20 fevereiro, 2002

Eu sou a árvore toda


"Num dia de outono, eu estava num parque absorto na contemplação
de uma folha muito pequena, mas muito bonita, com a forma de um coração.
Sua coloração era quase vermelha e ela estava mal dependurada no galho,
quase pronta para cair. Eu passei um longo tempo com ela e fiz a ela uma porção de perguntas.
Eu descobri que a folha tinha sido uma mãe para a árvore. Geralmente, nós imaginamos que
a árvore é a mãe e que as folhas são como que filhos, porém enquanto olhava para a folha eu vi também
que ela é uma mãe para a árvore. A seiva que as raízes absorvem constitui-se apenas de água e minerais,
não suficientemente boas para nutrir a árvore, assim ela distribui a seiva para as folhas. E as folhas
assumem a responsabilidade de transformar esta seiva bruta em seiva elaborada e,
com a ajuda do sol e do ar, remetê-la de volta para a nutrição da árvore. Portanto, as folhas são também uma
mãe para a árvore. E como a folha está ligada à árvore através de uma haste, a comunicação entre elas é fácil de ver.

Nós não temos mais uma haste ligando-nos a nossa mãe,
mas quando estávamos no seu útero, nós tínhamos uma
haste muito longa, um cordão umbilical. O oxigênio e a nutrição
que necessitávamos vinham até nós através daquela haste.
Infelizmente, no dia em que chamamos de nosso aniversário,
ela foi cortada, e nós recebemos a ilusão de que
somos independentes. Isto é um engano. Nós continuamos a depender
de nossa mãe por um tempo muito longo, e também tivemos muitas
outras mães. A Terra é nossa mãe. Nós temos muitas hastes ligando-nos
à nossa mãe Terra. Há uma haste ligando-nos com a nuvem.
Se não houver nuvem, não haverá água para bebermos. Nós somos feitos
de pelo menos setenta por cento de água e a haste entre a nuvem e nós realmente está ali.
(...) Há centenas de milhares de hastes ligando-nos a todas as coisas no cosmos,
e conseqüentemente nós podemos existir. Você vê o elo entre você e eu? Se você não estiver aí,
eu não estarei aqui. Isto é certo. Se você ainda não vê isto, olhe mais profundamente
e tenho certeza que você vai ver. Como eu disse, isto não é filosofia. Você realmente tem de ver.

Eu perguntei à folha se ela estava assustada por ser outono e todas as outras folhas
estarem caindo. A folha respondeu-me: "Não. Durante toda a primavera e verão eu
estive muito viva. Eu trabalhei duro e ajudei a nutrir a árvore, e muito de mim está na árvore.
Por favor, não diga que eu sou apenas esta forma, pois a forma da folha é apenas uma pequeníssima parte de mim. Eu sou a árvore toda.
Eu sei que já estou dentro da árvore e, quando voltar para o solo,
continuarei a nutri-la. Por isso é que eu não me preocupo. Assim que deixar este ramo e flutuar até o chão,
acenarei para a árvore e direi a ela: Eu verei você novamente muito em breve”!

De repente, eu vi um tipo de sabedoria muito semelhante ao contido no Sutra do Coração.
Você tem de "ver" a vida. Você não deveria dizer, vida da folha, mas sim falar apenas da vida
na folha e vida na árvore. Minha vida é apenas Vida, e você pode vê-la em mim e na árvore.
Naquele dia havia uma brisa soprando e, após algum tempo, eu vi a folha deixar o ramo e descer flutuando
até o solo, dançando alegremente, porque, enquanto flutuava, ela já se via ali, na própria árvore.
Eu fiquei muito feliz. Eu cumprimentei-a inclinando minha cabeça.
Eu sabia que tínhamos bastante a aprender com a folha porque ela não tinha medo -
ela sabia que nada pode nascer e nada pode morrer".

Thich Nhat Hanh [O Coração da Compreensão – Comentários a Sutra do Coração Prajnaparamita Sutra. Ed. Bodigaya, 41-44]

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