode começar com outra almofada que tenha em casa. Também pode-se dobrar um travesseiro ou cobertores. O importante é sentar na postura correta.



1. Sentado na Cadeira. Pode-se iniciar nessa posição, mas em geral ela é recomendada a pessoas que tem alguma limitação física e idosos. Os pés devem ficar firmes no chão e a coluna ereta. Caso você não apoie a sola dos pés no chão será necessário completar este espaço com almofadas.





2. Posição Seiza. Sobre uma superfície confortável: esteira, tapete, etc, sente-se sobre os joelhos, pernas, dorso dos pés e nádegas.
Os joelhos e as nádegas formam um triângulo. Também é possível sente-se em seiza
com a almofada entre as pernas.





Pode-se ter um banquinho em lugar do zafu. Sente-se com as pernas entre ele.





3. Posição Birmanesa. A mais popular entre os ocidentais. As pernas ficam cruzadas, porém ambos os pés ficam nivelados sobre o cobertor.
As nádegas ficam sobre um terço ou metade da almofada. Ambos os joelhos
devem tocar o chão, se não estiver tb. é possível colocar uma almofada sob os joelhos de forma que
se obtenha o equilíbrio do corpo.



4. Posição Meio-Lotus. Nessa posição o pé esquerdo está sobre a coxa direita, ou ao contrário.
Está posição pode ser difícil para o iniciante, mas ela dá estabilidade a parte inferior das costas.
Deve-se alternar de pernas para evitar a sensação de estar pendendo para o lado oposto.



5.Lotus Completo. Nesta posição, o pé direito descansa sobre a coxa esquerda, e o pé esquerdo sobre a coxa direita. Apesar de ser a posição mais difícil é melhor para sentar pois produz a estabilidade perfeita.
Não se preocupe se não conseguir fazer a posição do lotus, até mesmo meditadores experientes têm dificuldade.


A Respiração.




Encha o pulmão. Esse movimento não deve forçar peito e sim contarir o abdômem. Conte UM para contrair e solte lentamente até o abdômem inflar. Solte todo o ar do pulmão. Você pode contar UM na inspiração ou UM na expiração. Não faça ruído. Deixe a boca fechada. Solte o ar pelas narinas. Quanto mais longo esse processo mais eficaz ele será.


21 março, 2002

Como Meditar no Estilo Zen Budista.

Roupas

Se vc. for meditar em um templo ou um centro zen, informe-se sobre o que vestir.
Em geral recomenda-se uma roupa solta e confortável de preferência
de cores escuras para não atrapalhar a concentração dos demais.

Ao entrar no local e na sala de meditação é costume tirar os sapatos. Em alguns lugares fica-se com os pés nus em outros deve-se usar meias.

Como começar?

Alguém vai te orientar sobre como sentar e quais as posições possíveis. Vá mais cedo ao local da pratica caso precise de instruções de como começar.
Depois de sentar e acomodar-se na posição escolhida faça alguns alongamentos
balançando o corpo para os lados e para frente, para trás, girando sobre o eixo do abdômen.
Respire e inspire vigorosamente algumas vezes para relaxar, sem fazer ruídos.
Verifique onde seu corpo está tenso e relaxe: os braços, as mãos, o pescoço, o peito, o abdômen.
Posicione as mãos no mudra caracteristico de meditação. A mão esquerda descansando sobre a mão direita. O polegar direito tocando levemente o polegar esquerdo,sem pressiona-lo e sem deixá-los caídos.
Aguarde o sinal de três batidas para começar a sessão, sentado na sua almofada. Depois desse sinal evite se mexer. Se sentir muito desconforto tente aguentar. Se não for possível suportar a dor vc. deve levantar, fazer uma reverência e sentar em outra posição ou ficar em pé atrás da almofada com as mãos em gasshô. Há diferenças  de Escola para Escola, pergunte ao instrutor qual a forma usual ali.
Depois de um período sentado pode haver um período de meditação andando. O sinal será uma batida. Levante-se e fique de pé seguindo a fila que será conduzida por quem estiver orientando a sessão de meditação. Quando terminar vc. ouvirá mais uma batida. Se ouvir três significa que a sessão terminou ali. Se ouvir uma sente novamente para mais uma sessão de meditação. Ao terminar a sessão, se houverem professores, mestres e monges, vc. deve aguardar que eles saiam da sala primeiro, depois siga a fila de acordo com a posição onde estiver sentado. Ao sair da sala faça uma reverência.
Não é usual ficar conversando antes ou depois da sessão de meditação na sala de meditação a não ser que alguém vá dar algum recado ou palestra. Deixe para conversar fora da sala de meditação.
Se vc. se atrasar não entre na sala. Coloque uma almofada fora dela e sente-se lá.


Faça o Gasshô:

É um expressão de respeito, fé e devoção. Junte as palmas e os dedos
de ambas as mãos. Quando as duas mãos (a dualidade)
se juntam, representam o Coração-Mente (a não-dualidade).


Antes de sentar-se na almofada e quando terminar a sessão ainda sentado.
Depois em pé mais um para a parede e outro no sentido horário
para quem estiver a sua frente.
Ao entrar e sair da sala de meditação faça gasshô. Ao visitar uma sala de meditação, templo ou centro budista em frente ao altar faça gasshô. (Estilo Zen japonês)
Cada estilo tem pequenas diferenças.

Como Respirar:


Exale completamente e inspire. Faça calmamente uma profunda exalação e inalação.
Abra levemente a boca e exale, suave e vagarosamente.
Para exalar todo o ar dos pulmões, comprima o abdômen.
Então feche a boca e inale naturalmente pelas narinas.
A língua deve ficar encostada ao céu da boca.
Faça todo esse processo sem fazer ruído.

O que fazer sentado?

Para começar, até adquirirmos equilíbrio na postura e na respiração, e a mente calma, precisaremos de
um método auxiliar, muitas vezes chamado de muletas. Vc. as usa até aprender a “andar” sem elas.
O método inicial consiste em CONTAR A RESPIRAÇÃO.
A contagem deve ser inaudível. Quando inalar conte um e quando exalar conte dois. Continue assim até 10 e volte ao início. Se vc. se perder ou se distrair, recomece do um. Não force a respiração. Deixe-a seguir seu ritmo. A respiração correta é semelhante a de bebê dormindo. Apenas observe-a e conte a medida em que vem e vai. Isso poderá levar semanas ou mesmo meses até conseguir contar até dez sem se distrair em nenhum momento. Mesmo parecendo monótono isso é natural. Vai chegar um momento que vc. não precisará mais contar e sua respiração seguirá o ritmo normal, então apenas irá observá-la e tentar ficar presente no momento.

Pode parecer fácil contar a respiração.
Experimente e vc. verá que não é tão fácil quanto parece!

O que fazer com os pensamentos que surgem no Zazen

Apenas os observe e volte a contar a respiração. Não dê atenção e nem resiste aos pensamentos
que surgirem. Não se deixe arrastar por eles. Deixe-os passar e depois volte à respiração. Não
fique tentando se agarrar a eles. Sentar-se em zazen não tem por objetivo silenciar os pensamentos nem esvaziar a mente, mas se em algum momento essa experiência de esvaziar a “xícara de chá” acontecer vc. saberá. Isso pode levar meses e até anos. Não se apegue aos resultados, eles podem desaparecer muito mais rápido do que levou para surgirem. Deixe-os ir sem pesar. Apenas volte à pratica como de costume.

O importante é manter a prática todos os dias por mais tempo que se puder dedicar a ela.
Com empenho, não como uma obrigação, mas como parte do nosso dia-a-dia.

17 março, 2002

Os Quatro Estados Sublimes da Mente

Buda recomendou de maneira enfática que cultivemos quatro estados sublimes da mente: amor bondade (metta), compaixão (karuna),
alegria altruísta(mudita)e equanimidade
(upekha).
Amor Bondade

O tipo de amor bondade que queremos cultivar não é o amor comum tal como é entendido no uso diário. Quando você diz, por exemplo, "eu amo tal pessoa" ou "tal coisa", o que você realmente está querendo dizer é que você deseja a aparência, comportamento, idéias, tom da voz ou a atitude em geral daquela pessoa, em relação a você em particular, ou em relação à vida de forma geral. Se aquela pessoa mudar as coisas pelas quais você a deseja, você poderá decidir que não a ama mais. Se as preferências, caprichos e fantasias das pessoas mudarem, elas não mais dirão "eu amo tal pessoa". Nessa dualidade de amor-ódio você ama uma pessoa e odeia outra. Você ama agora e odeia depois. Você ama quando quiser e odeia quando quiser. Você ama quando tudo está bem e sem problemas e odeia quando alguma coisa dá errado no relacionamento entre você e a outra pessoa. Se o seu amor muda dessa forma de tempos em tempos, de lugar em lugar e de situação para situação, então o que você chama de "amor" não é metta mas sim desejo, cobiça ou luxúria - de nenhuma forma isso é amor.

O verdadeiro Amor Bondade

O tipo de amor bondade que queremos cultivar através da meditação não possui um oposto ou um motivo velado. Assim, a dicotomia amor-ódio não se aplica ao amor bondade cultivado através da sabedoria ou da atenção plena, pois ele nunca irá se transformar em ódio na medida em que as circunstâncias mudarem. O verdadeiro amor bondade é uma faculdade natural que está oculta sob o amontoado de desejo, raiva e ignorância. Ele não pode ser dado. Nós precisamos encontrá-lo dentro de nós mesmos e cultivá-lo com a atenção plena. A atenção plena o descobre, cultiva e mantém. A consciência do "eu" (ahankara) se dissolve com a atenção plena e o seu lugar é tomado pelo amor bondade isento de egoísmo.

Porque odiamos certas pessoas

Por causa do nosso egoísmo odiamos algumas pessoas. Queremos viver de um certo jeito, queremos fazer certas coisas de um certo jeito, perceber as coisas de um certo jeito; e não de outro jeito. Se outras pessoas não concordarem com as nossas opiniões, os nossos jeitos e os nossos estilos, não somente as odiaremos mas também nos tornaremos tão cegos e irracionais, devido à falta de atenção plena, que poderemos chegar ao ponto de negar-lhes o direito à vida.
Quando você pratica metta você não fica colérico por não receber algum tipo de retribuição de pessoas e seres para os quais você irradiou o seu metta, porque ao irradiar-lhes o seu amor bondade você não possuía nenhum motivo oculto. Nessa rede de amor bondade você não somente inclui todos os seres tal como eles são, mas você deseja que todos eles, sem qualquer discriminação, sejam felizes. Você irá se portar de maneira gentil e agradável para com todos e irá falar a respeito deles de forma gentil e agradável tanto na presença como na ausência deles.

Quem ama, ama até mesmo seu maior inimigo

O Buda cultivou metta tão potente que o fez amar o seu pior inimigo, Devadatta, que tentou matá-lo várias vezes. Ele amava o assaltante e assassino Angulimala, que também tentou matá-lo. Ele amava Dhanapala, um elefante que tentou matá-lo. Ele amava a todos da mesma forma como amava o seu filho Rahula. Quando Devadatta morreu, ao ir ter com o Buda, os monges perguntaram ao Buda qual seria o seu futuro. O Buda disse que no futuro ele se converteria num Buda silencioso. Assim é o amor bondade, guiado pela atenção plena, que nos permite viver em paz e harmonia.

A Meditação dissolve os obstáculos

Ao meditar as nossas mentes e corpos se tornam naturalmente relaxados. Os obstáculos são dissolvidos. A sonolência e o torpor por exemplo são substituídos pela vigilância. A dúvida é substituída pela confiança, a raiva pela alegria, a inquietação e a preocupação pela felicidade. Na medida que o ressentimento é substituído pela alegria, o amor bondade escondido no nosso subconsciente se manifesta fazendo com que fiquemos ainda mais em paz e felizes. Nesse estado de meditação obtemos concentração e superamos a nossa cobiça. Podemos ver como a meditação destrói a raiva e cultiva metta, que por seu lado dá sustentação para a nossa prática de meditação. Juntos, os dois operam em uníssono, culminando com a concentração e o insight. Assim, para capturar na própria mente a energia de amor bondade a pessoa precisa se aperfeiçoar através da prática da meditação da atenção plena.

Metta não é repetição é ação

O amor bondade ou metta não pode ser cultivado pela mera repetição de palavras de amor bondade.
O amor bondade é algo que tem que ser cultivado com intenção por nós mesmos nas nossas mentes.
O amor bondade é desenvolvido através da meditação. Quando a mente está relaxada, o meditador é capaz de perdoar e esquecer todas as ofensas que foram cometidas contra ele.
Você também deve tê-lo dentro de si antes que possa ensiná-lo aos outros, da mesma forma como você não pode ensinar algo para alguém se você não conhecer o assunto primeiro.
Cada um de nós precisa cultivá-lo por si mesmo e para si mesmo. Você não pode cultivá-lo pelos outros. Nem os outros podem cultivá-lo por você.

Pensamentos ruins atraem pensamentos ruins

Você deve se lembrar que quando a sua mente está cheia de pensamentos ruins ou pensamentos cheios de raiva por exemplo, você fala de uma forma rude com a linguagem grosseira, praguejando, difamando e caluniando. Você fala de forma maldosa. Quando a sua mente está cheia de ódio, tudo que você vê gera dor; tudo que você ouve gera dor; tudo que você cheira gera dor; tudo que você come faz com que fique enfermo, tudo que você toca é desagradável para o corpo; e tudo que você pensa é doloroso. Você se torna vingativo. Você sempre fala mal dos outros, nunca vê nada de bom nos outros. Você se torna muito crítico. Você sempre encontra defeitos nos outros. Você nunca aprecia as coisas boas que eles fazem. Você estará enciumado todo o tempo. Você se torna muito arrogante, ingrato, malvado, com a mente muito mal intencionada. Você sempre pensa em causar dano aos outros. Você se delicia em ver os outros sofrerem, com problemas, com dificuldades. Você fica muito feliz em ver os outros fracassarem na vida. Assim o seu comportamento ultraja as pessoas. Facilmente você faz com que as outras pessoas se sintam mal. O seu comportamento será muito desagradável para as outras pessoas. Todos que estiverem ao seu redor sentirão nojo em ter que trabalhar com você. Elas ficarão com dor de estômago e dor de cabeça. Elas ficarão muito nervosas por estarem próximas de você. É assim que os seus pensamentos inábeis afetam as outras pessoas.

O Amor atrai alegria

Por outro lado se a sua mente estiver plena com amor bondade, você irá falar de forma gentil, bondosa e amigável. Tudo que você vir será motivo para alegria; tudo que você ouvir será agradável. A sua comida terá um sabor melhor. Tudo que você tocar fará com que fique satisfeito. Tudo que você cheirar será agradável. Tudo que você pensar será muito agradável e tranqüilo. Você não medirá esforços para ajudar as outras pessoas. Você se tornará bastante compreensivo e circunspecto. Você terá muita paciência. Você se tornará muito amoldável. Você sempre dirá a verdade. Você sempre irá procurar agradar aos outros. Você estará preparado para esquecer o mal que lhe fizeram e perdoar as pessoas. Você sempre estará relaxado. Você não terá um riso falso e desnecessário, mas um sorriso amigável. Assim as pessoas irão amar trabalhar com você. Elas se sentirão confortáveis em sua companhia. As suas mentes também se tornarão suaves e gentis em relação a você. Elas protegerão você. Elas não falarão mal de você pelas suas costas mas, sim, bem. O seu nível de produtividade aumentará. A sua reputação aumentará.


Bhante Henepola Gunaratana [Meditação de Metta: Amor Bondade]




15 março, 2002

Sendo cuidadoso

“Devemos ser cuidadosos ao estudar o Darma (os ensinamentos: sutras),
porque se o entendermos incorretamente,
poderemos causar mal a nós mesmos e aos outros.
Se vc. não prestar atenção ao Darma com todo o seu Ser, seu Coração e sua Mente,
poderá entendê-lo incorretamente e isso fará mais mal do que bem a vc. e a outros.”

Sem apego

[...] Mesmo que seja o Darma verdadeiro, vc. não deve se agarrar demasiadamente a ele.”
Thich Nhat Hahn [Cultivando a Mente do Amor]

10 março, 2002

Budismo & Escolas.

O budismo pode ser uma forma de vida, uma filosofia e até mesmo uma religião,
como de fato é em alguns países.
É difícil definir algo que eu sinto cada vez mais ser necessário viver, experimentar na prática.
Talvez o budismo seja isso: experiência, vivência, prática cotidiana, fazer as coisas certas,
seguir o Nobre Caminho Óctuplo. Então o budismo é na verdade um caminho entre tantos.

Se vc. puder ouvir palestras, ler livros, e sobretudo se vc. conseguir se ouvir,
aos poucos, vc. poderá descobrir o que é o budismo, se ele te serve, se vc. tem afinidade e se quer praticar em algumas das suas escolas.

Aqui tenho falado mais do Zen-Budismo por que é a minha praia, e às vezes do Theravada que tb. tem algumas coisas que gosto. O Theravada é o budismo mais ligado à tradição do Buda, como ele ensinou inicialmente. Os monges theravadins buscam a santidade em prática rigorosas que incluem voto de pobreza, castidade entre outros 242 votos para homens e 343 para mulheres. Seguem o Cânome Pali, coletânea de sermões do Buda Shakyamuni tidos como escritos sagrados. A prática mais comum entre os leigos é meditação Vipassana, o estilo ensinado por Buda que contempla o vasto campo do corpo através da respiração.

Já o budismo Tibetano- Vjara ou Budismo Esotérico ou Tântrico, absorveu o sincretismo da cultura e dos cultos que já eram praticados no Tibete (cultos xamânicos). Tem quatro escolas: Nyingma, Sakya, Geluk (Dalai Lama) e Kagyu. Kanjur é o cânome de sutras e tântras. A meditação se chama Lam Rim ou A Lâmpada para o Caminho da Iluminação ( ou caminho gradual) tratado composto pelo monge indiano Atisha que emigrou para o Tibete. A técnica contida no Lam Rim compreende: devoção,análise e absorção. Todavia, existe uma infinidade de práticas no Budismo Tibetano que seria muito longo citar todas elas.

Em sua essência, os preceitos e os ensinamentos básicos são os mesmos em todas as escolas, o que difere é a prática, no caso dos tibetanos, é uma prática mais ritualistica: há o culto de deidades com iniciações, louvores à linhagem e oferendas ( comida, bebida, velas, incenso, flores, perfume) como preliminares; visualização, recitação de mantra (cada deidade tem o seu mantra), mudras e meditação em graus mais elevados. Orações para o seu mestre (guru) ou Lama da linhagem ( família) escolhida (são várias linhagens) tb. fazem parte. Deidades são as diferentes formas que o(s) Buda(s) teria assumido em seus inúmeros renascimentos, cada deidade com uma finalidade “específica”, tem até formas femininas do Buda ( Tara Vermelha, Verde, Azul por ex. ,são 21 deidades femininas), todas veneradas no budismo tibetano. É o budismo mais alegre e dizem barulhento, mais festivo, colorido, e tem um Lama pop. Talvez por isso tenha tanta aceitação no Brasil. O objetivo dessas práticas de recitação exaustiva e tudo mais é encher a mente, já no Zen faz-se o contrário, esvazia-se. Portanto cabe perguntar: Como vc. se sente? Cheio ou vazio? Se está cheio, precisa de uma prática para esvaziar, se está vazio, precisa encher a mente. Ambos os métodos levam a um estado de clareza e conexão com a verdadeira essência do universo.

No Zen-Budismo, quase não tem rituais, e não se é sequer obrigada a venerar o Buda, ou os Mestres sucessores (todos os grandes mestres do budismo ao longo dos tempos.) Mas isso vai de cada Mestre ( Roshi), Instrutor (Sensei). A prática no Zen é basicamente sentar-se em Zazen ( meditação silenciosa), que tb. pode ser feita andando, cujo objetivo inicial e preparar o corpo e a mente através da postura correta, da respiração correta e a atenção plena, livre de distrações e digressões. Porém essa meditação não se restringe à almofada, ela deve ser continuada no cotidiano, em todas as nossas ações e pensamentos, através da atenção momento a momento.

O objetivo final é  "O Despertar", o estado de consciência plena, onde podemos nos conectar com o “eu” interior", com “Deus”, se vc. preferir, com o universo, enfim o nome não importa muito. Iluminar-se é poder tocar este “Deus interior” que existe em cada um de nós, fundir-se com ele como fez o Buda, ser parte dele, reencontrar nossa essência.

O budismo foi levado para a China por um discípulo de Buda, Bodhidharma e lá ganhou nova interpretação, alguns acréscimos, como o uso dos Koans (histórias, poemas, às vezes sem um sentido lógico, mas que contém em si a essência do ensinamento e podem proporcionar insights.)

Tudo que precisamos aprender está no mundo, só precisamos ir ao encontro dele. Esse passo só vc. pode dar.

09 março, 2002

Figueira Bo e outras Figueiras

Só a pouco me dei conta que moro em uma cidade cheia de figueiras.
Aqui na praça perto de casa tem uma, bem de baixo do meu nariz, e eu não tinha visto.
É claro que não sou especialista em figueiras.
Mesmo para uma ex-quase-botânica, estou mal de reconhecimento de figueiras. Deve ser por que meu foco de
atenção nunca esteve nelas, assim não as via, embora existissem. Boa desculpa!
Tem tb. aquela super famosa lá na Praça XV. A mais famosa do mundo, acho... pelo menos do mundo que a conhece.
Isso já me soa mais confortável do que ter que ir lá para Bihar a cata de uma Figueira Bo, que existiu à séculos a.C e que certamente não existe mais.
Gostaria de ter uma em meu jardim, mas elas são tão grandes que teria que construir minha casa em cima dela. E ainda nem tenho casa, muito menos jardim...
Nada mal morar em cima de uma árvore. Era meu sonho de criança. Pena que elas demoram tanto para crescer. Acho que não posso esperar, preciso de uma crescida. Vou colocar um anúncio no jornal: ”procura-se terreno com figueira crescida.” Talvez seja melhor ter um Bonsai de figueira. Coloco ele sobre minha cabeça e assim medito sob uma figueirinha!
Bobeiras e Figueiras.

08 março, 2002

O Nobre Caminho Óctuplo ou O Caminho do Meio

Ele recomenda a retidão em:

1. Compreensão
2. Pensamentos
3. Discurso
4. Ação
5. Meio de Vida
6. Esforço
7. Atenção
8. Concentração

07 março, 2002

O Refúgio

188.Os Homens movidos pelo medo
buscam refúgio nas montanhas e florestas, árvores sagradas e santuários;
mas estes não são esconderijos seguros, não são o Supremo Refúgio;
189.Não é recorrendo a estes refúgios que nos libertamos de todas as dores.
190.Aquele que, ao contrário, busca refúgio no Buda, no Darma (ensinamento)
e na Sangha ( comunidade),
distingue com correto conhecimento as Quatro Nobres Verdades:
191. o sofrimento, a origem do sofrimento, a cessação do sofrimento, e o Nobre Caminho Óctuplo, que alivia a dor.
192. Este é o esconderijo seguro, este é o refúgio supremo,
este é o refúgio que uma vez atingido nos liberta de todos os sofrimentos.
[Dharmapada, Buda, 188-192]

06 março, 2002

Dia de Chuva me contou que...


"uma vez ouviu uma lenda. Ela dizia que a nossa última existência nessa terra é como borboleta. Depois que vivemos aqui várias e várias vezes, quando já tivermos nos purificado de tudo, então retornamos como uma borboleta. Para vivermos por pouco tempo, com beleza, recebendo a admiração das pessoas, finalizando o ciclo de existências com graça, leveza, cores e proximidade com a natureza.”

O que é o Budismo?

O Budismo é o fruto de uma percepção superior e aprofundada da realidade, percebida e experimentada por sábios do passado, seguida e confirmada por experiência própria por outros sábios que os seguiram, e confirmável também, por experiência própria, por todos aqueles que se disponham a seguir alguns dos caminhos por ele apontados com o genuíno amor pelo saber superior (filo-sofia) e com o sincero anseio por religar-se consigo mesmo e com o fundamento último de toda a natureza (religião vem do latim religare). Somente neste sentido podemos falar que é uma religião e uma filosofia.
A partir disto podemos seguir para a pergunta seguinte: Qual o propósito do Budismo? Podemos responder a partir de vários níveis. Falando do objetivo mais alto, podemos dizer que é a Iluminação e a Libertação. Estas duas palavras são como irmãs no Budismo.
Iluminação é a visão clara da realidade ou de sua essência. É a realidade interior de cada um de nós, como também a realidade externa na medida em que nos relacionamos com ela. Não significa conhecer "tudo" em um sentido quantitativo. Por exemplo, saber o número de galáxias no espaço ou o nome de todos os órgãos e conjuntos musculares do corpo humano, não é "saber" para o Budismo, mas mero acúmulo de informações.Interessa, aqui, a qualidade. O que é de fato essencial ou fundamental para a vida, desde a vida cotidiana até as suas dimensões mais profundas.
Libertação é se ver livre de todas as amarras do condicionamento. Desde que nascemos, somos condicionados de inúmeras maneiras, tanto positiva quanto negativamente. É preciso nos vermos livres de ambos. Existe algo semelhante no Antigo Testamento: "Não comer da Árvore do Bem e do Mal". Isto significa se ver livre tanto do Mal, o que é óbvio, quanto do Bem condicionado e rígido, oposto radical do mal. Para ser feliz e viver realmente, o Budismo propõe libertar-se da dualidade, libertar-se do apego, do ódio e da ignorância, ou ainda, libertar-se da ditadura do ego.
Para isto, é necessário compreender a Natureza das Coisas e as Leis Universais. Esta compreensão leva à adequação a estas leis, que por sua vez leva à paz, e neste sentido podemos dizer que o propósito do Budismo é a Paz. Uma paz em todos os níveis: interior, social, ecológico, cósmico e transcendente.

Ricardo Sasaki [O Caminho Contemplativo]

04 março, 2002

Metta: O Amor Universal

Que eu seja sadio, feliz e pacífico. Que nenhum mal me fira.
Que nenhuma dificuldade me atinja. Que nenhum problema me angustie.
Possa eu sempre colher êxito.
Possa eu também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam meus pais ter saúde, felicidade e Paz. Que nenhum mal os fira. Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam meus Mestres ter saúde, felicidade e paz. Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam meus parentes ter saúde, felicidade e Paz. Que nenhum mal os fira. Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam meus amigos ter saúde, felicidade e Paz. Que nenhum mal os fira.Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam todos os indiferentes ter saúde, felicidade e Paz. Que nenhum mal os fira. Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam meus inimigos ter saúde, felicidade e Paz. Que nenhum mal os fira. Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.

Possam todos os seres vivos ter saúde, felicidade e Paz. Que nenhum mal os fira.Que nenhuma dificuldade os atinja. Que nenhum problema os angustie. Possam eles sempre colher êxito.
Possam também ter paciência, coragem, compreensão e determinação para enfrentar e superar as inevitáveis dificuldades, problemas e fracassos da vida.
Texto de [Goenka] professor de Meditação Vipassana
Trad. de [Ricardo Sasaki]


03 março, 2002

Você é responsável por seus atos

Para o budismo não existe um ser que controle a
vida de todos os seres. Temos a liberdade de nossas ações vinculadas à
Lei do Karma (ação intencional). Todo ser é responsável por suas próprias ações e
conseqüências. E mesmo os seres celestiais, como os Devas, estão sujeitos
à Lei do Karma e ao Samsara ( A Roda da Vida: existência cíclica, na qual todos os seres estão sujeitos a constantes renascimentos)

Votos de Bodhisatva

“Seres são inumeráveis, faço voto de salva-los.
Desejos são inexauríveis, faço voto de extingui-los.
Portões do Dharma são ilimitados, faço voto de aprende-lo.
O Caminho do Buda é o mais elevado, faço voto de realiza-lo.


A Metamorfose Zen.

Não, esse não é o nome de um livro, mas bem que poderia...
Lendo um livro ... eu me perguntei: Por que essa borboleta na capa?
O Ciclo da Borboleta passa por quatro fases:
ovo-lagarta-crisalida e adulto.
Quando a borboleta põe seus ovos ela morre,
dali começa um novo ciclo de vida e de seus ovos outras
borboletas nascerão.
Quando vc. se sentar em Zazen um novo ciclo em sua vida começará. É mais lendo, pode ser rápido, pode levar anos, uma vida, até aquele “Eu” que vc. conhece morrer e vc. então nasçer de novo.
O que essa borboletinha ai na capa tem a ver com o zen?


Philip Kapleau [Os Três Pilares do Zen: Ensinamento-Prática-Iluminação]

A borboleta assim como o zen passa por fases até despertar.
Aquele ser que existia antes do sentar não será o mesmo ao final, no despertar,
Assim como aquele ovinho que irá se transformar em uma lagarta depois em crisálida e no final será uma linda borboletainha.
Zen é metamorfose!


"Quando a lagarta pensou que o mundo havia acabado, ela virou borboleta"

02 março, 2002

Nyuanshin ou Mente de Principiante

A mente zen é a mente do principiante.
É a Mente Receptiva.
É a capacidade de ser um eterno aprendiz.

“A mente do principiante é vazia, livre dos hábitos do experiente, pronta para aceitar, para dividir,
aberta a todas as possibilidades. É um tipo de mente que pode ver as coisas como elas são,
que passo a passo e num lampejo é capaz de perceber a natureza original de tudo.”
Richard Baker [Mente Zen. Mente de Principiante]

“Na mente do principiante existem muitas possibilidades, na do perito poucas.”
Shunryu Suzuki [Mente Zen. Mente de Principiante]
A Preguiça

A preguiça interrompe o processo da nossa prática espiritual.
Podemos ser ludibriados por três formas de preguiça:

  • a que se manifesta como indolência, que é o desejo de adiar,
  • a que se manifesta com o sentimento de inferioridade, que duvida da própria capacidade,
  • e a que se manifesta como adoção de atitudes negativas, que é dedicar um esforço excessivo
    aquilo que não é virtude.

Dalai Lama [O Caminho da Tranqüilidade]
Os Dez Preceitos:

1. Panatipata veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de destruir criaturas vivas.

2. Adinnadana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de tomar o que não for dado.

3. Kamesu micchacara veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de comportamento sexual impróprio.

4. Musavada veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me da linguagem incorreta.

5. Suramerayamajja pamadatthana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de bebidas e drogas intoxicantes que conduzem à desatenção.

Os cinco primeiros preceitos são recomendados para os leigos.

6. Vikalabhojana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de comer nos horários proibidos (isto é, após o meio dia) ( hoje apenas na escola Theravada)
7. Nacca-gita-vadita-visuka-dassana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de dançar, cantar, ouvir música, ver espetáculos de entretenimento.

8.Mala-gandha-vilepana-dharana-mandana-vibhusanatthana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de usar ornamentos, usar perfumes, e embelezar o corpo com cosméticos.

9. Uccasayana-mahasayana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de deitar em leitos elevados ou luxuosos.

10. Jatarupa-rajata-patiggahana veramani sikkhapadam samadiyami
Eu tomo o preceito de abster-me de aceitar ouro e prata (dinheiro).

A ajuda na medida certa

O mestre encarregou o discípulo de cuidar do
campo de arroz.
No primeiro ano, o discípulo vigiava para que
nunca faltasse água necessária.
O arroz cresceu forte e a colheita foi boa.
No segundo ano, ele teve a idéia de acrescentar
um pouco de fertilizante.
O arroz cresceu rápido e a colheita foi maior.
No terceiro ano, ele colocou mais fertilizante.
A colheita foi maior ainda, mas o arroz nasceu pequeno e sem brilho.
O mestre, vendo o que estava acontecendo, foi até o discípulo:
- Se continuar aumentando a quantidade de adubo,
não terá nada de valor no ano que vem, disse o mestre.
- Você fortalece alguém quando ajuda um pouco.
Mas você o enfraquece, se ajuda muito.

01 março, 2002

O que é impermanência?

"Impermanência é a verdade básica universal e constante da mudança. Impermanência é, ao mesmo tempo, um processo contínuo de perda, no qual as coisas existem e então desaparecem, e um processo contínuo de renascimento ou criatividade no qual as coisas que não existem repentinamente aparecem. Podemos ver isso momento a momento na meditação. Por exemplo, sons, pensamentos ou sensações vão continuamente desaparecendo e novos vão surgindo. Podemos, também, ver isso claramente em situações corriqueiras das nossas vidas. Onde foi parar nossa experiência do café da manhã lá pelo fim da manhã? Onde ficou aquela conversa que tivemos com um amigo, no dia seguinte? Algumas vezes, estamos mais conscientes das coisas novas que estão surgindo, e outras, notamos o seu desaparecimento. Mas, a mudança é sempre óbvia quando prestamos atenção.

Eu acho muito poderosa a prática de prestar atenção, momento a momento, na experiência da mudança. Ao invés de somente ficar perdido no conteúdo do que está acontecendo, é possível, simultaneamente, prestar atenção ao fato de que a experiência está se alterando e fluindo. Isso não é uma coisa tão difícil de se fazer, mas é mais difícil lembrar de fazê-lo.

Sermos capazes de manter essa perspectiva da natureza transitória da experiência, mesmo quando estivermos passando por ela, ajuda a aliviar a ansiedade na nossa mente. Daqui a seis meses, será que nos lembraremos da raiva ou tristeza ou mesmo da alegria desse momento? Isso não significa que não devamos ser sensíveis ou responsáveis pelo que está acontecendo ao nosso redor, mas deveríamos sim olhar com o entendimento de que tudo está sempre mudando. Nós sabemos dessa verdade de forma abstrata mas com frequência, não desfrutamos dessa sabedoria. O ponto principal, realmente, é como usar a impermanência como um método para libertar a mente."
Joseph Goldstein [A Prática da Impermanência]


Apenas faça Zazen

O zazen é “sem mérito” e “sem finalidade”
Apenas faça, não peça nada em troca.
Apenas reze, não peça nada em troca.
Deixe que o universo se encarregue do resto.
Não medite apenas para ter a força que o zazen lhe der,
mas aceite o que ele lhe der.
Reze por amor a si próprio, por amor a todos os seres.
A Iluminação no zen nunca é apenas por si próprio,
mas para a salvação de todos os seres.