19 dezembro, 2002

108 metas para a vida toda



Das 108 metas para a vida toda consegui cumprir 36, 56 este ano.
Já nem me importo mais em ganhar o Oscar. Se o Brasil ganhar vou considerar meta cumprida.
Olhando a lista ainda vai dar tempo de cumprir mais algumas.
Olhando melhor vou refaze-la: excluir algumas coisas e incluir outras.
Coisas que não são mais importantes diante da mudança de direção que se configurou neste ano.
Aprendi que promessa não funciona. Melhor é assumir compromisso com aquilo que desejamos realizar.
E não esquecer de checar com freqüência a lista.
Até o próximo ano, com novas metas, velhas metas.

Até a volta! Continuem praticando. Eu não vou ficar aqui sentanda esperando o ônibus passar.
Vou com ou sem ônibus.

16 dezembro, 2002


Intuition tells me how to live my day
Intuition tells me when to walk away
Could have turned left
Could have turned right
But I ended up here
Bang in the middle of real life

Pessoas Raras

É raro encontrar pessoas que estão verdadeiramente famintas por despertar e praticar- e não querem apenas uma solução para seus problemas, tentando salvar sua pele, ou batendo no ego.

Nos comunicamos e ouvimos com o coração, não com o cérebro sozinho.

Christine Nachmann

Buda está em todo lugar!

Nós tb. podemos estar em todo lugar ao mesmo tempo. De qualquer ponto do cosmo, uma pessoa pode nos tocar, em qualquer lugar em que estejamos. Nós não estamos confinados ao tempo e ao espaço.
Penetramos em todo o lugar; estamos em toda a parte.
Sempre que uma pessoa com uma mente profundamente desperta, toca algo, ela nos toca.
O milagre é possível graças à compreensão da inter-existência.
Se vc. realmente toca uma flor em profundidade, vc. toca o cosmo inteiro. O cosmo não é um nem muitos. Quando vc. toca um, toca muitos e quando toca muitos, toca um.
Como Shakyamuni Buda, vc. pode estar em toda parte ao mesmo tempo. Olhe mais profundamente e verá inter-existindo com todos e com tudo.
Na verdade, apenas o bater de palmas de suas mãos é o bastante para tocar miríades de galáxias.
Cada olhar seu, cada sorriso, cada palavra alcançam longínquos universos e influenciam todos os seres vivos e não vivos. Tudo está em contato com tudo. Olhando com profundidade podemos transformar este mundo. Quanto mais olhamos em profundidade mais leve é o presente. Depende de nós.

Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor]

14 dezembro, 2002

A mente funciona para criar todos os tipos de mundo


Quando buda emana a grande luz,
As dez direções brilham.
Todos no Céu e na Terra
Podem vê-lo livremente, sem obstruções.

As coisas todas não têm proveniência,
E ninguém pode criá-las.
Não existe lugar algum onde nasçam.
Elas não podem ser discriminadas.

As coisas não tem nascimento e
Tampouco extinção.
Aqueles que entendem isso
Verão Buda e o tocarão.

Se alguém quer conhecer os Budas de outros tempos,
Deveria contemplar a natureza do cosmo:
Tudo nada mais é que construção mental.

É como um pintor espalhando várias cores.
A ilusão se apega a diferentes formas, mas os elementos não têm distinção.

Nos elementos, não há forma, nem não-forma nos elementos.
Não obstante, à parte dos elementos, nenhuma forma pode ser encontrada.

Na mente não há pintura.
Na pintura não há mente.
Não obstante, à parte da mente, nenhuma pintura pode ser encontrada.

A mente nunca pára de manifestar formas, incontáveis, inconcebíveis muitas,
Muitas desconhecidas umas às outras.

Como o pintor que pode não conhecer sua própria mente,
E não obstante pinta graças à mente, assim é a natureza de todas as coisas.

A mente é como um artista, capaz de pintar os mundos:
Os cinco skandas (agregados) nascem do mesmo tipo de funcionamento da mente.
Não há nada que ela não faça.

Se as pessoas sabem de que jeito a mente funciona para criar todos os tipos de mundo,
Elas serão capazes de ver Buda e entender a verdadeira natureza de Buda.


Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor, Interpretação livre do TNH sobre Sutra Avantamsaka, Cap. XX]

Sangha: Amigos de Prática



Se vc. conta com o apoio de uma sangha, torna-se fácil nutrir sua mente desperta (bodhicitta). Se vc. não tem ninguém que o compreenda e o encoraje na prática de viver o Dharma, seu empenho em praticar pode esmorecer. Sua sangha, família, amigos ou colegas de prática- é o terreno e vc. é a semente. Não importa quanto a semente é vigorosa. Se o terreno não provê nutrição, sua semente morrerá. Uma boa sangha é decisiva para a prática. Por favor procure uma boa sangha ou então ajude a criar uma.

Buddha, o Dharma e a Shanga são as três pedras preciosas do budismo, e a mais importante delas é a sangha. A Sanga contém Buda e o Darma.
Um bom mestre é importante, mas vc. precisa de seus irmãos e irmãs no Darma para ter sucesso na prática.
Vc. precisa escolher amigos que tenham estabilidade na prática e com os quais pode contar.

Tomar refúgio na sanga significa depositar confiança numa comunidade de membros efetivos que praticam juntos o despertar da mente. Vc. não tem que praticar intensamente- basta estar junto a uma sangha onde as pessoas se sintam felizes, vivendo profundamente cada momento de seus dias.

Se uma pessoa transtornada é posta em uma boa sangha, apenas o fato de ela estar lá já é suficiente para realizar uma transformação.

Dois mil anos atrás Buda Shakyamuni anunciou que o próximo Buda receberá o nome de Maitreya, “o Buda do Amor”. Acho que o Buda Maitreya poderá ser uma comunidade e não somente um indivíduo.

“Eu tomo refúgio na sangha” é um voto forte. Com uma boa sangha vc. toca Buda, toca o Dharma e toca profundamente vc. mesmo.

Foi graças à sangha que sobrevivi a muitos momentos difíceis e me tornei capaz de ser um recurso para muita gente.

Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor]


13 dezembro, 2002

Clarice e o Instante-Já

E eis que percebo que quero para mim o substrato vibrante da palavra repetida em canto gregoriano. Estou consciente de que tudo o que sei não posso dizer, só sei pintando ou pronunciando, sílabas cegas de sentido. E se tenho aqui que usar-te palavras, elas têm que fazer um sentido quase que só corpóreo, estou em luta com a vibração última. Para te dizer o meu substrato faço uma frase de palavras feitas apenas dos instantes-já. Lê então o meu invento de pura vibração sem significado senão o de cada esfuziante sílaba, lê o que agora se segue: “com o correr dos séculos perdi o segredo do Egito, quando eu me movia em longitude, latitude e altitude com ação energética dos elétrons, prótons, nêutrons, no fascículo que é a palavra e a sua sombra”. Isso que te escrevi é um desenho eletrônico e não tem passado ou futuro: é simplesmente já.

Clarice Lispector [Água Viva]

12 dezembro, 2002

Zen é simples, sem palavras

Christmas Humphreys, um dos pioneiros a introduzir o Zen na Grã-Bretanha, escreveu que o Zen é muito fácil de ser entendido: Zen é apenas o que vc. faz. Não há um conceito que possa ser descrito com palavras.

Apesar disso usamos palavras para dar alguma idéia sobre o que seria Zen, mas o Zen não precisa de palavras- vc. precisa
experimenta-lo para entendê-lo.

A essência do Zen Budismo é que todos os seres são Buda (iluminados), o que todos devem fazer é descubrir essa verdade por si mesmos.

Todos os seres tem natureza de Buda
Assim como o gelo é feito de água,
Sem a água não há gelo,
sem os seres, não há Budas.

Hakuin Ekaku

Vc. que está lendo isso agora, tb. é Buda. Apenas ache a verdade sobre a sua verdadeira natereza...e vc. encontrará a natureza de Buda

O Zen nos remete a procurarmos dentro de nós mesmos nossa natureza desperta. Não precisamos procurar por respostas fora de nós mesmos; nós podemos enconta-las no mesmo lugar onde encontramos as perguntas.

As pessoas não podem aprender essa verdade filosofando ou através do pensamento racional, nem estudando os Sutras, participando
de rituais religiosos.

O primeiro passo para praticar é usar técnicas de meditação que irão disciplinar seu corpo e sua mente.

A essência do Zen-Budismo é atingir diretamente o despertar através da uma única mente original (natureza original); sem a intervenção do intelecto.

Zen é, apenas " deixar ir".

O Zen aponta para algo antes do pensamento, antes de todas as idéias.

Zen não é uma filosofia ou religião.

O Zen tenta libertar a mente da escravidão das palavras e das construções lógicas.

10 dezembro, 2002

Esse mosteiro está bem silencioso...

Wonderful World
Written by - George Weiss and Bob Thiele


I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world

The colours of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"

I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world


Tema de Casa

Mas que resposta rápida, hein? Rs.

-É, vc. tem sorte. Se fosse um mestre, um monge, Lama ou coisa e tal. Só no ano que vem. :)

Eu queria saber quais são as 'grandes diferenças' duma escola pra outra. Afinal, existem diferenças, ou então não existiriam escolas, não é mesmo?

-Pelo que eu sei, basicamente as diferenças são na prática. As formas de prática são muitas. Só experimentando mesmo.

Há um mestre zen coreano que explica bem as diferenças. Vc. deu sorte pq. estou lendo um livro dele agora. Sugiro que se vc. puder tb. o leia: A Bússola do Zen. Mestre Seung Sa Ed. Bodigaya

Ele fala que existem três principais tradições: O Hinayana, O Mahayana e o Zen-Budismo.
Buda teria ensinado todos eles, gradativamente em diferentes períodos, a medida que a mente de seus alunos fosse progredindo. Ele viu que até onde ele havia chegado seria muito díficil para as pessoas do seu tempo entenderem, então ele começou do mais fácil.
Os hinaynistas mais ortodoxos não concordam, pois se apegam aos sutras e dizem que não há nada neles que prove que o Buda teria ensinado além do Hinaya.

O Budismo Hinayana ensina que quando o pensamento aparece, o “eu” aparece. Quando o ‘eu’ aparece o mundo inteiro é dividido em pares de opostos, dualidades. Esse pensamento causa sofrimento. Assim o Hinayana ensina que quando a mente aparece o Dharma aparece. Quando o Dharma aparece, nome e forma aparecem.
O budismo Hinayana explica que vivemos neste mundo impermanente, neste mundo de sofrimento, e nos mostra como sair dele. Alcançar o Nirvana é o objetivo supremo do Hinayana.”

No mais o Hinayana se concentra no estudo dos Sutras do Cânone Pali (84.000 sermões). É um budismo eminentemente monástico, onde se prática muitas regras, votos de pobreza, castidade entre outros tantos. Segue-se rigorosamente as regras (Vinaya) e o que está escrito nos Sutras é a Lei. Os leigos praticam a meditação Vipassana e tomam os cinco votos, recita-se o sutra de metta, os três refúgios em pali, etc. Vc. pode conhecer melhor o Hinayana no site do acesso ao insight

O ensinamento Mahayana começa onde o Hinayana acaba. Ele nos mostra como alcançar o “mundo completo”, partindo da experiência da vacuidade. Isso significa que se sua mente é completa, tudo então é sempre completo. O sol, a lua, o sofrimento é completo. A felicidade também é completa. Não há dentro ou fora. Não há sujeito ou objeto.Vc. é o universo; o universo é vc. Esse “mundo completo” significa verdade quando a sua mente corta todo o pensamento, não há pensamento. Não haver pensamento significa não haver “eu”. Quando não há “eu” sua mente se torna clara. O céu é azul, a árvore é verde, o cão faz: au, au, nada além, tudo completo.
O budismo Mahayana significa compreender que tudo tem natureza vacuosa e como a partir dessa verdade ajudar todos os seres, vida após vida. Às vezes chamamos isso de Grande Amor, Grande Compaixão ou Caminho de Bodhisattva.”

São escolas do Budismo Mahayana (nesta formulação do mestre Seung Sa) O Budismo Vajrayana, mais conhecido como Tibetano, Terra Pura entre outras.


Já falei sobre as práticas no Budismo Tibetano em posts anteriores, portanto não vou repeti-las.
Inclusive já escrevi sobre as diferenças entre as práticas nas escolas budistas. Dê uma olhada nos arquivos.

Segundo Mestre Seung Sa o Zen-Budismo abrangeria tanto o Hinayana quanto o Mahayana indo mais além.
Em geral se costuma, históricamente dividir o Budismo apenas em Hinayana e Mahayana, sendo assim a Escola Theravada seria Hinayana, e as demais Mahayana.

Reconhecer que tudo é impermanete e que a dualidade é geradora de sofrimento. Buscar superar isto através de práticas ascéticas e solitárias foi o insight inicial. Depois entendeu-se que não se poderia parar ai, ou seja que era necessário ampliar essa prática e não deixa-la restrita apenas ao indivíduo que busca a sua própria salvação. Então passou-se a praticar em benefício de todos os seres, buscando dissolver o ego e recuperar o nosso ‘eu’ original, nossa verdadeira natureza. Para o Zen não há necessidade de ter certezas e seguranças. O Zen aceita que tudo é, tudo existe. Sempre existiu. Não há começo nem fim. Tudo está, sempre esteve, e sempre estará.

O Zen-Budismo nunca fala de absolutos ou opostos. Não tenta explicar a vacuidade, a vacuidade, a verdade, ou o mundo completo. A prática zen “nunca” explica nada. O Zen apenas aponta diretamente para a nossa mente, para o nosso verdadeiro “eu” de forma que possamos alcançar a iluminação diretamente e ajudar todos os seres.Todo o ensinamento Zen simplesmente apenas aponta para a sua mente, nesse instante. "O que vc. está fazendo agora?" O ensinamento Zen sempre nos remete àquilo que podemos chamar de “mundo momento” Esse momento é muito importante. Nesse momento, tudo existe. No momento há o tempo infinito e o espaço infinito. Assim se alcançar o momento, vc. alcançara diretamente todas as coisas. Isso é Zen-Budismo: não há mente, não há Buda, não há Deus. Mas há mente, Buda e Deus.
Logo cada uma das três principais tradições budistas simplesmente usa técnicas para abordar a mesma experiência.”

Se vc. nunca comeu uma melancia e pedisse para um Budista Hinayana para lhe explicar o que é uma melancia ele iria lhe dizer como a melancia é plantada, como ela cresce até ficar madura. Os estágios desde a semente até o fruto.
Se perguntasse a um budista Mahayana , ele lhe descreveria sua forma externa: cor, peso, tamanho. Teorizaria a respeito.
Se perguntasse a um Zen-budista ele seria simples e direto. “pegue uma melancia, consiga uma faca, corte a melancia e prove-a."

Espero ter respondido em parte sua pergunta o resto fica de tema de casa para vc.

Quanto a história do budismo, creio que vc. poderá encontrar alguma coisa sobre isso na net.
Um site bem abrangente sobre todas as Escolas é o Dharmanet
.

08 dezembro, 2002

Hoje comemora-se o dia em que o Buda Sakyamuni teria conseguido
realizar o Perfeito Estado da Iluminação.
Os budistas japoneses chamam de Jodo-E o comemoram no após sete dias de retiro chamado
Rohatsu.

"Sentado sob a árvore Bodhi, a árvore da iluminação, passou por todos os estágios de meditação e atingiu a iluminação, compreendendo a natureza real do sofrimento. Desse momento em diante passou a ser conhecido como o Buda, "o desperto"."


O caminho do despertar

Depois de se banhar no rio Nairanjana, Siddhartha foi para uma região conhecida como Círculo da Iluminação (sânsc. Bodh Gaya) em Bihar, onde os iluminados do passado atingiram o despertar. Próximo ao rio, voltado para a direção leste, Siddhartha sentou-se em meditação sobre um monte de grama kusha, protegido pela sombra da figueira de bodhi. Ele jurou para si mesmo que só se levantaria após atingir a iluminação.


Raios de luz emanaram de seu corpo e de sua cabeça, atraindo a atenção de Mara, o demônio do ego. Mara ordenou que suas belíssimas filhas — a cobiça, a raiva e a ignorância — tentassem seduzir Siddhartha, mas elas não conseguiram distrair sua concentração. Então, Mara enviou outros demônios para assustá-lo, mas eles fugiram de medo!

Por último, Mara jogou flechas, pedras e bolas de fogo, que se transformaram em pétalas e faíscas. Mara, cheio de ódio, retirou-se; Siddhartha continuou a meditar. Primeiro, Siddhartha lembrou-se de suas incontáveis vidas passadas; depois, ele viu o processo de renascimento de todos os seres; finalmente, ele alcançou a verdade última de todos os fenômenos.



Criando mil mãos segurando armas, Mara, sentado no feroz elefante Girimekhala, aproximou-se com seu exército. Pela virtude da generosidade e outras mais, o grande sábio [Siddhartha] os conquistou. [...]

Mais violento que Mara, numa luta que durou toda a noite, foi o Yakkha Alavaka, arrogante e obstinado. pela grande virtude da paciência e do auto-controle, o grande sábio o conquistou. [...]

O elefante real Nalagiri, completamente louco, investiu sobre ele, cruel, como um fogo na floresta ou como um raio. Aspergindo as águas da amizade amorosa, o grande sábio o conquistou.

(Buddha Jayamangala Gatha, citado no Livro das Devoções)


Na primeira guarda ou vigília ele examinou, com seu poder de concentração, a sucessão de nascimentos e mortes durante suas incontáveis vidas. Por ver esse processo remontando ao início dos tempos — nascer sob certas circunstâncias, passar pelos dramas da vida, morrer e renascer — chegou a uma profunda compreensão da impermanência e insubstancialidade da existência. [...] No segundo turno de vigília ele contemplou a lei do karma. Ele viu como a força kármica das ações passadas impele e condiciona os seres através dos sucessivos renascimentos. Ver seres sendo levados pela ignorância através do remoinho de destinos díspares, despertou nele a energia de uma profunda compaixão. Na terceira guarda ele contemplou as Quatro Verdades Nobres e a lei da geração dependente. Ele viu como a mente se torna apegada e como, através do apego, há sofri­mento. Ele compreendeu a possibilidade de descondicionar esse apego e de atingir um ponto de liberdade.

(Citado por Joseph Goldstein em Buscando a Essência da Sabedoria)

No 8º dia do 12º mês lunar de 528 a.C., aos 35 anos de idade, Siddhartha realizou sua própria natureza búddhica (sânsc. buddhata) e, conseqüentemente, compreendeu o sofrimento, sua causa, sua extinção e o meio para extingui-lo. Siddhartha alcançou a iluminação (sânsc. bodhi), e passou a ser conhecido como o Iluminado, o Desperto (sânsc. Buddha), o Sábio dos Shakyas (sânsc. Shakyamuni). Seu corpo dourado resplandecia com as trinta e duas marcas maiores e as oitenta marcas menores de um ser completamente iluminado.

Em miríades de nascimentos vaguei na existência cíclica, antes de descobrir o verdadeiro conhecimento.

À procura do construtor desta casa, cada novo nascimento trazendo mais sofrimento.

Agora conheço você, construtor desta casa! Você não mais me aprisionará.

Demoli o seu topo e destruí sua estrutura até o chão.

A consciência entrou naquele estado incondicionado, o final definitivo da sede do desejo.

(Pathama Buddhabhasita Gatha, citado no Livro das Devoções)


Conta-se que, logo após sua iluminação, o Buddha passou por um homem num caminho que estava perplexo pelo extraordinário esplendor e calma de sua presença. O homem parou e perguntou:

"Meu amigo, quem é você? Você é um ser celestial ou um deus?"
"Não", disse o Buddha.
"Bem, então, será que você é algum tipo de mágico ou mago?"
Novamente o Buddha respondeu, "Não".
"Você é um homem?"
"Não."
"Bem, meu amigo, então quem você é?"
O Buddha respondeu, "Eu sou um desperto".

(Jack Kornfield, Buscando a Essência da Sabedoria)

Buddha


07 dezembro, 2002

Remédios

Como vc. se sente? Cheio ou vazio? Se está cheio, precisa de uma prática para esvaziar, se está vazio, precisa encher.
O Zen-Budismo tem remédio para tudo. Se a mente está cheia, pode-se esvazia-la no Zazen ou fazendo prostrações. Se a mente está vazia, pode-se enche-la com mantras, como:

(jap.) OM Kanzeon Bosatsu
(cor.) Kwan Seum Bosal
(tib.)Om Mani Padma Hum

Buda era conhecido pelo povo como um excelente médico pois tinha remédios para todos os males.
Certa vez ele resolveu fingir que Ele estava doente e pediu que seus monges espalhassem a notícia e pedissem para que as pessoas trouxessem algum remédio que pudesse curar o Buda.
Formaram filas enormes e todos queriam ter a honra de salvar o Abençoado.
Trouxeram-lhe todas os tipos de ervas de poções. Qualquer coisa que encontrassem no caminho.
Cada um que chegava diante do Buda apresentava seu remédio e Buda dizia: Não, esse não serve.
A fila já estava acabando e ninguém tinha encontrado o remédio para a cura do Buda.
No final da fila havia um homem que estava ali meio sem saber porque e quando soube não havia mais tempo para providenciar algo. Chegou sua vez de apresentar seu remédio, então ele disse humildemente:
-Eu nada tenho que possa cura-lo.- Ao que Buda sorrindo respondeu- É exatamente este o remédio que eu preciso. E assim buda ensinou sobre o Vazio.

06 dezembro, 2002

Procura-se Mestres

Nos perguntam com freqüência se para praticar no zen-budismo é preciso ter Mestre, onde e como encontrá-lo. Como se mestre se comprasse no supermercado.

Pessoas passam anos apegados a essa idéia tola-procurar seu mestre- e se esquecem do mais importante: a prática.
Se vc. chegar até um mestre, identificá-lo como tal e isso for recíproco, há conexão. Mas de que servirá tê-lo encontrado se nunca praticou?
Ir ao mestre de mãos vazias é correr o risco de ouvir uma sonora risada um “volte no próximo ano”, no próximo e no próximo.

A busca de um mestre não deve ser mitificada como freqüentemente se vê nos livros e nas discussões, como se o mestre fosse algum Deus inacessível.
Colocar o mestre a frente da prática é como colocar a carroça na frente dos bois.

O mestre vem com a maturidade da prática. Se vc. não vai atrás dele, ele vem atrás de vc. Não importa onde ele ou vc. estejam, quão distante estejam.
Quando estamos prontos, não há como fugir desse encontro. Mas até lá é importante observar todas as opções que estiverem ao nosso alcance cuidadosamente. É tb. tão importante quanto, nos observarmos. Nos perguntarmos constantemente: pq. tal pessoa me atrai mais, me entusiasma mais? Há algo nela que falta em mim? Que relação eu estou buscando nessa pessoa?

Muitos confundem o mestre com pai, mãe, ou terapeuta e transferem para ele suas carências. Ser pai, mãe e terapeuta não é o trabalho do mestre. O trabalho dele é guia-lo no Caminho. Se o mestre ou o aluno tiverem tal comportamento ou ele ou vc. ou ambos estão tendo uma visão incorreta.

05 dezembro, 2002

Presente

Já há algum tempo estava querendo ler “A Bússola do Zen”.
Ontem mesmo estava pensando se poderia lê-lo nas férias – emprestado.
Alguém leu meu pensamento e presenteou-me com o livro.
Não sei se o mereço. Nada tenho e ao mesmo tempo tenho tudo.

Primeiro ilumine-se, depois instrua todo os seres.

Mestre Zen Seung Sahn [A Bússola do Zen, Ed. Bodigaya]

04 dezembro, 2002

Prática em Grupo

Alguns dizem que não é tão bom praticar em grupo, que é melhor em casa, sozinho...
Cada um deve estabelecer as suas prioridades. A prática em grupo se faz necessária não por mim, mas por aqueles que precisam de mim.
Um amigo/a engajados na mesma atividade nos motiva a seguir em frente. Para mim o encontro com um grupo e as pessoas que conheci foram fundamentais para me motivar a praticar e ver que ali tb. tem pessoas que podem me servir de exemplo ou me desafiar .Por outro lado também tem aquelas que precisam do meu exemplo para continuar.
É uma corrente, onde um elo está ligado ao outro, onde todos juntos se fortalecem e se beneficiam.
Praticar sozinho nem sempre é um ato de egoísmo. Temos desafios constantes na prática solitária, mas quando não nos incomoda mais podemos compartilhar nosso esforço com outras pessoas que estão começando, que estão tendo as mesmas dificuldades que já tivemos ou ainda temos. Um apoia o outro.

02 dezembro, 2002

Chame-me pelo meus nomes verdadeiros,
por favor,
para que eu desperte,
e para que a porta do meu coração possa
ficar aberta,
a porta da compaixão.

Thich Nhat Hanh [Paz a Cada Passo]
A prática é esta: É estar aqui.


É voltarmos ao primeiro instante, quando podíamos estar completamente aqui. Antes de fugirmos para as lembranças, os projetos, etc. Estar tranqüilamente no centro de tudo que existe, sem véus, sem separações com respeito à felicidade e ao sofrimento. A isto nós chamamos não-ego, não-sofrimento.


Como ser justo na vida cotidiana?

É importante nesse caminho a adequada utilização da palavra, porque penso que intuitivamente sabemos quando algo é ou não é justo.

Muitas vezes isso fica muito claro, por exemplo, quando vocês estão com amigos e dizem algo inconveniente, que talvez fosse melhor não ter dito. Naquele momento pareceu mais interessante chamar a atenção, aparentar saber mais que os outros ou ser o primeiro a dizer aquilo, mas, no fundo, sabíamos que não era a melhor coisa a ser dita. Não era justo.

Justo significa adaptado à situação. Uma maneira de manter a atenção sobre a nossa vida a cada momento. Sobre como ela é e não como gostaríamos que fosse. Há, então, um tipo de manipulação interessante. Tentamos empurrar as pessoas e as coisas para exercer o nosso desejo. Então dizemos: "Ah, se essa pessoa pudesse fazer assim ou assado, se pudesse ser mais gentil..." mas se ela não age como desejamos, ficamos enraivecidos. E certamente os outros estão fazendo o mesmo conosco... O estudo das Quatro Nobres Verdades pode nos fazer compreender comportamentos de nossa vida cotidiana. Porém, isso é teórico, uma elaboração mental.

Muitas vezes compreendemos que deveríamos mudar em alguns aspectos. Nosso caráter, nossa maneira de ser. É muito difícil mudar. É por isso que a prática budista está baseada na meditação. Sidarta é o exemplo. Há muitas falsas idéias sobre a meditação. Primeiro, vou lhes dizer o que a meditação não é. Não é um refúgio para nos apartar dos outros, do mundo. Não é alcançar um pequeno paraíso com nuvenzinhas e pequenos anjos que pulam por todo lado. Não é sentar para olhar o próprio umbigo, nem para fazer um estudo psicológico de si mesmo, nem para ter tempo de cuidar de tudo que deve ser feito durante o dia. Não é relaxamento. Praticar meditação é estar preparado para olhar aquilo que está dentro de nós, nossa cólera, medo e frustração.

Tudo o que fechou nosso coração a nós mesmos e aos outros. Meditar é um longo trabalho, física e moralmente doloroso. Pode ser mesmo aborrecido, mas é absolutamente necessário. às vezes utilizamos uma comparação: Não podemos ver através de um copo com água lamacenta, devido às impurezas em suspensão. Se colocarmos o copo tranqüilamente sobre a mesa, aos poucos as impurezas vão decantando e a água vai ficando límpida, pura e transparente. Da mesma forma, nosso espírito está constantemente agitado com projetos, desejos, contentamentos, descontentamentos e recordações. É impressionante nossa primeira meditação, quando vemos tudo isso em nossa cabeça.

Nos textos clássicos, o espírito é comparado a um macaco. O macaco é muito interessante de ser observado. Ele pega um objeto, olha, larga, pega um outro, larga... Está sempre em movimento, nunca pára. Pode ser lúdico observá-lo assim, mas se imaginarmos o macaco conosco durante as 24 horas do dia, seria muito cansativo. Contudo, nós fazemos a mesma coisa. Nossa mente não repousa. Aí está a importância da meditação.

É preciso prestar atenção, pois começamos, evidentemente, com a idéia de nos tornarmos uma pessoa melhor. Vamos deixar de sofrer, vamos estar em harmonia com as demais pessoas. Começamos logo por nossos desejos. Não são desejos materiais, são desejos espirituais. Além disso, temos a consciência tranqüila, pois dizemos: "Ah, que pessoa maravilhosa, que ser espiritual estou me tornando". Mas a meditação, o zazen, não é isso. É apenas estar lá, sentado. Mesmo sendo desagradável. Só quando estamos enraizados em nós mesmos é que podemos formar uma relação apropriada conosco e com os outros. Uma relação direta, não afetada por nossos sonhos e ilusões. É como uma roda. É necessário um ponto fixo para que a roda possa girar.

Todas as vias espirituais oferecem um caminho. É preciso fazer uma escolha e segui-la com determinação. Não é necessário para isso tornar-se monge. Não é necessário seguir o ensinamento búdico a ponto de deixar a família, os bens, mas será necessário abandonar muitas coisas no caminho, para que possamos avançar mais levemente, sem transportarmos tanto "peso".

Gosto muito da idéia de dançar. Dançar com a vida, levemente, em cada instante.

Não podemos sempre dizer que as coisas estão lá fora, no exterior. É necessário voltar-se para si mesmo. A nossa prática não é uma prática egoísta. Eu realmente penso que tornando mais leve nosso sofrimento, estamos diminuindo o sofrimento de todo o mundo.

É por isso que o ensinamento de 25 séculos do Buda é sempre atual, condizente com nossa vida de hoje. Por isso tornei-me uma monja. Quando comecei a praticar a meditação, pensei: "É a coisa mais importante do mundo". Fui então para o Japão. Procurei um templo e um mestre. Quando os encontrei, raspei a cabeça e me tornei monja. Fiquei vários anos nesse templo e recebi de meu mestre o selo da transmissão "mestre-discípulo", conforme a tradição.

Meu mestre me pediu que voltasse a meu país, a França, e abrisse um mosteiro onde pudesse repassar o que recebi. Ali chegam pessoas leigas para viver, em retiros de alguns dias, uma semana, um mês, a vida de um monge zen: meditação e trabalho.

Há um poema zen que aprecio muito e que diz: "Como a andorinha que voa no céu, completamente livre". Este é o ensinamento.

Zuymyo Joshin Sensei.[ Mestra Zen da escola Soto, superiora do templo "La Demeure Sans Limites"]

Joshin Sensei costuma passar férias na Ilha. Chique, né?


30 novembro, 2002

"Qualquer lugar que vc. esteja é o seu templo, se vc. o considerar como."

A monja Jókei, discípula da Mestra Zuymyo Joshin (Luce Bachoux,Fr), ambas discípulas de Moriyama Roshi (RS), fez uma visita ao zendo ( ainda sem nome), acompanhada de alguns discípulos de M. Roshi.
Meditamos juntos por 40min., sutra, votos, refúgio.
Monja Jokei falou-nos sobre seu percurso como monja, dificuldades com a prática, mestres, a vida no mosteiro e repondeu perguntas.
Ela falou que na tradição Soto Zen tem-se dois mestres: um mestre de trabalhos (sumo). Os trabalhos consistem em limpeza e organização da rotina do mosteiro, lavar, limpar, cortar lenha, cozinhar, servir, costurar, etc. Tudo muito rudimentar, sem as facilidades modernas. O mosteiro vive como se estivesse na Idade Média: sem luz, sem gás, sem chuveiro elétrico.
Depois tem mestre de ensinamentos (Dharma). Já havia lido uma matéria com a monja Zuitem falando disso. Ela disse que lá no mosteiro (Japão) primeiro se passa por vários setores, aprendendo de tudo, como se fosse uma fábrica de montagem. Depois que se aprende a duras penas a disciplina do mosteiro e consequentemente o corpo e a mente estão tb. disciplinados, então vai-se aprender os cantos, sutras, cerimoniais e por fim o Dharma

Claiton nos falou sobre o grupo que se reúne no recém fundado Zendo do Grande Oceano.

Pela descrição parecia ser um refúgio perfeito para a prática. Perfeito demais. Fomos conferir e retribuir a visita. Levamos presente e ... dia de Zazen...ninguém. Tivemos bom passeio.

Não sou muito fã dessa mania dos japoneses de escolher lugares isolados, inóspitos, inacessíveis.
Pra que se esconder? Se tudo que temos levamos conosco, onde que quer que formos.
Precisamos criar condições para que as pessoas possam praticar onde elas estão vivendo, sem criar obstáculos.
Para quem mora no local ou próximo é ótimo, perfeito!
Se a questão é criar dificuldades, pode-se fazer a prática difícil praticando em casa, na cidade, basta querer.

Se um dia tiver um Zendo, ele vai ser na rua mais barulhenta da cidade. Só pra contrariar.

Ok, um lugar para fazer retiros até pode ser afastado, calmo, mas não necessariamente inacessível.


Fotos são como miragens no deserto, vc. pensa que é tudo isso e quando chega perto...

Essa casinha não é o Zendo é um albergue :)

Cadê o paraíso? Está no aqui e agora!
Um ensinamento diz: "Enquanto eu estava vagando no cíclo da existência,
Você procurou por mim e iluminou a minha ignorância."

In: Dalai Lama [ O Caminho para a Liberdade,40]

28 novembro, 2002

Recados do Acaso

Alguém esteve aqui procurando por Wei Chi. Como eu não sabia o que é Wei Chi fui procurar e wei chei
I Ching

64-WEI CHI

0 estabelecimento da ordem
Li sobre K'an
Fogo sobre Água

A imagem (não tem imagem)

A pessoa sábia procura primeiro colocar-se numa posição de onde possa ver as coisas como realmente são. Assim, pode coloca-las em real e apropriada relação umas com as outras.

0 julgamento

As condições são sempre difíceis, quando a ordem está sendo criada a partir do caos. 0 sucesso pode ser alcançado se a pessoa considerar cuidadosamente quais os procedimentos necessários e se for capaz de convencer os outros a trabalharem unidos pela causa comum. Seria insensato quem, a essa altura, se precipitasse cegamente para frente.

As linhas

6-na primeira

Quando tudo se apresenta caótico, a pessoa sente a necessidade de avançar e dar início à restauração da ordem. Tentar fazer isso prematuramente, entretanto, é atrair o fracasso.

9-na segunda

Embora o tempo ainda não seja propício para a ação, é importante que a pessoa se prepare intimamente para avançar. Deve-se ter bem claro na mente o objetivo, mesmo não podendo tomar providências úteis.

6-na terceira

Quando chegar o momento de agir, devemos nos assegurar de que somos fortes o bastante para agarrar a oportunidade. Com o auxílio dos outros, o sucesso pode ser obtido.

9-na quarta

Agora que o tempo do verdadeiro conflito chegou, é essencial dedicar todas as energias à complementação da tarefa. Não deve haver hesitações. 0 que for obtido agora dará as bases para benefícios futuros.

6-na quinta

0 êxito foi obtido e um líder com força e Caráter assumiu o comando. Auxiliares competentes darão assistência ao desenvolvimento. Real sucesso está sendo observado agora, em vívido contraste com os erros dos métodos anteriores.

9-na sexta

0 sucesso é uma ocasião para regozijo, mas a exuberância não deve exceder limites razoáveis, senão aquilo que foi ganho será desperdiçado pelos erros.

Muito instrutivo. Era exatamente o que eu precisava ouvir nestes últimos dias.
I Ching ao acaso sempre me surpreende.
O que é AMOR?

Há amor e Amor. Você ama sua família, mas não ama seu
vizinho. Você ama seu filho ou filha, mas não ama
todas as crianças. Você ama seu pai e mãe, mas não ama
a todos da mesma maneira. Você ama sua religião, mas
não ama todas as religiões. Você pode até não gostar
de outras fés. Da mesma forma, você tem amor por seu
país, mas não ama todos os países e, talvez, sinta
animosidade em relação a diferentes povos. Portanto,
esse não é o Amor real; é apenas amor limitado. A
transformação desse amor limitado em Amor Divino é o
objetivo da espiritualidade.
Na plenitude do Amor, brota a bela e perfumada flor da
compaixão. Quando as obstruções do ego, o medo e o
sentimento de 'outro' desaparecem, você não pode fazer
nada, a não ser Amar. Você não espera retorno por seu
amor. Você não se importa em receber nada; você
simplesmente flui. Quem quer que venha ao rio do Amor
será banhado nele, seja a pessoa saudável ou doente,
homem ou mulher, rica ou pobre. Qualquer um pode tomar
quantos banhos desejar no rio do Amor. O rio do Amor
não se importa se a pessoa se banha nele ou não. Se
alguém o critica ou insulta, o rio do Amor não
percebe. Ele simplesmente flui. Quando esse Amor
transborda e é expresso em cada palavra ou ato,
chamamo-lo de compaixão. Esse é o objetivo da
religião. Uma pessoa que está repleta de Amor e
compaixão compreendeu os verdadeiros princípios da
religião.

VIVER O AMOR

O amor real é vivido quando não existem condições. Ao
existir condição, existirá força. Mas aonde existe
amor, nada pode ser forçado. Condições existem apenas
onde há divisão. Força é usada onde há dualidade, a
idéia de 'eu' e 'você'. Você usa a força por perceber
o outro como sendo diferente de você. Mas força não
pode ser aplicada quando só existe Um. A própria idéia
de força desaparece neste estado. Então, você somente
é. A Força Universal corre através de você, você se
torna uma passagem aberta. Você deixa a Consciência
Suprema tomar conta de você. Você remove os apegos
criados por você mesmo, deixando que a corrente do
Amor todo-penetrante passe pelo seu curso natural.

COMPAIXÃO

Uma pessoa compadecida não vê os erros dos outros.
Ela não vê as fraquezas das pessoas. Ela não faz
distinção entre as pessoas boas e más. Quando alguém
está repleto de Amor e compaixão, essa pessoa não pode
traçar uma linha entre países, fés e religiões. Ela
não tem ego. Assim, não há medo, cobiça ou paixão. Ela
simplesmente perdoa e esquece. Compaixão é como uma
passagem. Tudo passa por ela. Nada pode ficar ali,
porque onde há Amor genuíno e compaixão, não há apego.
Compaixão é Amor expressado em sua totalidade.


[Mata Amritanandamayi Devi]


26 novembro, 2002

Qual é a minha natureza?

Em nossa natureza reside todo nosso carma.
Por que mergulhar na ilusão se tudo está diante dos nossos olhos?

Estou me afogando.
Vou tentar me salvar mergulhando no koan:

Qual é a minha natureza?

25 novembro, 2002

Incenso de Pétalas Perfumadas

Acordei com o perfuma dessa flor que lembra minha infância.



Camélia Branca - É a flor-símbolo da proteção espiritual
Facilita nossa conexão e eleva nossa vibração espiritual.

Deve ser o perfume. Gasshô Ju!
Uma semana perfumada pra você!

incenso

do Lat. incensu
s. m.,
resina aromática, extraída de uma árvore terebintácea, que se queima, sobretudo, em cerimónias religiosas;


24 novembro, 2002

waga yado wa kuchi de fuite mo deru ka kana

Em minha cabana
É só assobiar
Que vêm os mosquitos!

Issa


23 novembro, 2002

Onde Começa o Caminho?

Um dia, um discípulo foi ao mestre Kian-fang e perguntou-lhe:
"Todas as direções levam ao caminho de Buddha, mas apenas uma conduz ao Nirvana.
Por favor, mestre, diga-me onde começa este Caminho?"
O velho mestre fez um risco no chão com seu bastão e disse:
"Aqui".

22 novembro, 2002

A prática do zazen traz a paz interior. Além disso, o vosso zazen influência toda a humanidade, todo o cosmos.

Zazen é um jogo, o maior de todos. Só os que o compreenderam continuam a praticar.

Fukanzazengi, os princípios do zazen do mestre Dogen in: O Anel do Caminho
de Taisen Deschimaru


21 novembro, 2002

Meditar sobre o que dizemos

A palavra dita tem um poder muito maior e faz mais estragos que a palavra escrita. A palavra dita carrega em si mais imperfeições, fica mais tempo atuando na mente e mesmo corrigida não deixa de atuar. Pode ficar uma vida toda atuando na mente e causando obstáculos, traumas, males sem fim...
Cuidado! Preste atenção no que vc. vai dizer. Perceba o pensamento se formando e corte o mal pela raiz.
Medite antes de dizer. Veja se é oportuno, necessário, importante, imprescindível, dizer aquilo naquele momento, àquela pessoa.
Meditar, não é se reprimir, é apenas perceber como as coisas se formam e como elas nos afetam. As nossas palavras e as dos outros. Como o que dizemos bate e volta pra nós. Se dizemos coisas boas ouvimos coisas boas, se dizemos coisas desagradáveis, raivosas, etc, teremos o mesmo de volta. Percebendo isso vc. repensa, reavalia. Vc. medita e um dia vc. não tem mais necessidade de revidar, replicar, dar o troco, ver quem fala mais alto, quem é mais inteligente,etc.
Vc. não se enfurece mais, não se perde mais em mil divagações, não fica mais remoendo palavras ditas por alguém que estava apenas num dia ruim, de mal humor, com algum problema... Vc. entende que talvez não foi pra vc., e se houver dúvida, vc. pergunta e resolve na hora. Mas faça a pergunta inteligente e não aquela que vai causar mais problemas para ambos . Meditando nas palavras vc. aprende a acariciar mesmo as palavras mais agressivas e devolve-las como pétalas perfumadas.

20 novembro, 2002

A espada que tira a vida, tb pode dar a vida!


O problema é que as pessoas gostam de se fazer especiais!
Elas se enganam muito acreditando que está prática (zen) significa sentar na almofada e sonhar!
Se nós conseguimos manter a mente clara a cada momento do dia, nós podemos salvar este mundo. Este momento é a sua vida.

Somente praticar duro é chato. Só prática mental tb. Precisamos equilibrar os dois.
- Se vc. fizer a prática dura, vc. a terá dura. Se a fizer chata, será chata. Se vc. não a fizer- então o quê?
Eu espero que logo vc. encontre a alegria do equilíbrio.
Nesse momento, o que vc. está fazendo? Se vc. pode obter a resposta para está pergunta, vc. terá equilíbrio. Então, se vc. está comendo, apenas coma. Se está dormindo, apenas durma.

Uma estrutura de ego saudável é importante na sua prática- como é a estrutura do seu ego?
Muita atenção e energia devotadas ao ego é um problema. Pouca também é um problema.
Então, de novo, voltamos em o que é isso nesse momento.
Apenas mantenha sua mente clara momento à momento.

Não tenha medo de ferir, se isso significa cortar a ilusão.
A espada que tira a vida, tb pode dar a vida!

Mestra Heila Downey, PSN




*espada é uma metáfora para a sabedoria que corta as ilusões e delusões

19 novembro, 2002

O ego é como uma carroça puxada por 50 cavalos.
Um quer dormir, outro quer comer, outro quer correr para longe, outro quer ficar parado, outro quer tomar uma cervejinha, outro quer ir passear no shopping, outro quer ver TV, outro quer ler um livro, outro quer navegar na Internet e o outro quer ir ao cinema, entre tantas outras possibilidades, cada um quer ir para um lado. Temos que ser firmes e fortes para mantê-los no caminho que estamos seguindo. Conduzi-los e não se deixar conduzir, arrastar, para onde cada um (desejos) queira ir. Temos que tomar as rédeas e permanecer no caminho que escolhemos seguir. Se o soltamos ou o deixamos frouxo corremos o risco de perder o controle e acabar num precipício. Não devemos concentrar toda a energia nele, nem esquecê-lo, mas ficar atentos

17 novembro, 2002

Apagando ou acendendo a Luz?



“Lamentamos informar que Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche faleceu na
madrugada de 17 de novembro de 2002.

“Algumas pessoas pensam que o remédio para o sofrimento está nas mãos de
Deus ou Buddha, em algum lugar externo a elas. Mas as coisas não são assim.
O próprio Buddha disse a seus discípulos, "

Eu lhes mostrei o caminho que
leva à liberdade. Seguir por esse caminho é algo que depende de vocês
".

"O caminho espiritual não é fácil, pois nos força a desafiar e enfrentar tudo que praticamente
Considerávamos verdadeiro ou real. Mas, se o seguirmos com constância,
esse caminho irá se revelar um amigo surpremamente confiável."

"A morte espera por todos nós, quer estejamos preparados ou não,
quer escolhamos pensar sobre ela ou não.
Para muitos de nós, a idéia de morrer trás tamanho mal estar que preferimos evitá-la por completo. Podemos até nos enganar, tentando nos convencer de que não temos medo da morte, de que ela não é nada demais. No entanto, aqueles que morrem sem estar preparados são assaltados por um medo tremendo, um medo que não se compara a nada que já tenhamos vivenciado.
Precisamos nos preparar para o momento em que a mente e o corpo irão se separar, desenvolvendo hábitos fortes de prática espiritual, que não se evaporem diante da morte. Se nos familiarizarmos com o processo de morrer, não seremos pegos de surpresa; não seremos paralisados pelo medo e nem distraídos pela confusão. Se desenvolvermos as habilidades meditativas necessárias, a morte poderá ser uma porta para o estado meditativo da iluminação, a partir da qual traremos sem cessar, benefícios para todos os seres”

Chagdud Tulku Rimpoche [Portões da Prática Budista, Cap. 20]


A Lama Sucessora


A americana [Jane Tromge] Chagdud Khadro

16 novembro, 2002

Um Motivo para Levantar todos os Dias

Um grande número de pessoas passa os dias sentindo que sua vida não tem significado
nem propósito. No obstante quando nos engajamos nas práticas do Bodhisattva (ajudar todos os seres)
e no amor mais profundo, no serviço altruísta e na compaixão ilimitada que essas práticas exigem,
dotamos a nossa vida de significado. Temos um motivo para nos levantar todas as manhãs.

Lama Surya Das [O Despertar do Coração Budista]

15 novembro, 2002

Usar koans para fazer nossa vida correta

Nosso ensinamento é prática de kong-an. No passado a prática de kong-an significava conferir o atingir, conferir a iluminação de alguém. Agora nós usamos kong-ans para fazer nossas vidas corretas. É uma maneira de usar kong-ans diferente da maneira zen tradicional. Nós usamos os kong-ans para fazer nossa direção correta, para fazer nossa prática e nossa vida corretas. Este é o ensinamento da Escola de Zen Kwan Um.
"Kwan Um" significa "perceber o som". Isto significa perceber seu ser verdadeiro. Ao mesmo tempo perceber dentro e fora. Perceber esse som do mundo significa que muitas, muitas pessoas estão sofrendo. Se você pode ouvir esse som de sofrimento, então ajudar é tanto possível como necessário. Esse é o caminho do bodisatva. Como ajudar outras pessoas é nossa prática e nossa tarefa. Não é somente atingir iluminação, é a tarefa da iluminação. Iluminação é tarefa de monge, mas somente alguém como um monge zen tem as circunstâncias para fazer isso: sem família, sem emprego, todo mundo ajudando.
Sua prática não é tarefa de monge - é como ajudar pessoas. Primeiramente a família, depois os amigos, depois o país e todos os seres: ajudá-los é sua obrigação. Se você quer ajudar corretamente ponha abaixo sua opinião, suas condições, sua situação. Se você não puser abaixo essas coisas, você não pode ajudar. Se você as põe abaixo, então o amor verdadeiro aparece. Isso significa "não-especial". Somente manter sua situação correta momento a momento é muito simples. O nome para isso é amor, compaixão. Esta é a prática da Escola de Zen Kwan Um hoje.
É uma mudança na prática e ensinamento no zen. Para fazer isso nós precisamos de uma escola que pais e filhos possam freqüentar. Não é o velho estilo. O zen coreano não veio aos Estados Unidos sem mudança. Muitas mudanças têm sido necessárias. Nós praticamos kong-ans, mas alguns monges coreanos disseram "Isso não é zen". Sim, isso não é zen, zen não importa. O zen original é zen nenhum. Nada é zen. De fato, nós não entendemos o que zen é.
Desde o seu início o zen tem significado muitas mudanças. Começou com Bodidarma; depois do Sexto Patriarca, mudou. Cinco escolas de zen apareceram, todas diferentes. Muita doença apareceu, doença zen. As cinco escolas chinesas desapareceram. Por quê'? Porque elas não se ligaram com a vida ordinária, com a sociedade. Se não corrigirmos isso, o zen de hoje vai morrer também. Se for somente zen de monge, vai morrer logo.
Na China, Coréia e Japão este tipo de grupo não existe: leigos parando num centro zen, um templo, fazendo ação conjunta, meditação e prática. Isso começou na América. Nunca aconteceu antes - isso é novo, um novo zen. Então é necessário ter um novo direcionamento e novas práticas. Nós não chamamos a isso de estilo americano, é apenas vida cotidiana e direção correta.
O Zen é um tipo de revolução. No futuro o que acontecerá? Este tipo de prática será muito importante: Como sua prática liga-se com sua vida? Como sua prática ajuda os outros? Se o ajuda vai ajudar outros, ajudar o mundo. Então sua prática vai ligar-se com a paz mundial.
Há muitas opiniões neste mundo. Americanos têm opiniões de americanos, russos, de russos. Todas as religiões têm suas próprias opiniões. Elas são apegadas a alguma coisa. Isso é a doença deste mundo. No futuro será necessário ensinar este tipo de prática: acordar! Então o que significa ser humano? Ser humano significa nenhum significado, nenhuma razão, nenhuma escolha. Mas se você atinge o significado nenhum, você atinge o Grande Significado. Isto é, ponha abaixo qualquer tipo de opinião, condição ou situação, e sua vida torna-se completa. Isso ajudará sua família, o país, este mundo.

Mestre Zen Seung Sahn [Revista Primary Point]

14 novembro, 2002

O mais importante não é o cogito, ergo sum (penso, logo existo), mas o agito, ergo sum. (Faço, logo existo)

D.T. Suzuki [A doutrina Zen da Não-Mente]

13 novembro, 2002

Uma coisinha à toa

Vamos imaginar dois amigos. Dois jovens estudantes.
Algumas vezes eles se reúnem em grupo para estudar na biblioteca, outras vezes na casa de um deles.
Você sabe, eles se encontram para estudar, mas tb. tem muita bagunça e dispersão.
No meio da bagunça, as coisas de ambos se misturam.
No final, João junta suas coisas e vai embora. No meio do caminho ou no ônibus, ele lembra que precisa anotar alguma coisa na agenda, ou em um papel. Ele procura uma caneta, entre suas coisas e o que ele encontra? A caneta predileta de Paulo. O que João faz?
Há algumas saídas nessa situação:

-Se João pensar: Ih, essa é a caneta do Paulo”, tendo celular, ele liga no ato para Paulo e informa que caneta dele veio por engano e volta para devolver ou a devolverá no dia seguinte.

-Supondo que ele não saiba de quem é a caneta ou tenha dúvida, João pode:

Se perguntar de quem é a caneta, supor que seja de Paulo e perguntar para ele ou para alguém mais.
Se perguntar de quem e a caneta, não saber de quem é, e ficar com ela. Se alguém der falta ele devolve.
Ou ficar com ela se alguém der ou não falta, ficar na dele.


-Na primeira situação, o carma (a caneta) veio com ele, sem que ele soubesse, como alienígena, escondido na sua bolsa. Ele vê seu carma, o identifica como o que não é certo, e o desfaz no ato. Até ai nenhuma conseqüência.

-No segundo caso, ele reconhece o carma ou não, o pega na mão, fica com ele ou não. Enquanto a caneta estiver com ele há chance de o carma se estabelecer.

- Se ele deliberadamente não devolver e ficar com ela, então fez-se o carma, mas ainda pode ser desfeito a qualquer momento, desde que João, volte atrás e dê um jeito de devolver a caneta. Mas se João, perder a caneta e não houver outra igualzinha que ele possa comprar, não tem como consertar, a não ser que ele confesse o que fez e assume as conseqüências o que já se constitui em reação a má ação.

- Se João não devolver a caneta, ficar com ela deliberadamente. Mesmo quando Paulo perguntar sobre a caneta, se ele disser que nada sabe sobre ela, então o carma se instala e vai seguir seu ciclo até o fim.
O que pode acontecer? Joãp pode perder algo que ele goste muito logo depois. Pode ser assaltado, alguém da família, ou alguém que ele tenha forte ligação tb pode vir a ser afetado pelo ato do João. Por fim, coisas muito ruins podem acontecer e tudo começou com uma ingênua caneta. Preste atenção!


Essa historinha me veio à mente ontem. Fui usar um computador em uma biblioteca e lá estava a caneta-carma-silada me esperando. Era uma caneta bem bonita, pareceu-me daquelas bem caras, tipo Mont Blanc, mas não chega a ser tanto. Peguei-a na mão, experimentei-a, mas logo lembrei-me da historinha acima e tratei de me livrar dela. Passei-a para a moça da biblioteca. O que ela vai fazer com a caneta é problema dela.

Nunca se sabe a que conseqüências uma simples caneta ou uma coisinha que achamos que é à toa, mas que subtraída do seu legitimo dono pode vir a ter. Como isso nós vai ser cobrado depois? Provavelmente em dobro. O que roubamos nos será roubado. É a lei da ação e reação. Uma coisinha à toa pode tornar-se uma bola de neve com desfechos inacreditáveis.

11 novembro, 2002

Elefantes na Fábrica de Bordados

Fui no Espaço Hoepcke para a abertura do X Festival Nacional de Teatro
e quem estava lá? Os elefantes! Esses caras me perseguem. O que vou fazer?
Só posso rir. Fui perguntar para a artista pq. ela estava pintando elefantes.
Ela respondeu que tinha sido o outro cara que tinha escolhido. Elefantes estão na moda, só pode ser.

10 novembro, 2002

O Esforço

Alguns sabem porém não se esforçam para praticar.
Alguns não sabem e nem tentam saber como praticar.
Todos querem chegar a iluminação, mas não querem seguir o Caminho.

Tempo para praticar

As pessoas dizem que têm tanto trabalho para fazer que não têm tempo para praticar o Dharma.
“O que podemos fazer? – Elas perguntam. Eu pergunto a elas: “Vcs. respiram enquanto trabalham?”
“Sim, claro que respiramos!” “Então como é que vcs. têm tempo de respirar quando estão ocupados?”
Se vcs. têm atenção plena enquanto trabalham, terão muito tempo para praticar.

Ven. Ajahn Chan [O Dharma Vivo]

04 novembro, 2002

Every day is a good day, what does this mean?

Mestra Heila Downey
O bebê está chorando

Há dentro de nós um bebê. Ele nasceu conosco e quer nascer de nós.
Nascer é sua grande alegria, mas nascer dói. Nós temos medo dessa dor de nascer.
Nós queremos essa alegria. Temos medo e o bebê chora.
Durante muito tempo ele passa dentro de nós adormecido.
Cada vez que ele acorda e tenta nos tocar, nós fugimos.
Cada vez que ele chora, nós o fazemos silenciar de inúmeras formas. Ninando-o novamente,
dando-o distrações, brinquedos-presentes, levando-o para passear, ou simpresmente o ignoramos e o deixamos chorando, até ele cansar e adormecer de novo.
Mas ele acorde e volta a chorar. Um dia ele vai chorar tão alto que será impossível detê-lo.
Ele vai chorar, espernear dizendo: - Eu quero nascer,agora! -E nós nos apavoramos, nos assustamos, nós temos medo.
O que vamos fazer com esse bebê, como cuidar dele?
Nós o queremos, mas temos medo.
Um dia , quer a gente queira ou não ele irá nascer, com nosso concentimento ou à força.
E nesse dia talvez tenhamos que morrer.
Então, o que o bebê que chora nós oferece? Deixa-lo nascer e viver.
Ou não deixa-lo nascer e morrer.
Pois ele irá nascer de uma maneira ou de outra. Porque seu ciclo precisa continuar. Se nós não o deixarmos nascer, ele irá nascer em outro corpo, em outra vida, o ciclo começará outra vez.
Outra vez o bebê irá tentar nascer em outro meio.
E nós, teremos perdido a grande chance que se chama felicidade, êxtase, tudo, nada.

"Há um bebê Buda em nosso depósito de consciência (Alaya) e devemos dar a ele uma oportunidade de nascer."

Thich Nhat Hanh [Cultivando a Mente do Amor]

31 outubro, 2002

O eterno não tem presente, passado ou futuro


Não é difícil descobrir tua Mente Búdica
Simplemesnte deixe de procurá-la.
Deixe de aceitar e rejeitar possíveis lugares
Onde pensas que ela possa estar
E ela aparecerá diante de ti.

Cuidado! O menor sinal de preferência
Abrirá um abismo largo e profundo
como o espaço entre o céu e a terra.

Se queres encontrar tua Mente Búdica
Não tenha opiniões sobre nada.
Opiniões produzem argumento
E a disputa é uma doença da mente.

Submerge nas profundezas.
A quietude é profunda. Não há nada profundo em águas razas.
A Mente Búdica é perfeita e engloba o universo.
Não tem carência de nada e nada tem em excesso.
Se pensas que podes escolher entre as suas partes
Perderás de vista a sua verdadeira essência.

Não te apegues às aparências, às coisas opostas,
às coisas que existem como relativas.
Aceite-as com imparcialidade
E não terás que perder tempo com escolhas sem sentido.

Os julgamentos e discriminações bloqueiam o fluxo
e trazem as paixões.
Irritam a mente que precisa de quietude e paz.
Se vais de se a senão, de isto a aquilo,
ou quaisquer dos inumeráveis opostos,
Perderás de vista o todo, o Uno.
Seguindo um oposto estarás te extraviando,
para longe do centro de equilíbrio.
Como esperas alcançar o Uno?

Decidir o que é, é determinar o que não é.
Mas determinar o que não é pode te ocupar tanto
que acaba se convertendo no que é.
Quanto mais falas e pensas, mais longe te encontras.
Deixa de falar e de pensar, e o encontrarás em todas as partes.

Se deixares todas as coisas voltarem à sua origem, está bem.
Mas se paras para pensar que esta é sua meta
E que é disto de que o sucesso depende,
E lutas e lutas ao invés de simplesmente deixar ir, Não estarás practicando Zen.
No momento em que começas a discriminar e a preferir
perdes o caminho.
Buscar o real também é um falso ponto de vista
que deveria ser igualmente abandonado.
Deixa passar! Deixa de buscar e de escolher.
As decisões dão lugar às confusões,
e aonde pode chegar uma mente confusa?

Todos os pares de opostos vêm da Única Grande Mente Búdica.
Aceita os opostos com dócil resignação.
A Mente Búdica permanece calma e quieta,
Mantenha sua mente nela e nada poderá te perturbar.
O inofensivo e o danoso deixam de existir.
Os sujeitos, quando liberados de seus objetos, desaparecem
Tão certamente quanto os objetos,
quando liberados de seus sujeitos, desaparecem também.
Cada um depende da existência do outro.
Entenda esta dualidade e verás
que ambos provêm do Vazio do Absoluto.

A base de todo Ser contém os opostos.
Todas as coisas se originam do Uno.
Que perda de tempo escolher entre grosso e fino.
Já que a Grande Mente faz nascer todas as coisas,
Abrace-as todas e deixe morrer teus preconceitos.

Para realizar a Grande Mente não sejas vacilante nem ansioso.
Se tentar pegá-la, agarrarás o ar
e cairás no caminho dos heréticos.
Onde está o Grande Tao? Podes deixá-lo?
Ele permanecerá ou se irá?
Não está em toda a parte esperando por você
para unir a tua natureza com a Sua
e ficar livre de problemas como Ele é?

Não canse tua mente te preocupando em saber o que é real
e o que não é,
Sobre o que aceitar ou o que rejeitar.
Se queres conhecer o Uno,
deixe teus sentidos experimentarem o que vier,
Mas não seja influenciado e nem te envolvas no que vier.
O sábio age sem emoção
e parece nem estar agindo.
O ignorante permite que suas emoções o envolvam.
O sábio compreende que todas as coisas são parte do Uno.
O ignorante vê diferencas em toda parte.

Todas as coisas são iguais em sua essência,
assim apegar-se a algumas e abandonar outras É vivir no engano.
A mente não é juiz equânime de si mesma.
Tem preconceitos a favor ou contra si mesma.
Não pode ver nada objetivamente.

Bodhi está além de toda noção de bem e mal,
além dos pares de opostos.
Os devaneios são ilusões e as flores nunca florecem no céu.
São invenções da imaginação e não merecem ser considerados.
Ganho e perda, certo e errado, grosso e fino.
Deixa todos irem!
Permanece atento. Mantém abertos teus olhos.
Teus devaneios desaparecerão.
Se não fizeres julgamentos, tudo será
exatamente como deve ser.

Profunda é a sabedoria do Tathagata,
Excelsa e além de todas as ilusões.
Este é o Uno a que todas as coisas retornam
desde que não as separe,
mantendo algumas e afastando outras.
De qualquer modo, onde as deixaria?
Todas estão dentro do Uno.
Não há fora.

O Supremo não tem modelo, dualidade,
e nunca é parcial.
Confia nisto. Mantém viva a tua fé.
Quando abandonas todas as distinções nada sobra
exceto a Mente que é agora pura, que irradia sabedoria,
e nunca se cansa.

Quando a Mente abandona as discriminações
Os pensamentos e os sentimentos não podem sondar suas profundezas.
O estado é absoluto e livre.
Não há nem eu nem o outro.
Apenas te darás conta de que és parte do Uno.
Tudo está dentro e nada está fora.

Os sábios do mundo todo compreendem isto.
Este conhecimento está além do tempo, seja longo ou curto,
Este conhecimento é eterno. Nem é e nem não é.
O todo é aqui e o menor é igual ao maior.
O espaço nada pode confinar.
O maior é igual ao menor.
Não há limites, nem dentro nem fora.
O que é e o que não é são a mesma coisa,
Porque o que não é é igual ao que é.
Se não despertares para esta verdade,
não se preocupe.
Apenas creia que tua Mente Búdica não é dividida,
Que ela aceita tudo sem julgamento.
Não preste atenção a palavras, discursos, ou métodos bonitos
O eterno não tem presente, passado ou futuro.


Hsin-hsin-ming, Gatha de Seng T'san, Terceiro Patriarca Chan
Versão em Português por Chuan Yuan Shakya
(baseada na tradução para o Inglês)
Ser um com o Buda. Ser um com o Dharma. Ser um com a Sangha. Ser Buda.

Tomar Refúgio nas Três Jóias
[Na tradição Ch’an Chinês]

Todos recitam Sutras e fizem o juramento em respeito ao Buda, ao Dharma e à Sangha, se arrependendo de seus erros das vidas presente e passada.

Os novos discípulos fazem votos de observância dos Cinco Preceitos:

1. Não matar
2. Não roubar
3. Não ter um comportamento sexual inadequado
4. Não mentir
5. Não fazer uso de substâncias tóxicas

É aspergida, sobre todos os participantes, a água abençoada, que simboliza o néctar do Dharma.

Todas proferem os Quatro Grandes Votos, que são:

1. Ajudarei ilimitadamente a todos os seres sencientes.
2. Erradicarei todo sofrimento extinguindo paixões e ilusões.
3. Estudarei e praticarei o Dharma ilimitadamente.
4. Farei todo o esforço para trilhar o Caminho do Buda.

O mestre concede a cada um dos discípulos um nome de Dharma [que descreve uma qualidade que o discipulo tem e outra que ele precisa ter], presenteando-os com um belo certificado.

A Jóia Tríplice é o conjunto dos ensinamentos de Buda. Refugiar-se nela significa aceitar o Buda como professor, o Dharma como ensinamento e a Sangha como congregação.

Ao nos refugiarmos na Jóia Tríplice, nos tornamos discípulos de Buda e concordamos em não seguir ensinamentos de doutrinas obscuras.

A cerimônia do refúgio é importante, uma vez que ela marca o início de nosso compromisso com Buda, com o Dharma e a Sangha.

Apenas aqueles que já tomaram refúgio na Jóia Tríplice podem realmente se denominar budistas. Mesmo respeitando o Buda ou passando muito tempo em templos budistas, uma pessoa não pode se denominar budista se não tiver tomado refúgio na Jóia Tríplice. Aquele que ainda não o fez é um simpatizante do Budismo, não um discípulo.

28 outubro, 2002

Perguntas mais freqüentes sobre Meditação



A Meditação é um sistema milenar de purificação mental, praticado por várias tradições, em várias épocas e lugares. A Meditação Ch'an, praticada e ensinada pelo Buda Shakyamuni, tem suas raízes na Índia. Bodhidharma, monge budista, ao deixar a Índia em direção à China, no séc. VI d.C., para ensinar o Dharma, tornou-se o primeiro patriarca Ch'an nesse país e levou com ele a prática da Meditação.

A Meditação Ch'an nos permite afrontar todas as tensões e problemas da vida de maneira calma e equilibrada. A prática contínua da Meditação é capaz de eliminar as tensões que vão se desenvolvendo na vida diária, desfazendo os nós que foram atados por nosso velho hábito de reagir de forma desequilibrada tanto às situações negativas, quanto às positivas.

Abaixo, as perguntas mais freqüentes sobre Meditação:

Meditar é uma maneira de fugir da pressão do dia-a-dia?

A Meditação é uma experiência de viver a vida na sua plenitude, não importando se é dolorosa ou prazerosa.

É abraçar a realidade e mergulhar tão profundamente no ato de viver, rompendo a barreira dos desejos materialistas.

A Meditação Ch'an é um treinamento com a finalidade de absorver a realidade, as dificuldades e o estresse do dia-a-dia, vivenciando plenamente a vida, tentando resolver seus problemas.

Ch'an não é uma tentativa de fuga da pressão do cotidiano, nem de disfarçar as dificuldades que surgem, é um aprendizado, um ShiouHsing, de observar como nosso comportamento reage a obstáculos e como somos, aceitando-nos para fazermos a transformação definitiva.

Meditar é só para religiosos? Meditar é religião?

Meditação não é religião, nem é só para religiosos, mas a figura do Mestre no Oriente é muito comum entre os monges ou sábios e eles são muito reverenciados por serem representantes de instituições, templos ou escolas de artes marciais, de pintura, escultura e de filosofia.

Sobretudo no costume oriental a imagem de Mestre, Shi Fu, é de alguém que indica o caminho que você deve seguir e não na figura de pai bondoso que te dá conforto e proteção.

E se eu descobrir que minha vida está errada? A Meditação é perigosa? Pode mudar a nossa vida? O que faço com o medo?

Tudo na vida é perigoso e cheio de riscos.

Viver é perigoso.

Dirigir na rua, voar de avião , viajar no mar é arriscado. Mesmo em casa você pode tropeçar e cair.

Tudo na vida envolve riscos, de sincronicidade condicional e causa e efeito, o YingUen.

Muitas vezes emoções encobertas por muitos anos podem provocar o medo de perder o controle, incapacidade de se defender, a mudança drástica do rumo de nossa vida.

O Ch'an é um processo suave e gradual que corrige devagar o rumo da nossa vida, que traz conscientização sobre nossa verdadeira natureza e realidade.

Entretanto, se quiser acelerar o processo de transformação, é conveniente buscar orientação individual.

Meditação é uma técnica de relaxamento?

Uma das conseqüências da Meditação Ch'an é um estado de relaxamento e tranqüilidade da Mente.

O relaxamento das tensões do cotidiano, a dissolução do stress e das mágoas do nosso coração são resultados perceptíveis.

Mas a proposta do Ch'an vai mais além.

Ch'an é Iluminação, a compreensão da vacuidade, a libertação do Ego.

É caminho de interiorização, da atentividade.

Na realidade, há procedimentos de relaxamento que enfocam a concentração da Mente, e a conduzem a repousar num objeto, numa imagem ou num tipo de pensamento.

Se a prática for adequada, o Meditante consegue tranqüilidade e paz interior muito grande, podendo atingir o êxtase

É por aqui que a maioria dos outros sistema ou técnicas estacionam e não avançam mais.

Meditação é entrar em transe?

Talvez em outros tipos de Meditação, mas não se aplica à Meditação Ch'an, ao treinamento Ch'an, ao ShiouHsing.

É uma interiorização, uma focalização para dentro do nosso Self, por isso não é hipnose, nem obliteração da Mente, muito menos, dispersão dos sentidos.

No ShiouHsing, nossa consciência se torna mais nítida e límpida, temos maior controle sobre as alterações emocionais do dia-a-dia, nos tornamos mais precisos e perspicazes.

Na auto-sugestão ou hipnose, a pessoa está sobre controle do outro, e como no Ch'an ocorre uma profunda observação de si, a pessoa fica sobre seu próprio controle, em estado de Kuang (atentividade).

Entretanto, se durante a Meditação você perder o controle ou sentidos, é porque não está treinando de acordo com a definição do sistema Ch'an.

Ch'an é o cultivo da atentividade e da observação da própria interiorização.

Meditação significa isolamento, afastar-se do mundo materialista?

Aparentemente, o Meditante está isolado, passando horas sozinho, ele e a sua almofadinha, fugindo da realidade.

Será que ele não deveria estar fazendo obras de caridade, ajudando vítimas da guerra, vítimas da fome e vítimas do capitalismo selvagem, não deveria estar cuidando dos velhos e das crianças abandonadas?

O Meditante não está isolado e nem quer fugir do mundo materialista.

Ele está motivado pelo ShiouHsing, que significa purificar-se e harmonizar-se; sua vontade é Mahayana, o grande Veículo de travessia do sofrimento humano.

Mas antes de partir para obras sociais ou ajudar o próximo, o Meditante precisa controlar seu Ego, assim suas atitudes não se transformarão em ampliação do próprio prestígio e poder do Objeto Referência em ação.

O propósito do Meditante é dissolver da sua Mente sentimentos difíceis como desejo, rancor, impulso, preconceito, mágoa, lassidão.

Trabalhar duro na Meditação para conseguir abandonar a cobiça, a insensibilidade e o medo.

Enquanto não se desprender desses sentimentos primitivos, os empreendimentos feitos para os outros, muitas vezes, se transforma em negócio próprio.
Meditação favorece nobreza de pensamento e atitude sublime?

Não, a Meditação Ch'an não traz nenhum tipo de pensamento nobre ou sublime, Ch'an é a própria nobreza.

Existem alguns sistemas de Meditação de contemplação que focalizam a nobreza de atitude e nobreza de espírito como objetivo.

Na linhagem Ch'an, a nobreza de espírito e atitude são apenas um meio, não são finalidade.

Não podemos evitar que esses pensamentos apareçam, mas também não podemos nos apegar a eles.

Ch'an é prática, é ShiouHsing, apenas isso, nada mais.



25 outubro, 2002

Se eu não fizer agora, quando farei?

Quando o Tenzo disse ao Mestre Dogen “Os outros não são eu”, ele quis dizer deixar um pouco o apoiar-se nos outros, que era necessário parar com essa atitude de deixar as coisas para que os outros as façam.
Temos que deixar de pensar nos outros, porque os outros não podem viver nossa vida, nem morrer nossa morte. Cada um em cada instante, completos em cada ato. Se eu não o fizer, quem irá fazer?
... A Segunda resposta do Tenzo diz: “Se eu não fizer agora, quando farei?”.
O maior ensinamento do Buda é a impermanência, como posso saber o que acontecerá amanhã?

[Histórias do Mestre Dogen e o Velho Tenzo]
Primeros Passos no Zen


6 capítulos

24 outubro, 2002



O elefantinho mudou de cor!!! Está pink-chovendo.
Mas que novidade! Quem não sabe que aqui chove todo fim de semana?
Ainda bem que eu não sou apegada ao fim de semana.
O que é METTA?

Tenham METTA de mim
Que não durmo com o Cânon Pali de baixo do travesseiro
Mas vivo METTA no dia a dia.
Tenho METTA de quem
Escreve METTA em todos os lugares,
Mas não vive METTA em todos os lugares.
Tenham METTA de mim
Que só tenho METTA para dormir, comer, viver.
Minha tigela é feita de METTA,
Porque eu sou feita de METTA.
O que é METTA?
METTA é meu nome.

METTA [Bondande Amorosa]

22 outubro, 2002


O Elefante da Impermanência

Hoje foi arrumar o armário e o que eu encontrei no meio das roupas?
Um pacotinho de presente. Dentro dele um elefante que havia comprado há
algum tempo atrás e esqueci ali entre as coisas.
É um elefante que muda de cor conforme o tempo. Quando eu o comprei estava pink.
Estava chovendo naquele dia. Hoje fazia um dia sol. Abri o pacotinho e ...
elefante estava...pink. Pensei: Isso não funciona.
Mas depois pensei mais um pouco: deve ser porque ele esteve no escuro. Vou pôr ele em contato com a
luz do dia. Então saí. À noite, quando voltei.
Surprise! O elefantinho está lindamente azul.
Ainda tem uma terceira cor que ele pode adquirir: a lilás.
Agora ele vai continuar azul até o tempo mudar.
Vou chama-lo de o elefante da impermanência.

Bem a saga do elefante continuará pois andei vendo mais elefantes pela cidade, mas pra isso não virar um blog sobre elefantes vou dar um espaço entre um post e outro. Como diria a Mestra Heila devo estar com uma "quick fix" (ligeira fixação) por elefantes :)
Queria colocar uma imagem linda, que já postei aqui: tem um garotinho sentado com um livro sobre as pernas e um elefante com as pernas cruzadas em frente a ele, como se o garotinho estivesse lendo/ensinando o elefante. Mas meu programa de tratamento de imagem não tá funcionando, e não tenho o dito cujo para instalá-lo de novo :(

21 outubro, 2002

Pratica de Monge & Prática de Templo

O que nós fazemos aqui no Ocidente em relação ao Zen é prática de mosteiro, ou prática de monge.
Que é sentar em zazen, fazer prostrações, recitar o Sutra do Coração, os Votos de Bodhisattva, os Votos de Refúgio, etc.
O que os imigrantes fazem em geral ,é prática de Templo. Cerimônias ligadas às suas tradições de origem.
Um Culto mesmo, como numa Igreja. Esse culto tem uma seqüência, tem cantos, tem sermão...
A prática de monge é mais avançada em relação a de mosteiro? Não, ambas são consideradas necessárias, já que nem todos conseguem se adaptar tanto a uma quanto a outra. Imagine se um imigrante japonês que trabalha 8-10 horas na lavoura vai querer sentar de pernas cruzadas e ficar em silêncio! Uma dona de casa, uma feirante, um taxista. Por isso existem vários tipos de prática. Se não serve de um jeito, tem outro e outro e outro. Buda ensinou apenas a prática de monge, e de certa forma previu que haveria obstáculos para que esse tipo de prática fosse adotada por todos, por isso seu Sangha era essencialmente de monges. Foi o zen que mudou essa concepção “restritiva”, quase que dizendo: “precisa ser monge para praticar”. Mestre Hui Neng, o Sexto Patriarca, foi quem teria se preocupado mais em tornar a prática acessível a qualquer um que a desejasse sinceramente. Ele enfrentou muitas críticas e oposições dequeles que defendiam um zen apenas monástico, ortodoxo, baseado mais no estudo dos sutras, um zen mais intelectual. Ao contrário, Hui Neng, que teria sido analfabeto, e mesmo assim chegou a realização, ao discernimento do Dharma, defendia que não era necessário nenhum estudo, que já temos a natureza de Buda em nós, só precisamos despertá-la e para isso não precisamos estudar anos, ler milhares de livros. Só precisamos ver o que está em nossa frente, desde sempre. Está tudo aqui, só precisamos ver e para ver precisa acordar, abrir os olhos da mente. Então é ai que entra a prática do monge. Os monges “monges” estudam mais, passam por um treinamento intensivo, durante anos, porque além da prática de monge eles têm a prática de templo para dar conta, o contato com a comunidade, o trabalho missionário. Nem todos serão professores, mestres. A grande maioria será apenas um monge ( o que não é um demérito) envolvido nas tarefas do mosteiro ou do templo, enquanto outros, irão ensinar, dar palestras, entrevistas, divulgar o Dharma pelo mundo a fora.
Em um ano pode-se receber a ordenação de monge ( em geral pode levar 3-4 anos), enquanto que a permissão para ensinar o Dharma ( Transmissão) pode levar entre 7-12 anos de treinamento, dependendo de cada tradição e do seu Mestre.
Isso vale tb. para monge leigo. Aquele que não faz todos os votos e não vive no mosteiro. Na tradição do zen japonês os monges e monjas podem casar, ter filhos. Nessa tradição,a maioria dos monges se casam. A maioria das monjas preferem o celibato. Em geral o zen monástico é celibátário.

20 outubro, 2002

Nunca é tarde demais

Procura ser razoável no teu crescimento e não pense nunca que é tarde demais.
Ainda que tivesses que morrer amanhã, permanece no caminho correto e consciente, sendo um ser humano feliz hoje. Se mantiveres o teu estado feliz no dia a dia, no final, alcançarás a infinita felicidade do despertar.

Lama Thubten Yeshe [The Bliss of Inner Fire]

19 outubro, 2002

Já bateu na porta hoje?


Numa cidade em guerra, havia um rei que causava espanto. Sempre que fazia prisioneiros, não os matava: levava-os para uma sala onde havia um grupo de arqueiros de um lado e uma imensa porta de ferro do outro, sobre a qual viam-se gravadas figuras de caveiras cobertas de sangue. Nessa sala, ele os fazia enfileirar-se em circulo e dizia, então: "vocês podem optar entre morrer flechados por meus arqueiros ou passar por aquela porta e ficar trancados". Todos preferiam ser mortos pêlos arqueiros. Ao terminar a guerra, um soldado que por muito tempo serviu ao rei, dirigiu-se ao soberano:
- Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
- Diga, soldado
- O que havia pôr detrás da assustadora porta?
- Vá lá e veja você mesmo.
O soldado então abriu vagarosamente a porta e viu que raios de sol entravam e iluminavam o ambiente.
E, finalmente, ele descobriu, surpreso, que a porta era o início de um caminho que conduzia até a liberdade.
O soldado, admirado, apenas olhou seu rei, que disse:
- Eu dava a eles a escolha, mas preferiam morrer a se arriscar a abrir essa porta.

Quantas delas você já deixou de abrir por medo de arriscar?

18 outubro, 2002

Aquilo que é de gosto amargo tende a ser um bom remédio.
Aquilo que soa desagradável ao ouvido pode ser um conselho honesto.
Reparando nossos enganos, adquirimos sabedoria.

Trecho do capítulo III do Sutra de Hui-Neng (sexto-patriarca)

17 outubro, 2002

Há um capítulo do Shobogenzo que diz assim,

"Você sabe pintar a primavera? Então pinte!"

Para viver realmente, tem que ser capaz de pintar a primavera, não o que ela representa.



14 outubro, 2002

Le Pèlerin de Compostelle



Vi meu ex-livro, Le Pèlerin de Compostelle.
E pensar que estive à porta de Mme Jeanne Savin em Saint Jean Pied-de Port sur les Pyrénées, e não bati nela! (na porta)
O que eu teria encontrado atrás daquela porta? Uma gorda, sonolenta senhora francesa, que me olharia com aquele ar de “mais uma chata querendo o ticket refeição do peregrino”. E quando ela ouvisse meu nome....Será que seu humor mudaria?
- Oh! Mlle, Jeane! Entre, entre, s’il vous plait!
Jamais vou saber. Não bati na porta. Será que ter batido naquela porta teria mudado meu destino?
Mme Savin vai ter que esperar porque não tem chance de eu voltar lá tão cedo para repetir a façanha de olhar a porta e não bater.
Quem sabe ela teria dito.
-Por que vc. demorou tanto. Eu estive te esperando, por longos anos! Quem sabe, ela não diz isso para todos!
Nunca vou saber. Não devo ser a única que foi até lá e não bateu na porta.
Portas me perseguem. É aquela velha história: quando vc. não quer, eles te perseguem. Quando vc. quer, todos fogem. Acha que vou continuar esnobando as portas, pq. na maioria das vezes elas me parecem senhoras sedutoras: venha, venha... E eu não vou. Não vou não! Portas devem ser o meu carma. Eu atraio portas. Enquanto eu não bater na porta certa sempre vai ter outra e outra porta na minha frente. Enquanto eu desvia-las ou ficar petrificada em frente a elas, novas portas cruzarão no meu caminho.
E aquela história que uma porta não se abre duas vezes, que as portas estão mais a se fechar do que a se abrir.
Como um raio que não cai duas vezes no mesmo lugar. Será? No meu caso o provérbio não comparece dessa maneira. As portas que o digam.
A única porta que eu queria abrir é a porta da mente. Mas nessa tenho que ficar de olho porque qualquer ventinho de nada e ela se fecha. Aí tenho que procurá-la novamente como quem procura um grão de areia num infinito oceano de possibilidades, começando do zero. Não um grão de areia qualquer, mas aquele exato grão, trazido à tona ao acaso, pescado de primeira. Ufa! Começar de novo. A procura por uma frestinha, o buraco da fechadura, a chave. Começar do zero todos os dias, isso é mente zen ou mente de principiante.

13 outubro, 2002

Como salvar todos os seres?


by Kenn Briner

É muito comum confundir um Bodhisattva com um Supermen.
Não precisamos ser heróis e sair por ai salvando todo mundo.
Simplesmente praticar honestamente e com empenho já é uma grande
ajuda. Veja o que Buda fala sobre os deveres de um Bodhisattva.

(1) Assim eu ouvi. Uma manhã, quando o Buddha estava perto de Shravasti no bosque de Jeta.

(2) Do meio da assembléia levantou-se o Venerável Subhuti, juntando as palmas das mãos, inclunou-se diante do Buddha. "Senhor," ele disse, "Tathagata! Honrado-por-todo-o-mundo! Que maravilhoso é que sejamos protegidos e instruídos pela Sua misericórdia!

Senhor, quando homens e mulheres anunciam que desejam seguir o Caminho do Bodhisattva e nos perguntam como devem proceder, que devemos dizer-lhes?

*Formalmente seguir o caminho de Bodhisattva sig. tomar os votos de refúgio.

(3) Bom Subhuti," respondeu o Buddha "sempre que alguém anuncia, `Eu quero seguir o Caminho do Bodhisattva porque quero salvar todos os seres sencientes; e não importa se são criaturas formadas em um útero ou chocadas em ovos; se seus ciclos de vida são tão observáveis como os de minhocas, insetos e borboletas; ou se aparecem miraculosamente como cogumelos ou deuses; ou se são capazes de pensamentos profundos ou de nenhum pensamento, faço o voto de conduzir cada um dos seres ao Nirvana!' então, Subhuti, deves lembrar o que tomou os votos que mesmo que um tal incontável número de seres fosse assim libertado, na verdade nenhum ser seria libertado.
Um Bodhisattva não se apega à ilusão de uma individualidade ou entidade egóica ou a uma identificação pessoal. Na verdade, não existe qualquer "eu" que liberta e nenhum "eles" que são libertados.

(4) "Além disso, Subhuti, um Bodhisattva deveria ser desapegado de todos os desejos, sejam de ver, ovir, cheirar, tocar ou degustar qualquer coisa, ou seja o de levar multidões à iluminação. Um Bodhisattva não prova da ambição. Seu amor é infinito e não pode ser limitado por apegos ou ambições pessoais. Quando o amor é infinito seus méritos são incalculáveis.

"Nem podes medir os méritos de um Bodhisattva que ama, trabalha e dá sem desejo ou ambição."

"Bodhisattvas deveriam prestar atenção particular a esta instrução.
"


"O Senhor respondeu, "Subhuti, não duvides disso!
Sempre haverá Bodhisattvas virtuosos e sábios; e, em eras por vir, estes Bodhisattvas plantarão suas raízes de mérito sob muitas árvores Bodhi. Receberão este ensinamento e responderão com serena fé porque sempre haverá Buddhas para inspirá-los. O Tathagata os verá e os reconhecerá com seu olho-Búddhico porque nestes Bodhisattvas não haverá obstruções, nem percepção de um eu individual, nenhuma percepção de um ser separado, nenhuma percepção de uma alma, nem de uma pessoa. E estes Bodhisattvas também não vão perceber as coisas como tendo qualidades próprias nem como sendo destituídas de qualidades próprias. Nem vão discriminar entre bem e mal. A discriminação entre boa e má conduta deve ser usada como se usa um barco. Depois que deixa aquele que cruzou a corrente no outro lado, deve ser abandonado."

"Subhuti, saibas também que se qualquer Bodhisattva dissesse, `Eu vou criar um paraíso', ele estaria mentindo. E porquê? Porque um paraíso não pode ser construído nem destruído.

"Saibas então, Subhuti, que todo o Bodhisttva, maior ou menor, deveria experimentar a pura mente que vem depois da extinção do ego. Tal mente não discrimina e faz julgamento de som, gosto, toque, odor, ou qualquer qualidade. Um Bodhisattva deveria desenvolver uma mente que não forma qualquer apego ou aversão a qualquer coisa.



(17) "Senhor, como então deveríamos instruir aqueles que querem tomar o voto do Bodhisattva?"

"Diga a eles que se quiserem chegar à Perfeita Iluminação que Transcende Comparações eles devem estar decididos em suas atitudes. Devem estar determinados a libertar cada ser vivente mas devem entender que na verdade não há seres vivos individuais ou separados."


"Subhuti, para ser chamado um Bodhisattva na verdade, um Bodhisattva deve ser completamente destituído de quaisquer concepções de um si mesmo."

"Agora, como deveria ser a maneira de um Bodhisattva [...]? Deveria ser desapegado das coisas fraudulentas do Samsara e deveria permanecer na verdade eterna da Realidade. Deveria saber que
o ego é um fantasma e que tal ilusão não precisa persistir por muito tempo.

"E assim ele deve ver o mundo impermanente do ego -
Como uma estrela cadente, ou a vaidosa Vênus ofuscada pela Aurora,
Pequena bolha na água corrente, um sonho,
A chama de uma vela, que tremula e se vai."

Quando o Buddha terminou, o Venerável Subhuti e os outros na assembléia se encheram de alegria com o ensinamento dEle; e, recebendo-o sinceramente em seus corações, tomaram seus caminhos."

O Sutra do Diamante. Versão abreviada. Texto Completo ver no Site. [Trad. da versão inglesa por Rev. Chuan Yuan Shakya]



12 outubro, 2002


Rainy night,
the top leaves wave
In the grey sky


Kerouac Haiku’s

Koan do Elefante.

Koan Encosto



O Elefante misterioso continua fazendo suas inesperadas e surpreendentes aparições.
Parece um fantasma.
Sempre que esqueço do koan: Quem é o elefante? , ele aparece, para me lembrar do dito cujo. Dou um elefante para quem conseguir responder esse koan!
Quem é o elefante?
É um estorvo. Um Benjamim. Ufa! Não era o que eu tava pensando que era. Benjamim. s.m.1.filho caçula ou predileto 2. O caçula de um grupo 3. Peça que permite conectar mais tomadas elétricas.
Mas vamos aos fatos:
No livro do Chico Buarque Cap 3. tem uma histórinha sobre um elefante de pedra. Esse foi o elefante que cruzou ontem comigo. “Nell’anno 1535 l’andarino portoghese Damião Boledo avvistò la grande pietra grigia e pensò si trattasse di un elefante addormentato, come quelli che un tempo aveva visto a Sumatra. Si apprestò ad avvicinarsi all’animale, calcolando que per quel tratto avvrebbe impiegato mezza giornata.”

No ano de 1535 um andarilho português chamado D.B. viu uma grande pedra cinza e pensou que fosse um elefante dormindo, como aquele que ele tinha visto em Sumatra. Se apressou em ir para perto dele, calculando que para isso levaria meio dia andando.

Chico Buarque de Holanda [Benjamim,53. Ed. Mondadori,1999. Trad. Amina Di Munno]

Seguindo as Pegadas



Alguém passou por aqui procurando por elefante + símbolo + budismo.
Segui as pegadas do elefante e descobri coisas interessantes. Uma delas: Tem um boddhisattva que é representado sob um elefante brandindo uma espada. É um boddhisattva guerreiro, que corta a ignorância das mentes iludidas e deludidas. Ele se chama Fugen Bosatsu (Samantabhadra Bodhisattva). Tembém pode aparecer sobre um leão.

O bodhisattva de beleza universal, segura uma flor de lótus, representando a natureza búddhica, que é totalmente pura. Às vezes, ele é representado sobre um elefante, um dos maiores animais, simbolizando a força de sua compaixão.

No Budismo o Bodhisattva é aquele que pela própria santidade poderia ir para o nirvana, mas renúncia a ele temporariamente para salvar seus semelhantes. Todos nós devemos seguir o exemplo de compaixão dos Bodhisattvas sendo também boddhisattvas neste mundo.

Também encontrei na matéria na Rev. Superinteressante esse trecho:

“Assim como com qualquer símbolo religioso, a vida de Sidarta é povoada de lendas, como a do nascimento. Diz a lenda que sua mãe, Maya, sonhou que entrava em seu flanco (parte lateral do corpo entre o quadril e as últimas costelas) um elefante branco com a cabeça cor de rubí e seis presas. Desse encontro, em sonho, Sidarta foi concebido. Ele nasceu de cor dourada, com uma coroa orgânica no alto da cabeça, quarenta dentes brancos e unidos e centenas de símbolos desenhados nas plantas dos pés. “

Nesse caso acho que é a metáfora básica da concepção.

Na lenda, o elefante significa a mansidão e as seis presas, os sentidos do universo: norte, sul, leste, oeste, para cima e para baixo.”

E as centenas de símbolos desenhados na sola dos pés?
Já vi isso, mas nunca procurei saber o que tinha na sola do pé do Buda. Exoterismos à parte, agora fiquei curiosa!

Em outra página, pegada, diz que Buda teria sido gerado sem a contribuição básica do papi, e que ele nasceu com a forma de um elefante branco, concebido pelos deuses, como Jesus, Khrisna .... Enfim, lendas são lendas. Mas precisa inventar tudo isso? É que os indianos são muito folclóricos. E sua mitologia está cheia de deuses em forma de animais.
Então que chance um Buda com forma humana teria no meio daquela fauna toda?
Aconteceria o mesmo que aconteceu com Jesus, tentariam trucidá-lo. Buda foi salvo pela lenda!
Mas lá adiante, foi justamente um elefante quem tentou matar Buda.

11 outubro, 2002

Por que fazemos gasshô quando entramos e saímos da sala de meditação?



No Oriente quando duas pessoas se encontram elas cumprimentam uma a outra, de acordo com seu status, fazendo gasshô. As pessoas que são de classe alta, se inclinam apenas um pouquinho; as que pertencem a classes menores se inclinam mais profundamente. Essa é a hierarquia Oriental. Mas quando nós entramos na sala de meditação, nós deixamos fora essa mente alta-baixa; um imperador se inclina para o Buda e uma pessoa pobre tb. se inclina para o Buda. Isto é cultivar a humildade. Neste momento a mente se torna muito simples. Este tb. é o momento para prestar atenção e ter uma correta atitude com a situação. O Buda é o nosso ideal e nossa inspiração. Então a relação correta é se inclinar diante do altar.

Mestre Zen Seung Sahn [Revista Primary Point]